O Sudão, país marcado por vastas riquezas naturais como ouro e petróleo, atravessa uma das piores crises humanitárias do mundo após décadas de ditaduras, guerras civis e conflitos étnicos que se intensificaram desde abril de 2023 com a disputa entre o Exército e as Forças de Apoio Rápido (RSF).
A violência indiscriminada, os deslocamentos forçados e o colapso dos serviços básicos deixaram mais de 10 milhões de pessoas deslocadas internamente e cerca de 2 milhões refugiadas em países vizinhos, transformando cidades como El Fasher em epicentros de sofrimento.
Na última segunda-feira (24), o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, reiterou sua “profunda preocupação com a intensificação dos combates em Darfur do Norte”, denunciando ataques contra civis, fome extrema e violações graves do direito internacional humanitário, e apelou a um cessar-fogo imediato e ao acesso seguro e irrestrito da ajuda humanitária.
Em meio ao colapso do Sudão, a atuação da Médicos Sem Fronteiras (MSF) é um dos poucos pilares de resistência humanitária. Desde o início da guerra, mais de 1,7 milhão de pessoas buscaram atendimento em hospitais, clínicas móveis e instalações apoiadas pela organização, e mais de 320 mil foram admitidas em enfermarias de emergência.
Suas equipes enfrentam múltiplas emergências de saúde: surtos de cólera, sarampo e difteria, além de uma crise materno-infantil alarmante, com 26% das mulheres grávidas e lactantes em Nyala apresentando desnutrição grave.
Crianças chegam em estado crítico – em Darfur do Norte, exames revelaram 35,5% de desnutrição aguda entre menores de cinco anos. Apesar de mais de 80 ataques violentos contra suas equipes e instalações, a MSF continua a realizar cirurgias de emergência, campanhas de vacinação e distribuição de alimentos terapêuticos.
Falar sobre o Sudão é romper o silêncio que ainda paira sobre uma das maiores crises humanitárias da atualidade. Em um país onde 60% da população precisa de assistência urgente, milhões de pessoas permanecem invisibilizadas, deslocadas e privadas de alimentos, cuidados médicos e serviços básicos. A escassez de cobertura internacional contrasta com a gravidade da tragédia, tornando ainda mais essencial dar voz a quem atua na linha de frente.
É nesse contexto que Brasil de Fato RS conversou com o brasileiro Renato Rapp, formado em relações internacionais e que atua há mais de oito anos como especialista em logística em projetos de Médicos Sem Fronteiras (MSF).
Renato atualmente está baseado em Bruxelas, na Bélgica e nesse período trabalhou em três continentes, gerenciando armazéns e realizando compras, distribuição e transporte de produtos e insumos médicos, além de participar da abertura e do encerramento de projetos humanitários. Atualmente, é coordenador de logística de MSF e responsável por projetos em locais como o Sudão e a Faixa de Gaza.
Brasil de Fato RS: Como a equipe logística de MSF se articula com os profissionais médicos em campo para garantir os cuidados. Quais têm sido os maiores obstáculos enfrentados ataques armados, burocracia, falta de acesso ou outros?
Renato Rapp: Médicos Sem Fronteiras trabalha em oito estados do Sudão, oferecendo serviços de cirurgias, curativos, fisioterapia, maternidade, combate à desnutrição, pediatria, saúde básica, vacinação e saúde mental.
Também realizamos um trabalho intenso nas áreas de saúde ambiental, de água e saneamento, que inclui a perfuração de poços artesianos e construção de latrinas. Além disso, distribuímos alimentos e água em alguns acampamentos para pessoas deslocadas, que tiveram que sair de suas casas devido à gravidade da crise.
O número de pessoas deslocadas pela violência é muito grande, e os desafios enfrentados pelas equipes são enormes e variam conforme a região do país. Em algumas áreas, trabalhamos com restrições administrativas que prejudicam o transporte de suprimentos médicos essenciais para salvar vidas. Assim como nós, todos os atores humanitários enfrentam essas limitações, pois a regulamentação administrativa é muito opaca, no sentido de que não é transparente.
