O cantor e compositor Jards Macalé morreu nesta segunda-feira (17), aos 82 anos, no Rio de Janeiro (RJ). Ele estava internado no hospital da Unimed, na Barra da Tijuca, e faleceu após complicações decorrentes de problemas pulmonares e uma parada cardíaca.
“Jards Macalé nos deixou hoje. Chegou a acordar de uma cirurgia cantando ‘Meu Nome é Gal’, com toda a energia e bom humor que sempre teve”, publicou sua equipe nas redes sociais. Ainda não há informações sobre o velório ou cerimônia de despedida.
Figura inquieta e versátil da música brasileira, Macalé lançou discos fundamentais para a Música Popular Brasileira (MPB) a partir dos anos 1970. Embora frequentemente associado à Tropicália, recusava esse rótulo e buscava construir uma linguagem própria, misturando lirismo, crítica política e experimentalismo.
Nos últimos anos, seguia em atividade intensa. Em 2022, lançou o álbum Coração Bifurcado, com participações de Maria Bethânia e Ná Ozzetti, reafirmando o amor como gesto político. Pouco antes de ser internado, apresentou-se no festival Doce Maravilha, no Rio, onde emocionou o público ao revisitar canções do disco Jards Macalé (1972), lançado durante o auge da repressão da ditadura militar.
Macalé destacou-se, além da arte, por sua postura política posicionada e participativa, tanto no período da ditadura militar quando no recente governo de extrema direita do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Da contracultura ao gesto político do amor
Em uma de suas últimas entrevistas exclusivas, concedida ao Brasil de Fato por ocasião de seus 80 anos, Macalé refletiu sobre o momento político do país e a urgência de se falar de amor como ferramenta de resistência. A conversa, publicada em março de 2023, revelou um artista ainda inquieto, com novos projetos musicais, filmes em andamento e uma visão aguçada sobre o Brasil pós-Bolsonaro.
“Falar de amor é um gesto político, além de amoroso”, afirmou ao BdF. Na entrevista, ele explicou que o disco Coração Bifurcado foi concebido como resposta aos “quatro anos de ódio” vividos pelo país. A obra, segundo ele, era ao mesmo tempo uma “carta amorosa ao público” e uma tentativa de reconstruir o que havia sido destruído pelo rancor e pela divisão.
A entrevista também revelou os bastidores de sua intensa agenda criativa: um álbum instrumental em produção, dois filmes em desenvolvimento e o desejo de viver “mais 80 anos”, como brincou, com lucidez e entusiasmo.

Banquete em tempos sombrios
Com mais de 20 álbuns lançados, Macalé atravessou diferentes fases da cultura brasileira. Em 1973, em plena ditadura militar, organizou o show Banquete dos Mendigos, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. O espetáculo reuniu artistas como Paulinho da Viola, Gal Costa, Milton Nascimento, Chico Buarque e Raul Seixas, marcando os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos com música, poesia e contestação política.
Considerado um ícone da contracultura e uma figura de referência da música brasileira, Macalé seguia criando, lançando e se posicionando até seus últimos dias. Seu legado permanece vivo nas canções e na coragem de fazer da arte uma linguagem sem concessões.

Um artista entre margens
Jards Anet da Silva nasceu em 3 de março de 1943, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio. Cresceu ouvindo valsas e modinhas tocadas pelos pais e, mais tarde, circulou entre os bairros de Copacabana e Ipanema. Nos anos 1960, aproximou-se de nomes como Nara Leão, Maria Bethânia e Vinicius de Moraes.
Ganhou projeção com a performática Gotham City, no Festival Internacional da Canção, em 1969, e foi um dos responsáveis pela sonoridade do álbum Transa (1972), de Caetano Veloso, gravado durante o exílio do baiano em Londres. Também foi autor de canções marcantes como Vapor Barato, Hotel das Estrelas e Só Morto.
Além da música, Macalé atuou no cinema, teatro, televisão e nas artes plásticas. Compôs trilhas para filmes de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, e colaborou com artistas visuais como Hélio Oiticica e Lygia Clark.
