O reencontro com a vida e a obra de Dyonelio Machado ganha novos contornos a partir do livro-reportagem Dyonelio Machado – O alienista do Cati com tinta de jornal nos dedos (Carta Editora, 2025), do jornalista José Weis. A publicação, resultado de mais de três anos de pesquisa em acervos históricos, bibliotecas, coleções pessoais e entrevistas com estudiosos, busca reconstruir a trajetória do escritor gaúcho e iluminar a influência decisiva que o jornalismo exerceu sobre a sua produção literária. O lançamento ocorre em Porto Alegre, nesta terça-feira (18), no Delfos – Espaço de Documentação e Memória Cultural da PUCRS.
Com linguagem investigativa e método documental, Weis examina a formação intelectual de Dyonelio Machado, suas relações políticas, sua produção em jornais e as circunstâncias que marcaram seus principais livros. Ao revisitar registros de época, o autor sustenta que o diálogo constante do escritor com a imprensa moldou tanto o estilo quanto os temas de suas narrativas. Para ele, compreender o vínculo entre jornalismo e ficção é determinante para recolocar Dyonelio no centro das discussões sobre o Modernismo brasileiro.
Jornalismo como matéria-prima literária
A ideia de que o jornalismo foi decisivo para o trabalho do romancista aparece como um dos eixos centrais da obra. Weis defende que a experiência de Dyonelio como articulista, cronista e observador do cotidiano urbano influenciou diretamente a construção dos personagens e o ambiente político de livros como Os ratos e O louco do Cati. Segundo o autor, o escritor utilizava o jornal como plataforma de debate público e como laboratório narrativo, prática que teria marcado toda sua vida intelectual.
O professor de literatura Luís Augusto Fischer, responsável pelo prefácio, reforça a interpretação. Ele afirma que o livro de Weis aprofunda o entendimento sobre como a experiência do autor no campo político, no jornalismo e na medicina psiquiátrica se entrelaçou de modo complexo. Fischer escreve que a pesquisa esclarece aspectos subjetivos e objetivos que permeiam a obra dyoneliana, contribuindo para torná-la mais nítida para leitores contemporâneos.
Entre prisões, perseguições e disputas políticas
A reconstrução biográfica realizada na obra também revisita episódios decisivos da vida do escritor. Dyonelio Machado foi preso durante o governo de Getúlio Vargas, em razão de sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro. O período de encarceramento, dividido entre Porto Alegre e Rio de Janeiro, marcou profundamente sua produção intelectual. Durante a prisão, o autor conviveu com figuras importantes da resistência política, entre elas o escritor alagoano Graciliano Ramos.
Weis aponta que a experiência do cárcere, as sessões de tortura e a perseguição permanente por parte do aparato repressivo estatal deixaram marcas indeléveis no pensamento e na obra do romancista. Ele destaca que, embora Dyonelio tenha sido eleito deputado estadual em 1946, permaneceu pouco tempo no cargo devido aos conflitos políticos e ao contexto nacional de repressão ao comunismo. Para o jornalista, o caráter contestatório de sua literatura deve ser lido à luz dessas vivências.
Caminhos da redescoberta
A recepção crítica da obra de Dyonelio, segundo o autor do livro-reportagem, comporta períodos de maior destaque e fases de esquecimento. Weis observa que a alternância entre reconhecimento e invisibilidade é característica de autores que construíram carreira à margem dos circuitos hegemônicos da indústria cultural. Para ele, o escritor sempre foi sustentado principalmente pela força da sua produção, e não por estratégias de autopromoção ou exposição midiática.
Pesquisadores do campo literário, como Jonas Dornelles e Camilo Raabe, que integram o grupo de entrevistados do livro, defendem que o interesse acadêmico por Dyonelio se renovou nas últimas décadas. A partir dos anos 1990, com o trabalho da historiadora e professora Maria Zenilda Grawunder, houve um esforço sistemático de organização de seu acervo, movimento que resultou na criação de um espaço dedicado ao escritor no Delfos. A consolidação desse acervo permitiu a ampliação das investigações sobre sua biografia e obra, fortalecendo a posição do autor no cenário literário brasileiro.
O médico, o jornalista, o militante
A trajetória multifacetada de Dyonelio Machado ocupa parte substancial da obra de Weis. Nascido em Quaraí em 1895, ele atuou como médico e é frequentemente apontado como precursor na área de psiquiatria no Brasil. Sua atuação jornalística se estendeu por décadas, com colaboração em diversos periódicos nacionais e participação na fundação do jornal Tribuna Gaúcha, ao lado do historiador Décio Freitas. A vinculação política ao PCB, sua produção ficcional e o engajamento intelectual compõem uma biografia marcada por tensões e enfrentamentos.
Na literatura, sua contribuição é amplamente reconhecida. Seu livro Os ratos, publicado em 1935 e vencedor do Prêmio Machado de Assis, tornou-se um clássico, frequentemente estudado ao lado de obras como Angústia, de Graciliano Ramos. A Trilogia da Liberdade, composta por Deuses econômicos, Sol subterrâneo e Prodígios, além de títulos como O louco do Cati e Endiabrado, integra um conjunto que dialoga com crítica social, análise psicológica e observação rigorosa da vida urbana.
A construção do livro-reportagem
Weis relata que concebeu o projeto em 2022, ao perceber que suas reportagens sobre o escritor poderiam se articular como um percurso narrativo mais amplo. O autor destaca que a pesquisa envolveu releituras sistemáticas dos livros de Dyonelio, coleta de documentos inéditos e diálogo com especialistas. Para o jornalista, o livro-reportagem é uma forma de oferecer ao público uma narrativa acessível, sem prescindir do rigor histórico.
Ele afirma que o subtítulo da obra sintetiza o perfil multifacetado de Dyonelio: alienista pela atuação médica, personagem do Cati pela referência ao romance mais emblemático e homem de imprensa pela prática constante de escrever em jornais. Para Weis, o uso da tinta como metáfora pretende transmitir a ideia de que o jornalismo não apenas acompanhou, mas atravessou toda a vida intelectual do escritor.
Entre literatura e memória
Ao dedicar-se ao resgate da trajetória de Dyonelio, o livro de José Weis reforça a importância da preservação documental e do papel das instituições de memória na construção de narrativas históricas. Atualmente, o acervo do escritor no Delfos reúne objetos pessoais, manuscritos, correspondências, fotografias e recortes de jornais, compondo uma fonte central para estudos sobre sua vida e obra.
O lançamento da obra coincide com dois marcos: os 130 anos de nascimento e os 40 anos da morte do autor. Para pesquisadores e leitores, o livro funciona como convite à redescoberta de um nome que, embora fundamental na literatura brasileira, permanece menos difundido fora dos círculos especializados. Weis acredita que o conhecimento desse legado contribui para reconstruir parte da história intelectual do Rio Grande do Sul e para compreender as relações entre literatura, imprensa e política no século 20.
