O cenário mundial mostra o crescimento de modelos econômicos que colocam a vida no centro. A economia solidária é hoje uma alternativa concreta de desenvolvimento sustentável e inclusão social. É um caminho que combina autogestão, cooperação e respeito ao meio ambiente — e que se torna ainda mais urgente após os extremos climáticos de 2024, quando tantos empreendimentos e famílias foram impactados.
E as feiras de comercialização desta forma de economia são espaços de fomento ao comércio justo e consumo consciente. Sempre digo que nossas feiras não são apenas espaços de venda. São territórios de trocas, de convivência, de construção comunitária. Nelas, o vínculo, entre quem faz e quem consome, se fortalece; a microeconomia local ganha vida; a renda circula no território; e o trabalho coletivo se transforma em política de desenvolvimento. Quando alguém escolhe presentear comprando direto de quem produz, faz mais do que uma compra: faz uma escolha política, econômica e social.
E em breve, entre 1º e 13 de dezembro, o Largo Glênio Peres volta a ser ocupado por um movimento que cresce de forma silenciosa, persistente e profundamente transformadora: a economia solidária. A 27ª edição da Feira Estadual da Economia Solidária chega maior, mais diversa e, pela primeira vez, com duas semanas inteiras dedicadas ao encontro entre quem produz e quem consome, numa relação mais justa, sustentável e consciente.
A ampliação do evento não é um gesto administrativo. É um sinal do tempo. A cada ano, mais pessoas buscam produtos com história, com identidade e com vínculo territorial; mais consumidores querem saber quem fez aquilo que colocam na mesa ou vestem no corpo; mais famílias procuram alimentos da agricultura familiar, artesanato autoral, confecções criativas, itens produzidos em pequena escala, com cuidado, com afeto e com responsabilidade ambiental. É essa demanda crescente que nos levou a dobrar o período da feira, atendendo a pedidos do público.
Neste retorno ao coração de Porto Alegre, mais de 300 empreendimentos de todas as regiões do estado trazem para o centro da cidade uma cadeia produtiva que resiste às desigualdades e reafirma o valor do trabalho coletivo. São 160 expositores, 84 estandes e uma expectativa de circulação de 600 mil pessoas. Cada uma delas terá a chance de conhecer produtos únicos, autorais, exclusivos — resultado da criatividade, da diversidade e do saber acumulado por gerações de trabalhadores e trabalhadoras.
E faço aqui um convite simples, mas carregado de sentido: traga sua sacola. Ao evitar o uso de plástico, reforçamos os princípios que sustentam esse modelo econômico: responsabilidade ambiental, consumo consciente e compromisso com o futuro.
A abertura oficial, no dia 2, às 9h30, simboliza mais do que o início de uma feira. Ela celebra políticas públicas que precisam avançar. Teremos a posse do Conselho Estadual de Economia Solidária e a presença do Secretário Nacional de Economia Solidária, Gilberto Carvalho, que anunciará novas ações de apoio ao setor. Esse alinhamento entre governo federal, estadual, movimentos sociais, universidades e empreendimentos é essencial para ampliar a escala e o impacto da economia solidária no país.
Essa compreensão também orienta o Seminário que integra a programação, com dois dias de debates no auditório do Cpers, próximo ao Largo. No dia 1º de dezembro, discutiremos A força da economia solidária no cenário local e nacional, com a participação de lideranças, pesquisadores e representantes do governo federal. No dia 8, o tema é A economia solidária na estratégia política do Brasil em 2026, reunindo Conab, parlamentares e professores do IFRS, todos comprometidos com o fortalecimento dos empreendimentos e dos espaços de comercialização.
Celebrar quase três décadas de feira é celebrar resistência, criatividade e futuro. É também reafirmar que desenvolvimento econômico e justiça social não são caminhos opostos — ao contrário, precisam caminhar juntos. Convido cada pessoa, cada família, cada trabalhador e trabalhadora desta cidade a viver essa experiência.
Venha ao Largo Glênio Peres. Conheça a feira. Compre de quem produz. Participe dos debates. Apoie o que é nosso, o que é coletivo, o que transforma territórios.
Economia solidária é escolha. É prática. É política pública. É futuro — e começa agora, aqui, com todas e todos nós.
*Nelsa Nespolo é presidenta da Unisol-RS.
** Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato.
