A estreia do espetáculo Caio em Revista no Estúdio Stravaganza, em Porto Alegre (RS), abre uma janela para um lado menos conhecido de Caio Fernando Abreu: o cronista irônico, observador mordaz da vida urbana e das contradições culturais dos anos 1980.
Dirigida por Luís Artur Nunes e protagonizada por Roberto Camargo, a montagem reúne textos inéditos escritos originalmente para revistas como Around e AZ, publicações que se tornaram símbolos de uma revolução editorial conduzida por Joyce Pascowitch. O espetáculo, que permanece em cartaz entre 21 e 30 de novembro, chega à capital gaúcha após uma temporada de sucesso em São Paulo, marcando também os 40 anos de carreira teatral de Camargo.
Para o ator, revisitar Caio por meio de suas crônicas é tocar em um ponto essencial da obra do escritor: seu olhar atento para os rituais sociais, a vida noturna, as modas comportamentais e as tensões afetivas de uma década marcada por transformações e ambivalências.
Segundo Camargo, o humor sutil e o sarcasmo refinado presentes nos textos revelam um Caio múltiplo, distante da imagem cristalizada do autor das angústias de sua geração. É essa faceta mais luminosa, crítica e espirituosa que a montagem pretende evidenciar.
Uma relação que atravessa décadas

A parceria artística entre Roberto Camargo, Luís Artur Nunes e Caio Fernando Abreu começou ainda nos anos 1980 e se consolidou no início da década seguinte, quando seus caminhos se cruzaram definitivamente em Paris. Os encontros permaneceram até a morte precoce do escritor, em 1996. Nesse período, Caio e Nunes assinaram juntos A Maldição do Vale Negro, peça premiada com o Molière de melhor autor em 1988, reconhecida como um marco da dramaturgia brasileira contemporânea.
A remontagem desse vínculo agora transposta ao palco surge de uma homenagem realizada anos depois, quando Camargo apresentou Bolero, uma crônica de Caio escrita para a revista AZ. O reconhecimento do público e o reencontro com o humor do escritor impulsionaram o projeto que evoluiu para Caio em Revista. O espetáculo aprofunda a relação entre o ator e a obra do escritor, incorporando também a memória afetiva de uma convivência que marcou artisticamente toda uma geração.
A São Paulo de Caio: boemia, cultura pop e fauna urbana
Os textos selecionados para o espetáculo percorrem as experiências pessoais e as observações de Caio sobre a cidade de São Paulo, onde viveu e trabalhou como jornalista. Suas crônicas abordam desde lembranças da infância e da juventude até comentários sobre a cultura pop, novelas, boates, música e comportamento. Entre referências à boate Madame Satã, ao bar Ritz, às músicas de Rita Lee, Madonna e Chet Baker, e ao sucesso de novelas como Vale Tudo, Caio traçou um retrato do país em transformação, marcado pela redemocratização, pelos conflitos de moralidade e pela explosão de novos estilos de vida.
Para o diretor Luís Artur Nunes, essa escrita revela um autor atento às tensões sociais e estéticas de seu tempo. As personagens criadas por Caio, reais ou ficcionais, formam um mosaico da metrópole em mutação, e seu humor misturado à crítica social permanece atual mesmo décadas depois. Nunes afirma que revisitar Caio hoje é reencontrar um escritor que observava a sociedade brasileira com precisão, sensibilidade e uma dose generosa de ironia.
Heterônimos e humor ácido: Nadja de Lemos e Terezinha O’Connor

No espetáculo, Camargo interpreta não apenas o próprio Caio, mas também dois heterônimos femininos criados pelo escritor: Nadja de Lemos e Terezinha O’Connor. As personagens, pensadas dentro de uma estética camp, funcionam como lentes ampliadas para enxergar as idiossincrasias da sociedade paulistana dos anos 1980. Em suas crônicas, Caio dava voz a observações afiadas sobre tipos urbanos, modismos culturais e comportamentos sociais, combinando encanto, ferocidade e elegância.
A escolha de trazer essas figuras para o palco reforça o caráter performático da obra do escritor, que usava o humor como ferramenta crítica. Segundo o diretor, a presença desses heterônimos ajuda a revelar um Caio preocupado com questões de gênero, sexualidade, consumo e cultura urbana, temas que só muito mais tarde ganhariam maior atenção pública. “A encenação busca preservar esse olhar agudo, sem imitá-lo fisicamente, mas acolhendo sua voz e sua sensibilidade.”
Uma produção construída por quem conviveu com o escritor
O cenário e o projeto gráfico do espetáculo são assinados por Guto Lacaz, artista visual que trabalhou com Caio e Joyce Pascowitch nas revistas que marcaram os anos 1980. Lacaz recria no palco a atmosfera editorial da época, aproximando o público desse universo que mesclava jornalismo cultural, moda, artes e comportamento. A trilha sonora, elaborada por Roberto Camargo e Luís Artur Nunes, dialoga com o clima da década, reforçando o ambiente afetivo e estético que atravessa o espetáculo.
A equipe ainda conta com figurino de Mareu Nitschke, iluminação de Ricardo Vivian, assistência de direção de Patrícia Vilela, assessoria de imprensa de Lauro Ramalho e produção local do Estúdio Stravaganza. Para os envolvidos, revisitar a obra de Caio é também revisitar uma parte da história da cultura brasileira – uma história que envolve imprensa, teatro, contracultura e experimentação artística.
Caio, Roberto e a tradição teatral gaúcha
A presença de Caio em Revista em Porto Alegre também remete à trajetória de Roberto Camargo no teatro gaúcho. Formado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em 1989, ele integrou grupos históricos como o Tear e colaborou com diretores como Maria Helena Lopes, Luís Artur Nunes, Élcio Rossini e Osvaldo Gabrieli. Após temporadas de estudo em Paris, Camargo construiu carreira no teatro paulista, passando por musicais, espetáculos experimentais e pela criação de dezenas de personagens na Terça Insana, um dos marcos do humor brasileiro nos anos 2000.
Ao retornar à capital gaúcha com esse espetáculo, Camargo reencontra o público que acompanhou seus primeiros anos de formação, trazendo consigo décadas de experiência, premiações e passagens por TV e cinema. Para ele, porém, o centro do projeto é Caio: o escritor que atravessou gerações e permanece traduzindo contradições brasileiras com delicadeza e perspicácia.
O legado de Caio Fernando Abreu revisitado
A obra de Caio Fernando Abreu – que abrange romances, contos, peças de teatro, crônicas e poesia – segue viva, traduzida e pesquisada em diversos países. Vencedor de dois prêmios Jabuti e autor de livros que se tornaram referência na literatura brasileira contemporânea, Caio explorou temas como sexualidade, afetos, medo, espiritualidade, política e as fraturas emocionais de seu tempo.
Para estudiosos e críticos, a força de sua escrita está na capacidade de unir introspecção e comentário social, sempre com linguagem sensível e precisão narrativa. Caio em Revista busca iluminar um fragmento dessa obra, valorizando o humor e a análise comportamental presentes em suas crônicas, sem abandonar o tom poético e reflexivo que marcou sua produção.
