Desigualdade

Ultraprocessados criam ‘novo mapa da fome’ nas periferias, diz coordenador de pesquisa no Jardim Ibirapuera (SP)

Estudo revela insegurança alimentar grave em um terço dos moradores do bairro e força das redes comunitárias

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Insegurança alimentar tem “gênero, cor e CEP”, aponta Marcelo Zarzuela Coelho
Insegurança alimentar tem “gênero, cor e CEP”, aponta Marcelo Zarzuela Coelho | Crédito: Divulgação/Beco Cria

A insegurança alimentar grave atinge quase um terço dos moradores do Jardim Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, índice 2,5 vezes superior à média da capital paulista. O alerta é do estudo Etnografia da Alimentação e da Fome, conduzido pelo Observatório Ibira 30, ligado ao Bloco do Beco. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o coordenador da pesquisa, Marcelo Zarzuela Coelho, afirmou que os dados revelam como a fome hoje “tem gênero e cor” e como a expansão dos ultraprocessados está criando um “novo mapa da fome” no país.

Segundo ele, o levantamento mostra que “um terço da nossa comunidade tem dificuldade de se alimentar”, o que inclui recorrer a empréstimos para comer, pular refeições e mães “deixarem de fazer uma refeição para que seus filhos comam”. Nas periferias, a fome atinge com mais força “as mães de família, especialmente as mães de família negras”, ressalta o pesquisador.

O levantamento também analisou hábitos alimentares locais e identificou que as crianças e adolescentes são especialmente afetados pela propaganda digital. “A periferia é o lugar onde o ultraprocessado mais circula”, diz Coelho. Ele aponta que, mesmo com o esforço para tirar o Brasil do mapa da fome, cresce um “mapa das pessoas que se alimentam mal, mal nutridas; e esse mapa, assim como o mapa anterior, tem endereço, tem CEP, tem cor, tem gênero”.

O estudo será lançado nesta terça-feira (18), às 18h30, no anfiteatro Paula Souza, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Ingressos gratuitos podem ser adquiridos no Sympla.

Hortas, redes de vizinhança e cultura alimentar

Coelho destaca que as respostas comunitárias são decisivas diante da ausência do Estado. “A fome é um tema silencioso”, diz ele, explicando que o tema é cercado por vergonha e invisibilidade. Em meio a isso, surgem alternativas como as hortas urbanas criadas pelos próprios moradores em parceria com o Bloco do Beco.

“É uma solução super importante porque produz o alimento fresco para ser consumido na hora”, afirma. Para além do impacto alimentar, ele ressalta benefícios ambientais, redução de custos e efeitos positivos para a saúde mental. “Os moradores que trabalham com essas hortas relatam uma série de benefícios conectados com saúde mental”, indica.

Outra frente é a chamada rede informal de segurança alimentar: vizinhos, feiras, mercadinhos e casas do norte que permitem comprar fiado. “É o famoso pego agora e pago quando receber”, explica. Esses laços, reforça, sustentam a alimentação em territórios nos quais equipamentos públicos de abastecimento praticamente não existem.

O coordenador avalia que a avalanche de publicidade de ultraprocessados nas periferias exige uma ação direta na comunicação popular. “Precisamos de influenciadores que falem de comer bem, desse exército de boas práticas”, defende. Segundo ele, “todo mundo tem um celular e é contaminado pela propaganda do alimento ultraprocessado”, enquanto o acesso à informação qualificada sobre alimentação é restrito.

Ele acredita que o estudo pode orientar decisões governamentais, mas insiste que é preciso descentralizar a produção de informação. “Outras comunidades precisam territorializar esse indicador”, diz. A equipe agora trabalha para transformar os resultados em microdados que ajudem a mostrar realidades fora do radar oficial. “Queremos transformar esse dado no dado da comunidade que não é ouvida, que não participa do censo”, aponta.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz
Ler em: English

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