Às vezes, essas restrições chegam a ser arbitrárias. Em alguns casos, não conseguimos cumprir as regras e os requisitos impostos pelos dois lados em conflito simplesmente porque não conseguimos entender. Não é possível compreender o que eles querem – é tudo muito complexo e nem chega a ser uma burocracia propriamente dita. Parece mais uma estratégia política para evitar que a organização leve suprimentos e ajude pessoas. Por isso, a questão do transporte e do acesso é extremamente complicada: as regras são pouco transparentes, os requisitos são numerosos e, muitas vezes, difíceis de serem atendidos. Também enfrentamos problemas relacionados aos vistos das equipes. É muito difícil enviar profissionais para o país, pois há bloqueios até mesmo para circular dentro do território.
Sobre acesso, contamos com uma avaliação exploratória que nos permite identificar as necessidades médicas de cada região. A partir disso, conseguimos coordenar o envio dos suprimentos mais adequados para cada local naquele momento, sempre cientes de que tudo pode mudar e de que novos obstáculos podem surgir.
Enfim, buscamos agir com a maior rapidez possível para atender as comunidades mais vulneráveis, que não dispõem de serviços básicos de saúde, especialmente aquelas que necessitam de atendimento de emergência.
No que diz respeito à segurança, trata-se de mais um obstáculo, assim como os ataques armados e a burocracia. A falta de acesso aéreo também dificulta significativamente o transporte de materiais, insumos médicos e profissionais, tornando todo o processo mais demorado.
Precisamos de permissão para entrar no país, e esse processo leva algum tempo. Assim, os desafios são numerosos, complexos e variam de região para região – e não são exclusivos de MSF. Todas as organizações humanitárias enfrentam essas dificuldades, inclusive no que diz respeito à segurança. A circulação dos comboios humanitários também é bastante complicada, especialmente quando é necessário atravessar as linhas de frente dos combates entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido (SAF e RSF, nas siglas em inglês).
Nestes casos, precisamos evitar passar por essas áreas, pois a segurança dos pacientes e de nossos profissionais é prioridade absoluta. Evitamos atravessar essas zonas e, como são extensas e distribuídas por diversas regiões, isso se torna bastante complexo. Já houve ataques a caminhões de ajuda humanitária em geral, além de casos de saques e bloqueios totais. Portanto, esse é mais um obstáculo para a prestação de assistência humanitária nesse contexto.

Vocês já tiveram que suspender ou redirecionar projetos por questões de segurança?
Sempre que trabalhamos em contextos de violência e de conflito armado, a situação se torna bastante complexa. Mas os ataques ao sistema de saúde do Sudão são constantes e, desde o início do conflito no Sudão, MSF já documentou mais de 80 incidentes que tiveram como alvo as equipes médicas, instalações de saúde, carregamentos de suprimentos e veículos da organização. Clínicas foram saqueadas e, em alguns casos, completamente destruídas – não apenas aquelas onde atuávamos ou prestávamos apoio, mas em diversas regiões do país, em decorrência do conflito.
Isso também faz com que as pessoas permaneçam em constante movimento dentro do país. Há um fluxo intenso de deslocamento populacional no Sudão – são milhões de pessoas em situação de mobilidade. Esse cenário torna tudo ainda mais complexo, pois precisamos compreender para onde essas populações estão se dirigindo e avaliar se há condições de segurança que nos permitam oferecer assistência médico-humanitária de forma rápida nesses locais.
Hoje, no Sudão, muitas pessoas vivem em uma situação em que não conseguem acessar cuidados básicos de saúde devido ao conflito. MSF busca oferecer suporte às populações mais vulneráveis, ao mesmo tempo em que protege suas equipes médicas e salvaguarda as clínicas e hospitais onde atua. Também fazemos todo o possível para garantir a entrega de medicamentos e materiais médicos essenciais para que essas pessoas sobrevivam.
