O cineasta Joel Zito Araújo está produzindo um documentário que revisita a trajetória pioneira da atriz Léa Garcia e coloca a sua participação no cinema brasileiro e internacional em perspectiva histórica. A obra intitulada Léa Garcia, eu mesma, deve ser lançada em 20 de novembro de 2026, Dia da Consciência Negra. “É meu sonho, e estou fazendo tudo para isso”, afirma o diretor. Apesar de o primeiro corte já estar pronto, ele explica que o processo de liberação de arquivos é longo e caro, o que deve estender a produção ao longo do próximo ano.
Sobre a escolha narrativa, ele conta ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, que “queria que fosse uma conversa, que ela ocupasse o centro da cena do início ao fim do documentário.” “É um filme que você não vai encontrar nenhum especialista falando da Léa, você não vai encontrar nenhum historiador, nenhum companheiro de cena. É ela falando dela mesma”, resume.
A relação pessoal entre o diretor e a atriz também está presente no projeto. “Léa me chamava de meu filho, dizia que eu era um dos filhos dela”, conta. Antes de morrer, Léa expressou o desejo de que ele conduzisse um filme sobre sua vida, pedido que orienta toda a construção da obra. Após o falecimento da atriz, Zito reconstruiu o projeto em cima de materiais de arquivo. “Levantei todas as vezes que a Léa deu entrevista, todos os filmes, todas as novelas… o filme é composto por esses elementos”, explica.
Zito explica que Léa atravessou períodos decisivos da história da cultura e da luta negra no Brasil. “Léa é uma das pessoas fundamentais no mundo das artes, no mundo da cultura brasileira”, diz. Ele destaca a participação da atriz no Teatro Experimental do Negro (TEN) nos anos 1950, período que considera decisivo no despertar da consciência negra no país. “O TEN não era um grupo underground, à margem”, recorda. Como exemplo, cita a encenação de Orfeu da Conceição, de 1956, com texto de Vinícius de Moraes, música de Tom Jobim, cenografia de Niemeyer e elenco todo do teatro.
O documentário aborda também o impacto internacional de Léa Garcia, sobretudo com Orfeu Negro (1959), obra que venceu Cannes e o Oscar, mas que não entrou no festival francês como filme brasileiro. “A Embaixada Brasileira na França não quis fazer isso por racismo”, lembra o cineasta. Apesar disso, Léa se tornou a primeira atriz negra do mundo a disputar um prêmio no festival. “Ela teve essa enorme repercussão”, diz Zito, relatando inclusive como o filme marcou gerações, da mãe de Barack Obama ao público que passou a enxergar a beleza negra de outra forma.
Além da trajetória fora do país, o diretor adianta que o filme revisita momentos de apagamento e retomada da carreira de Léa, incluindo o impacto da novela Escrava Isaura (1976) e o reconhecimento tardio com o prêmio Kikito de Filhas do Vento (2004). “Ela ficou muito feliz por ter recebido o Kikito, finalmente um grande prêmio no Brasil, por uma interpretação dela”, lembra.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
