A hegemonia global contemporânea opera através de um “fascismo refinado” que substituiu a violência espetacular do século XX por mecanismos administrativos, financeiros e epistemológicos igualmente destrutivos, afirmou Busani Ngcaweni, diretor do Centro de Políticas Públicas e Estudos Africanos da Universidade de Joanesburgo, em conferência realizada no segundo dia do Fórum Acadêmico do Sul Global, nesta sexta (14).
“O fascismo não desapareceu. Ele se refinou. Removeu seu uniforme militarista e adotou novas linguagens e instituições”, disse Ngcaweni em sua palestra “Governança hegemônica como fascismo contemporâneo: desmembrando o mundo para governá-lo”.
Segundo o acadêmico sul-africano, o impulso imperial sobreviveu “escondido sob tecidos de civilidade e revestido na retórica do progresso e desenvolvimento”.
O professor argumentou que o fascismo contemporâneo “não grita mais, ele administra; não queima mais livros, ele molda algoritmos e comete violência epistêmica; não realiza mais desfiles, ele encena guerras de necessidade humanitária”. Essa mudança, segundo Ngcaweni, torna o estágio atual “mais perigoso que sua expressão anterior” porque aparece como racional e inevitável.
Para o professor da Universidade de Joanesburgo, as sanções econômicas, endividamento estrutural e vigilância de dados são ferramentas centrais desse novo fascismo. “Sanções matam de fome mais efetivamente que bombas. A dívida destrói mais completamente que o fogo. A vigilância de dados penetra mais profundamente que exércitos”, afirmou.
Governança desenvolvimentista contra governança hegemônica
Como contraponto à governança hegemônica, o acadêmico propõe o conceito de “governança desenvolvimentista”. Um exemplo dessa abordagem, segundo o autor, está na Conferência de Bandung de 1955, quando líderes da Ásia e África “declararam que as nações têm o direito de se desenvolver à sua própria maneira”.
“Bandung não foi simplesmente uma reunião. Foi uma proclamação moral. Afirmou que a liberdade não é caridade e que a civilização não é propriedade ocidental”, disse Ngcaweni, identificando ecos contemporâneos de Bandung nas iniciativas chinesas: a Iniciativa Global de Desenvolvimento, que promove prosperidade compartilhada; a Iniciativa Global de Segurança, que enfatiza segurança indivisível; a Iniciativa Global de Civilização, que celebra pluralidade cultural; e a Iniciativa Global de Governança, que propõe instituições baseadas em justiça em vez de força.
“O mundo pós-colonial herdou Estados sem soberania e governos sem poder. A governança desenvolvimentista reconhece essa ruptura e reconstrói voz e restaura agência”, explicou.
Ngcaweni enfatizou que a crise do Sul Global não é apenas econômica mas “epistêmica e comunicativa”. “Fomos conquistados não apenas por exércitos, mas por narrativas. Portanto, nossas línguas devem ser defendidas no código, nos corpora, nas revistas e na sala de aula. A soberania é falada, é codificada, é narrada”, afirmou.
O acadêmico invocou a linhagem intelectual que moldou diferentes lutas de libertação: Frantz Fanon, que ensinou que descolonização é “um programa de desordenamento total do significado colonial”; Samir Amin, que insistiu que nações periféricas não podem se desenvolver dentro de estruturas projetadas para mantê-las subordinadas; e Archie Mafeje, que mostrou como a própria antropologia tornou-se arma contra povos colonizados.
O Fórum Acadêmico do Sul Global, realizado entre 13 e 14 de novembro em Xangai, na China, é copromovido pela Universidade Normal do Leste da China, pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e pela Universidade de Joanesburgo, com o tema “Promovendo uma Nova Ordem para o Desenvolvimento Pacífico da Informação e Comunicação Mundial”.
