O legado da bailarina, cantora, figura queer e negra, carnavalesca e ícone da vida noturna underground de Porto Alegre Nega Lu ganha holofotes a partir desta quinta-feira (27) e sexta-feira (28). As datas marcam a estreia, no Teatro Simões Lopes Neto, do espetáculo inédito Brilhante: Nega Lu em Musical, com direção geral de Daniel Colin.
“Desde 2019, eu e o Daniel tínhamos a ideia de criar uma peça que homenageasse a Nega Lu. Era um desejo meio misturado, de homenageá-la, mas de fazer uma celebração pra ela e pra gente também, sabe? Fazer uma celebração ao que foi a vida dela, mas entendendo que a vida dela foi também uma espécie de precursora do que seria a nossa vida”, narra Juliano Barreto, diretor musical da produção.
Ele conta que o grupo igualmente tenta celebrar a liberdade que a personagem representava na sua vida de artista, “pelas proximidades que temos com ela, de sermos também bixas pretas porto-alegrenses que vivem da arte”, dentro desse coletivo.
“No meu caso, uma pessoa da música, mas o Daniel do teatro. E a gente como se entendendo pessoas da negritude, de diferentes colorismos, uns retintos, outros não retintos, mas filhos de pessoas pretas, de família de origem afrodescendente e trabalhando com teatro, com música, com dança, nesta cidade. Todos também da população LGBTQIAPN+.”
Conforme o diretor musical, esses fatores ligavam a equipe a Nega Lu, provocavam admiração e isso criou a enorme vontade de relembrá-la e “celebrar os nossos corpos, as nossas existências também, dali surge a ideia de fazer um musical para ela”.
A montagem do espetáculo foi realizada através de Emenda Parlamentar nº 0098/2024, em parceria com o Coletivo Feminino Plural, tendo apoio de Parada Livre POA, ONG Outra Visão, Theatro São Pedro e Multipalco.
“A emenda vem muito a calhar, porque justamente a gente vinha de um governo neofascista e extremamente conservador, então tu imaginas que não era fácil tentar incentivar, captar e patrocinar um projeto que falava de uma corpa gorda, preta, periférica, carnavalesca e de resistência num Brasil governado pelo Bolsonaro, numa época complexa, que vinha a pandemia junto. Foi um momento difícil pra imaginar esse projeto, então a gente ficou um pouco bloqueado”, recorda.
Em conversas com o deputado estadual Leonel Radde, o parlamentar lhes perguntou como o projeto andava: “A gente confessa que estava completamente parado. E ele nos incentiva com a possibilidade de emenda parlamentar, uma vez que o espetáculo conversa com o seu gabinete, suas pautas. São figuras trans, fortemente atacadas pelo fascismo, e o seu projeto é antifascista”.
Segundo o artista, montar um musical nesse estilo, dessa grandeza, com mais de duas horas de duração, figurinos, cenários, estruturas, microfones, arranjos, em São Paulo, custaria R$ 3, 4 ou 5 milhões (sendo que algumas produções gigantes chegam a 9 milhões). “Mas, com uma emenda parlamentar, a gente conseguiu. Foi simplesmente um fôlego, foi uma respiração para que a gente pudesse, enfim, começar e não desistir.”

Nega Lu transcendeu o seu tempo, transgredindo normas na encruzilhada entre o erudito e o popular. O espetáculo enaltece sua trajetória ao propor um diálogo entre o período que ela viveu – passando pela ditadura militar e a epidemia de Aids – e a realidade atual enfrentada pela comunidade negra e LGBTQIAPN+ no Brasil.
Por meio de rasgos contemporâneos que conectam trilhas sonoras que marcaram aquele período sombrio da história recente do Brasil, com as vozes da nova MPB, o musical promove o protagonismo de corpos historicamente silenciados, mas sempre detentores de discursos poderosos.
No ano em que se completam duas décadas de sua morte, Brillhante não apresenta uma Nega Lu presa na história, mas uma artista vigorosa transitando por um tempo espiralar, que afirmava sua liberdade contra o autoritarismo ao mesmo tempo em que estendia seu lar como território de abrigo e acolhimento.
