LÍTIO

‘Mulas de água’: prefeitos do Jequitinhonha (MG) e bispo exigem retratação de CEO da Sigma

Fala polêmica de Ana Cabral se soma a um cenário de produção em queda, financiamento travado e questionamentos

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"Nós treinamos aquela geração perdida do Vale, que eram mulas de água, que as crianças que não tinham escola carregavam água na cabeça", declarou a CEO da empresa
“Nós treinamos aquela geração perdida do Vale, que eram mulas de água, que as crianças que não tinham escola carregavam água na cabeça”, declarou a CEO da empresa | Crédito: Divulgação: Sigma Lithium

“Nós treinamos aquela geração perdida do Vale, que eram mulas de água, que as crianças que não tinham escola carregavam água na cabeça. Elas passavam o dia sem aula, carregando água da cisterna pública para casa, da casa para a cisterna pública. Nós instalamos caixa d’água, abrimos quatro escolas e essas crianças não foram educadas, foram trabalhar no bananal”.

A declaração é de Ana Cabral, CEO da mineradora Sigma Lithium, em entrevista ao programa Fast Money do canal Times Brasil na COP30, e viralizou entre os moradores das cidades de Araçuaí e Itinga. A expressão “mulas de água”, usada para se referir às crianças do Vale do Jequitinhonha, foi o estopim para uma forte e unificada onda de repúdio, unindo prefeitos, produtores de banana e o bispo, Dom Geraldo da Diocese de Araçuaí em críticas públicas à postura da executiva.

A controvérsia foi amplificada por outra alegação de Cabral no mesmo vídeo: a de que a empresa teria “aberto quatro escolas”. A afirmação foi categoricamente rebatida por João Bosco Cordeiro, prefeito de Itinga, que esclareceu que as escolas já existiam e que a empresa apenas reformou duas unidades.

Não foi a primeira vez que Ana Cabral utilizou a expressão “mulas de água” para se referir às crianças do Vale. Em discurso na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), durante a cerimônia em que recebeu o título de cidadã honorária do estado, ela repetiu a frase ao descrever a trajetória de jovens que, segundo ela, antes carregavam água na cabeça e hoje trabalham como operadores de fábrica na Sigma.

Na ocasião, também afirmou que os filhos dessas famílias estudam em escolas construídas pela empresa e que, desde 2012, nenhum acionista recebeu dividendos, com todo o lucro sendo reinvestido no território.

Posicionamentos

Logo após a repercussão da entrevista, prefeitos da região se manifestaram em defesa da dignidade do Vale do Jequitinhonha. Em carta aberta, o prefeito de Araçuaí, Tadeu Barbosa, ressaltou que a agricultura — especialmente a produção de banana — sustenta famílias há décadas com trabalho honesto, técnico e moderno.

Barbosa repudiou a forma como a CEO da Sigma se referiu às crianças do Jequitinhonha, afirmando que a imagem de “mulas de água” pertence a um passado distante e não reflete a realidade atual do município, onde nenhuma criança deixa de estudar para carregar água. O prefeito reforçou que o setor agrícola merece reconhecimento, não estigmatização, e que a educação é assegurada por lei e plenamente respeitada no município.

Em Itinga, o posicionamento oficial também foi firme. Em nota pública intitulada “Registro de Descontentamento”, a Prefeitura repudiou veementemente as declarações da CEO da Sigma Lithium, classificando-as como ofensivas e incompatíveis com o respeito devido às crianças e aos trabalhadores do Vale.

O documento esclarece que as escolas mencionadas pela executiva já existiam antes da chegada da empresa, tendo apenas duas unidades sido reformadas em parceria com o município. A nota reforça ainda que o uso recorrente da expressão “mulas de água” é inaceitável e desrespeita a história e a dignidade da população itinguense — um povo trabalhador, resiliente e comprometido com o desenvolvimento responsável.

Sigma

A crise de imagem provocada pelas declarações da CEO Ana Cabral se soma a um cenário de intensos questionamentos sobre os pilares financeiro, operacional e de sustentabilidade da Sigma Lithium.

Os relatórios financeiros da companhia revelam um quadro de contrastes. No terceiro trimestre de 2025, a empresa reportou uma queda de 31% na receita em relação ao mesmo período do ano anterior — passando de US$ 41,4 milhões para US$ 28,5 milhões. No mesmo trimestre, o EBITDA (lucro, impostos, depreciação e amortização) foi negativo em US$ 6,2 milhões, sinalizando fragilidade na geração de caixa.

Fonte: Reprodução de peça publicada no “Comunicado de Imprensa” disponível na página de internet da empresa

Consultado pela reportagem, o economista Weslley Cantelmo, do IBMEC, contextualiza que resultados negativos podem ocorrer no setor de mineração, que opera com base em ciclos de preços e especulação. “É muito comum que os projetos de mineração fiquem em standby por alguns anos, esperando atingir o nível de preço adequado para expansão. Isso funciona assim pro ferro, por exemplo, e no caso do lítio também não é diferente”, afirma Cantelmo.

A Sigma Lithium, no entanto, está em plena operação comercial desde 2023. Nesse contexto operacional, os próprios relatórios da companhia apontam uma queda de 36% na produção de lítio no último trimestre (de 68,4 mil para 44 mil toneladas).

