CORRIDA AMBIENTAL

COP30: mais um capítulo da Fábula do Agronegócio no Brasil

Conferência revela a distância entre o enfretamento à crise climática e o discurso "verde" das negociáções mundiais

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Marcha Global Indígena faz parte da programação da Aldeia, espaço paralelo à COP30, em Belém
Marcha Global Indígena faz parte da programação da Aldeia, espaço paralelo à COP30, em Belém | Crédito: Afonso Bezerra/Brasil de Fato

Defendo que o agronegócio produz um conjunto de mitos favoráveis à sua aceitação e perpetuação no Brasil. Como resultado, temos hoje um imaginário social a ele favorável, uma ideologia que o sustenta. Muitas ações são empreendidas por corporações e entidades de classe do agronegócio para atingir tal estágio de letargia de uma parte significativa da população, que efetivamente considera como verdadeiros os mitos criados. Com a COP30, que está encerando em Belém do Pará, temos uma excelente oportunidade de evidenciar, didaticamente, uma das formas de produção da fábula do agronegócio no Brasil.

Vamos por partes. A COP30 é a conferência da ONU para debater as mudanças climáticas, evento anual que reúne “líderes” mundiais, cientistas e representantes da sociedade civil organizada com o objetivo de debater e encontrar soluções para o enfrentamento da crise climática e dirimir seus impactos nefastos ao meio ambiente e a toda a sociedade, em prol de um futuro comum viável. Durante as COPs são realizadas muitas discussões entre os países e assinados acordos internacionais com tal objetivo.

É um evento que reúne milhares de pessoas. De acordo com dados que vêm sendo divulgados pela organização, mais de 55 mil pessoas estão inscritas na COP30 e em alguns eventos que ocorrem paralelamente. Este número é cerca de 10 mil pessoas menor que o contabilizado na COP29, que aconteceu no Azerbaijão. São muitos os motivos que podem ser arrolados para a menor participação no presente ano, tais como os preços extorsivos das hospedagens, totalmente fora do padrão da cidade, o que fez inclusive com que alguns países desistissem de enviar delegações. Mas este não é nosso foco aqui. Vamos à produção dos mitos do agronegócio.

Como vem sendo cada vez mais difundido pelos especialistas, entre os principais vetores da crise climática mundial temos as emissões de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. Estas são promovidas, entre outros fatores, pela queima de combustíveis fósseis (tais como carvão e derivados de petróleo), queimadas, desmatamento e por atividades agropecuárias, especialmente criação de bovinos, para citar alguns dos mais importantes.

No Brasil, o desmatamento e a agropecuária, que juntos promovem uma radical mudança nas formas de uso e ocupação da terra, têm grande peso no total das emissões de gases de efeito estufa. Ou seja, dois dos principais vetores das emissões de GEE se relacionam diretamente ao agronegócio. Não é à toa que parte dos mitos construídos por seus agentes está associada às questões ambientais. Poderíamos citar, como exemplo, o de que o agronegócio é ambientalmente sustentável; o de que os agrotóxicos não fazem mal ao meio ambiente e à saúde humana; o de que a ocupação das fronteiras agrícolas é inteiramente realizada em bases legais, entre outros mitos.

Vamos à justificativa para minha afirmação inicial de que, com a COP30, temos uma excelente oportunidade de evidenciar uma das formas de produção da fábula do agronegócio no Brasil. Para os objetivos do presente artigo, se quisermos traduzir a COP30 em uma única palavra, poderíamos utilizar contradição. Tal contradição pode ser expressa a partir da existência do que entendemos como três eventos paralelos, tendo à frente atores, objetivos e estratégias distintos.

Um primeiro evento, que podemos chamar de a COP “oficial”, reúne os chamados “líderes” mundiais, chefes de Estado e suas representações diplomáticas. Um segundo é o da sociedade civil organizada, dos movimentos sociais, organizações ambientais e de direitos humanos. Por fim, as corporações transnacionais compõem os agentes do terceiro evento. Parece que a luta de classes está posta, e de forma muito evidente.

De um lado, as reuniões “chapas-brancas”, dos chefes de Estado e respectivos corpos diplomáticos, tentam chegar a um consenso sobre temas complexos, mas sem efetivamente tocar na raiz do problema, que é a forma como o modo de produção capitalista se realiza, resultando em compromissos muito tímidos para a realidade presente e que, mesmo assim, pouco são concretizados.

Um segundo evento paralelo seria o da Cúpula dos Povos, composta por movimentos sociais organizados, povos originários, comunidades tradicionais e organizações não governamentais associadas à defesa do meio ambiente e dos direitos humanos (somam mais de mil), que entendem que, para enfrentar a crise climática, é preciso mudar o modo de produção capitalista. Aqui temos a diversidade, o espaço plural, os “líderes” da floresta que não têm a natureza como mercadoria. São, em grande parte, os excluídos, e transformam o evento, entre outros aspectos, em um palco de denúncias de todo tipo de violações. Neste espaço de luta e esperança, de maneira geral, são propostas soluções mais efetivas para sanar a crise climática, mas que pouco são encampadas pelas instituições que poderiam fazê-lo.