E, de fato, já tivemos de redirecionar nossas atividades e projetos em razão dos ataques a civis, por exemplo, como ocorreu recentemente em El Fasher. Nossas equipes montaram um posto de saúde na entrada da cidade de Tawila, localizada a 60 quilômetros da linha de frente dos combates, ao mesmo tempo em que ampliaram a oferta de cuidados de emergência, serviço cirúrgicos e outros atendimentos médicos no hospital.
A insegurança é extremamente elevada no estado de Darfur do Norte. Em janeiro de 2025, MSF precisou, infelizmente, suspender as atividades no Hospital Universitário Bashir, em Cartum, a capital do país. Agora retornamos, mas tudo isso aconteceu devido aos fatores que mencionei anteriormente, que tornaram inviável garantir a segurança de pacientes e profissionais diante dos saques e ataques – seja contra veículos, equipes ou instalações médicas.
As organizações locais ou agências da ONU colaboram entre si para facilitar o transporte de suprimentos e equipes?
Sim, existe colaboração. Organizamos comboios humanitários em conjunto e trabalhamos com uma estrutura logística que compartilha informações, já que MSF tem uma atuação robusta no Sudão.
Como mencionei, estamos presentes em oito estados do Sudão, e isso faz com que troquemos uma grande quantidade de informações internamente – tanto entre nossas equipes espalhadas pelo país quanto com equipes nos países vizinhos, já que, para chegar a Darfur, por exemplo, utilizamos o acesso pelo Chade, entre outras fronteiras.
Assim, há um compartilhamento constante de informações para garantir que esse acesso seja o mais rápido possível. MSF não apenas consulta outros atores humanitários, como também recebe inúmeras solicitações de parceiros e agências que buscam dados atualizados.
O contexto é tão complexo que se torna difícil estabelecer um entendimento comum sobre as regulações, os impedimentos e os obstáculos existentes. Volto a dizer: tudo é extremamente dinâmico, e a situação no Sudão pode mudar muito rapidamente. As regras não são transparentes e, em muitos casos, acabam sendo bastante arbitrárias.
No que diz respeito à comunidade local, as pessoas tentam se proteger e são obrigadas a se deslocar conforme novos ataques são deflagrados. A população civil está constantemente em busca de locais mais seguros, e as equipes de MSF procuram acompanhar e identificar esses movimentos para que possamos realmente apoiar aqueles em situação de maior vulnerabilidade – pessoas que deixaram suas casas para trás e buscam abrigo ou uma vida melhor em outro lugar. Esse fenômeno permanece muito presente e contínuo, e os deslocamentos seguem ocorrendo de forma repetida.

O que vocês gostariam que a comunidade internacional compreendesse?
O Sudão entrou em seu terceiro ano de guerra, marcado por um conflito prolongado e por uma crise humanitária sem precedentes. Essa crise também repercute nos países vizinhos, como o Chade e o Sudão do Sul, que enfrentam os efeitos da chegada massiva de refugiados, em um cenário que tem sido amplamente negligenciado pelo mundo. A comunidade internacional não pode mais ignorar essa crise humanitária.
Quase dois terços da população – algo em torno de 30 milhões de pessoas – necessitam de ajuda humanitária de emergência no Sudão, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). A resposta atualmente promovida pela comunidade humanitária, embora constante, ainda é insuficiente. Neste ano, muitos financiamentos foram cortados, o que fez com que diversas ações deixassem de ser priorizadas no mundo humanitário. Há, de fato, uma falta de vontade política, aliada à redução de recursos por parte de grandes doadores e agências internacionais.
Esses cortes não afetam diretamente Médicos Sem Fronteiras, já que cerca de 98% dos nossos recursos provêm de doações privadas – em sua maioria, de pessoas comuns. No entanto, como mencionei, essas reduções impactaram outras organizações humanitárias e contextos, como o Sudão.
No fim, é como se a população sudanesa estivesse esquecida e enfrentando essa crise sozinha. Por meio de campanhas de comunicação, MSF busca mobilizar esforços para que as partes em conflito garantam a proteção de pacientes, profissionais de saúde e instalações médicas, além de defender a criação de corredores humanitários que permitam levar suprimentos e medicamentos às populações mais vulneráveis com a maior rapidez possível.
