FIM DE CICLO?

Equatorianos impõem primeira derrota eleitoral a Noboa e presidente de extrema direita não poderá permitir bases militares estrangeiras no país

Analista fala em fim de ciclo para governo que apostou na proximidade com os EUA e polarização política

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População na cidade de Guaiaquil celebra a vitória do Não no plebicito de 16 de novembro

O presidente equatoriano Daniel Noboa sofreu um duro revés eleitoral no domingo (16): a maioria dos eleitores rejeitou seu referendo para instalar bases militares estrangeiras e redigir uma nova Constituição.

Segundo a apuração parcial de 81% dos votos, o ‘Não’ venceu de forma surpreendente, depois que as pesquisas indicaram que as iniciativas do mandatário obteriam a maioria dos apoios com ampla margem.

O presidente milionário de 37 anos cancelou um encontro previsto com a imprensa perto de seu reduto em Olón e publicou uma curta mensagem na rede social X: “Respeitamos a vontade do povo equatoriano. Nosso compromisso não muda”.

Fim de ciclo?

O analista político Matías Abad Merchán afirmou ao jornal Primicias que “a mensagem das urnas é retumbante: não se governa apenas com narrativas”.

“Todo ciclo político tem um ponto de ruptura: o de Daniel Noboa chegou neste domingo”, afirmou ele. O analista disse que o presidente de extrema direita governou desde o início de seu mandato, em novembro de 2023, sustentado “pela narrativa do ‘punho de ferro’, pela comunicação política intensa e pelo esgotamento da desgastada divisão Correismo-anti-Correismo”.

“Mas a população não se deixou levar por essa dicotomia. Não se deixou levar porque a votação de domingo teve origem em outros fatores: na persistente insegurança, no aumento do custo de vida, no aumento do IVA e dos preços do diesel, no cansaço da arrogância política e no uso sistemático da comunicação como substituto para uma governança eficaz.”

“Quando a vida cotidiana se torna difícil, o simbolismo perde sua força e os atalhos emocionais deixam de funcionar.”

Quase 14 milhões de equatorianos foram convocados a votar de maneira obrigatória em meio à preocupação pela violência crescente e às tensões pelos bombardeios dos Estados Unidos contra embarcações que supostamente traficam drogas no Caribe e no Pacífico.

Além da oposição ao retorno das bases militares estrangeiras, que estão proibidas desde 2008 (com 61% dos votos) e à redação de uma nova Carta Magna por uma Constituinte (62%), os equatorianos rejeitaram o fim do financiamento estatal aos partidos políticos (58%) e a redução do número de congressistas (53%).

O presidente convocou o referendo depois que a Justiça bloqueou várias de suas iniciativas por considerá-las contrárias a direitos fundamentais, como a castração química para estupradores ou a vigilância sem ordem judicial.

O Equador enfrenta uma crise de segurança inédita, com a maior taxa de homicídios da América Latina: 39 para cada 100.000 habitantes em 2024, segundo o site Insight Crime.

No poder desde novembro de 2023, Noboa mobilizou soldados nas ruas e nas prisões, ordenou grandes operações nos redutos do tráfico de drogas e declarou estados de exceção com frequência, medida criticada por organizações de defesa dos direitos humanos.

Muito próximo à Casa Branca e com um discurso de linha-dura contra o crime, Noboa buscava mais poder para enfrentar as diversas gangues que semeiam terror no país, que há uma década era considerado um local tranquilo.

Desde que chegou ao poder, o líder equatoriano tem ampliado os laços com Washington mediante acordos migratórios, tarifários e de segurança. Mas os eleitores rejeitaram a iniciativa dos Estados Unidos de retornar à base militar de Manta, onde operaram voos antidrogas entre 1999 e 2009.

Enquanto México, Brasil, Colômbia e Venezuela reprovam os bombardeios no Caribe e no Pacífico que deixaram pelo menos 83 mortos, Noboa defende a ofensiva como estratégia contra o tráfico de cocaína que sai sobretudo de seus portos.

Nova Constituição

Organizações de defesa dos direitos humanos denunciam abusos das forças de segurança e o aumento dos desaparecimentos de pessoas sob custódia de policiais e militares.

Ao volante de seu Porsche, sobre um tanque do exército ou dançando com seguidores nas redes sociais, Noboa promove a imagem de governante jovem e implacável contra o crime.

Na semana passada, divulgou fotos de centenas de presos com uniformes laranja, cabeças raspadas, alguns de joelhos e com as mãos na nuca, enquanto eram levados para sua nova megaprisão, uma atitude que lembra as protagonizadas por seu homólogo salvadorenho Nayib Bukele.

Noboa planejava mudar a Carta Magna por considerá-la demasiadamente “garantista” com os criminosos e havia entrado em conflito com a Corte Constitucional ao organizar protestos contra seus magistrados.

Este é o pior embate eleitoral do presidente desde que, em 2024, conseguiu a aprovação via referendo da extradição de equatorianos e o aumento de penas para o crime organizado.

Editado por: Rodrigo Durão Coelho

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