E o terceiro evento paralelo, organizado e patrocinado por corporações transnacionais, tem à frente segmentos de bancos, do agronegócio e da mineração, que, de maneira geral, possuem extensos passivos ambientais e sociais, tais como as mineradoras Vale e Hydro; os frigoríficos Marfrig e BRF; a Suzano, do segmento de papel e celulose; a Bayer, fabricante de agrotóxicos, entre outros. É com as ações que estão sendo realizadas por estas corporações do agronegócio que podemos exemplificar a fábula do agronegócio em sua contínua e profícua reprodução.

Entre os eventos que estão acontecendo associados a tais corporações transnacionais, podemos indicar os que ocorrem no espaço chamado AgriZone. São algumas centenas de atividades corporativas e têm entre seus objetivos principais propagandear tecnologias, soluções “verdes” e projetos do agronegócio que, em tese, seriam soluções sustentáveis para a agropecuária e que ajudariam a combater a crise climática.

Vale lembrar que várias das empresas que estão patrocinando a AgriZone são as mesmas que promovem o desmatamento no Cerrado e na Amazônia; mudanças abruptas nas formas de uso e ocupação do solo com a implantação de monocultivos de commodities (soja, milho, algodão); violações dos direitos dos povos originários; que estão associadas, direta ou indiretamente, a processos de grilagem e financeirização da agricultura; à contaminação do solo e dos rios; e aos nefastos impactos na saúde das pessoas com a disseminação do uso de agrotóxicos; que promovem a privatização dos rios da Amazônia com a implantação de seus imensos e impactantes terminais portuários; que financiam a bancada ruralista para aprovação de leis que impactam diretamente na não demarcação das terras indígenas, para citar alguns.

Ou seja, corporações com imensos passivos ambientais e sociais, com histórico de mercantilização da natureza, estão presentes na COP30 com um discurso de agricultura sustentável e justiça climática, produzindo novos capítulos da fábula do agronegócio no Brasil.

Alguém acredita que é possível alguma mudança visando mitigar a crise climática que seja promovida pelos mesmos agentes que, em grande parte, são promotores de tal crise? Será que alguém supõe como possível que a Bayer, entre as maiores fabricantes de agrotóxicos do mundo, que tanto tem adoecido e mesmo provocado a morte de agricultoras e agricultores, possa trazer alguma solução para a crise climática? Ou é só mais um conjunto de ações do “lobby verde” ou greenwashing de corporações que são provocadoras centrais da crise climática que vivemos?

Destaco ainda que as corporações transnacionais associadas ao agronegócio, à mineração e ao sistema financeiro estão também patrocinando alguns dos grandes veículos da mídia presentes ao evento. Naturalmente, aqui cabe também a mesma indagação: alguém acredita que tais veículos, sabidamente nada independentes, terão algum senso crítico nas matérias que produzirão?

Vale lembrar a bem-sucedida operação publicitária empreendida pela Rede Globo de Televisão, intitulada “Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é Tudo”. Ainda vigente, a campanha foi lançada em meados de 2016, contribuindo expressivamente para a desinformação de parte significativa da população brasileira. Não é demais lembrar que essa rede de televisão é o principal canal aberto do Brasil, pertencente ao Grupo Globo, a maior corporação de mídia e comunicação da América Latina e um dos maiores conglomerados de mídia do mundo, indiscutivelmente o de maior audiência no Brasil.

Essa campanha da Rede Globo é um marco estruturante para qualquer periodização que se deseje estabelecer sobre a relação entre o agronegócio e a mídia brasileira. Dessa forma, entendo que o papel da Rede Globo de Televisão, assim como o de todos os demais meios de comunicação, foi e continua sendo central para a construção dos mitos do agronegócio, ou seja, trata-se de agentes responsáveis pela difusão de vários mitos do agronegócio no imaginário nacional.

Compreendo que a criação dos mitos associados ao agronegócio está entre as principais ações da concertação política em torno do setor, apresentando-o como um “produto” que vem sendo consumido por grande parte da população brasileira. Adaptando a noção do grande geógrafo Milton Santos — aplicada a outros temas —, afirmo que o que está ocorrendo durante a COP30, promovido pelas corporações transnacionais do agronegócio, é mais um capítulo para a promoção de “um consumidor mais-que-perfeito” para o agronegócio brasileiro.

É urgente a desconstrução dos muitos mitos criados sobre o agronegócio, visto que estes funcionam como nós estruturais da sociedade brasileira e permitem o uso corporativo do território livremente pelas corporações hegemônicas do setor, que se apropriam dos bens naturais de toda a população.

Para a diminuição da crise climática no Brasil, precisamos urgentemente realizar a reforma agrária popular; incrementar a agroecologia; demarcar os territórios indígenas; mudar o sistema alimentar; deixar de financiar a produção de commodities; construir uma sociedade de direitos e não de privilégios, como a que vivemos.

* Denise Elias é professora do Programa de Pós-graduação em Geografia da UECE

*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Camila Garcia

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