Conforme o relatório da própria empresa, a redução na produção coincidiu com a saída da Fagundes Mineração, em outubro de 2025, responsável por operar as minas da Sigma desde 2022. O site Brasil Mineral publicou em agosto deste ano que “segundo informações extraoficiais, a empresa terceirizada estaria abandonando a região pela falta de pagamentos da contratante”.

     Fonte: Sigma Lithium 3Q25 Results

Paralelamente, a situação financeira da empresa é evidenciada pela dificuldade em acessar um financiamento de R$ 487 milhões aprovado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) há 15 meses. Conforme já reportado pelo Brasil de Fato, o próprio banco confirmou que não houve desembolso porque “restam ser cumpridas, por parte da empresa, condições prévias”. A apuração desta matéria revela que a principal condição é a apresentação de garantias bancárias, mas nenhum dos grandes bancos brasileiros aceitou garantir a operação.

Carbono zero?

Outro ponto que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do que a empresa chamou de seu primeiro carregamento de lítio “zero carbono” é a origem dos créditos utilizados para compensar as emissões.

Uma reportagem investigativa do Repórter Brasil, em parceria com o CLIP e o Pulitzer Center, revelou que os créditos adquiridos pela Sigma são provenientes de um projeto na Amazônia investigado pela Polícia Federal (PF) por envolvimento em grilagem, corrupção e desmatamento. Questionada pela Repórter Brasil, à época, a empresa não informou se substituiu os créditos sob suspeita.

Bananicultura

O ponto mais sensível das declarações de Ana Cabral foi a insinuação de que crianças da região “não foram educadas, foram trabalhar no bananal” — um ataque direto a um setor que há décadas sustenta a economia local com dignidade. A reação dos produtores foi imediata.

Elisa Leal, CEO da FBL Agricultura e Pecuária — uma das principais empregadoras da região há mais de 40 anos — publicou um vídeo nas redes sociais rebatendo as acusações. “Aqui nunca existiu trabalho infantil. Nunca. Nós jamais vamos permitir que alguém de fora use de mentira sobre a nossa região só para ter visibilidade”, declarou.

Sirley Ramalho, gerente administrativo da Fazenda Rochedo, que atua há 12 anos na região, em entrevista para o Brasil de Fato, reforçou o compromisso do setor com a legalidade. “Somos comprometidos com nossos funcionários em todos os seus direitos. Respeitamos todas as licenças e procedimentos legais”. A empresa produz cerca de 500 toneladas mensais de bananas prata e nanica, destinadas ao estado do Rio de Janeiro.

Enquanto a Sigma Lithium constrói uma narrativa que, segundo os prefeitos, “não traduz o que o Jequitinhonha vive” e “é inadequada e inaceitável”, os dados oficiais do IBGE reforçam a importância da agricultura para a região. A bananicultura em Araçuaí e Itinga, os dois municípios onde a mineradora atua, movimenta R$ 33,3 milhões por ano e representa a espinha dorsal da economia agrícola local.

Em Araçuaí, a banana responde por 79,6% do valor total da produção agrícola, gerando R$ 28,7 milhões anuais. Em Itinga, o setor representa 71,6% da economia agrícola. A análise dos dados revela um índice de eficiência notável: embora ocupe apenas 17% da área agrícola de Araçuaí, a bananicultura gera quase 80% da riqueza rural do município.

Cada hectare de banana rende, em média, R$ 75.611,00 por ano — um valor 18,6 vezes maior que a média das demais culturas da região.

Barreto resume. “A banana gera renda para nossa região, movimenta o comércio e coloca alimento na mesa de milhares de pessoas. Só a FBL doa 15 toneladas de banana por mês. Isso é compromisso social real, concreto. Enquanto alguns falam, nós aqui fazemos”.

“Exigimos retratação

Além da contestação das prefeituras de Araçuaí e Itinga, a crítica mais contundente veio da

mais alta autoridade religiosa da região. Em nota oficial, o bispo da Diocese de Araçuaí, Dom Geraldo dos Reis Maia, manifestou a indignação da Igreja e da comunidade. “A Diocese de Araçuaí repudia veementemente declarações recentes da Sra. Ana Cabral […] na qual ela se referiu a uma ‘geração perdida do Vale’ e citou crianças que seriam ‘mulas de água’, além de outras inverdades”, afirma o documento.

A nota vai além do repúdio e exige ações concretas da mineradora. “Exigimos retratação imediata dessas suas declarações e esclarecimentos sobre a atuação social da Sigma Lithium na região, incluindo o processo de paralisação da empresa, que gerou desemprego para a população local”, conclui o bispo.

Fonte: Reprodução

Dom Geraldo dos Reis Maia, Bispo de Araçuaí. Foto: Arquidiocese de Uberaba

Outro lado

A reportagem do Brasil de Fato enviou pedidos formais de esclarecimento à Sigma Lithium Corporation e à Fagundes Mineração e a até o fechamento desta edição, nenhuma das empresas retornou os contatos. O espaço segue aberto a manifestações.

Editado por: Elis Almeida

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