Vanguardista, Nega Lu teve presença constante nos espaços de cultura e resistência, nas primeiras edições da Parada Livre de Porto Alegre, na histórica boate Flower’s (o primeiro point GLS da cidade) e no Doce Vício, onde também trabalhou como garçonete para garantir seu sustento. Seja no Bar Copa 70, com suas interpretações viscerais de Summertime, ou fervendo no Bar Alaska, na Esquina Maldita, reduto histórico da boemia e agitação política, o musical exalta uma artista que nunca passava despercebida, desfilando de meia arrastão e salto alto com seu bafônico batom vermelho.
No bairro Menino Deus, onde nasceu e morou, foi a primeira e única madrinha da Banda da Saldanha. Uma bixa preta no meio da high society. Cantou como solista na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) e no Coral da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e dançava balé clássico, que aprendeu com a russa Marina Fedossejeva (ex-bailarina do Kirov), além de ser vocalista de rock e blues na banda Rabo de Galo.
Inquieta e ligada à comunidade, Nega Lu sonhava em fundar seu próprio bloco de Carnaval, a Banda do Almirante, batizada em homenagem à sua rua.
Com proposta eletrizante e festiva, com performances que transitam entre a cultura Ballroom e o Carnaval, o musical também presta reverência às raízes ancestrais de Nega Lu como Filha de Xangô, a herança do batuque e a força dos orixás que foram fios condutores que teceram toda a sua trajetória.
Barreto confidencia que, internamente, a trupe se chama de Corte da Bixarada: “Nega Lu andava sempre com essa turma (Maite, Rosinha e vários amigos) que se vestia junto para o Carnaval. Na verdade, eles não tinham essa consciência de ser figuras queers ou de ser figuras travestis ou pessoas trans. Eram bixas que se montavam juntas; e era muita alegria”.
Conforme o diretor, além da batalha, da luta e da resistência, havia diversão e risada. “Nega Lu era uma figura de várias facetas, que foi querida por todos os amigos, parentes, vizinhos, colegas de trabalho e músicos. Com essa trupe, esse elenco, essas 11 pessoas que estão em cena, a gente tenta reproduzir toda essa parceria aí na volta e mostrar todas essas amizades pela Corte da Bixarada”, explica.
Para quem quiser saber mais sobre ela, é possível ler a biografia Nega Lu: uma dama de barba malfeita (2015, com edição relançada 10 anos depois), de autoria de Paulo César Teixeira.
Dois personagens, momentos e recortes: um cenário, um palco e um diretor

Há mais de uma década, em um momento distinto, um outro Juliano Barreto interpretou Lupicínio Rodrigues(1914-1974) em um espetáculo que celebrou o centenário de nascimento do compositor. Além de ator e cantor no palco, o mesmo Juliano Barreto de Brilhante era idealizador e respondia pela parte sonora de Lupi, o musical – Uma vida em estado de paixão, que estreou em 2014.
O diretor musical de ambas as montagens acha significativo fazer este paralelo, nas vésperas dessa nova estreia: “É muito legal falar do Lupi, agora fazendo a Nega Lu, pois são dois projetos muito diferentes, mas acredite, eles têm ligações entre eles. Querendo ou não, a gente está falando sobre duas figuras negras, pioneiras, muito relevantes, que fizeram a cidade ser vista de uma outra maneira, são artistas que mudaram a cidade. Essa é a verdade”.
Explanadas as semelhanças, provocado pela reportagem, Barreto analisa as diferenças entre as produções:
“A realidade do Lupi era muito masculina, machista, conservadora. As canções dele falavam do universo dele, né? Um universo muito masculino, só de homens, dos privilégios masculinos. Já Nega Lu, por sua vez, marcou por romper todos os padrões possíveis.”
Mais uma vez, o cantor destaca a liberdade como marca característica da trajetória da homenageada: “Ela fez a sua vida na sua liberdade. Então, é um espetáculo que tem uma resistência muito forte. Inclusive, converso com alguns amigos que montaram junto comigo o Lupi, e a gente enxerga como hoje é difícil de falar algumas palavras que a gente falava naquele espetáculo, não querendo mais reproduzir algumas coisas que o espetáculo trazia naquela época”.
Juliano Barreto contextualiza ainda o projeto anterior: “Era um momento de centenário do Lupi, era impossível não comemorá-lo, não celebrá-lo também na sua existência, nos seus feitos, nas suas vitórias, nas suas conquistas que são inegáveis para a música do Rio Grande do Sul, para a música brasileira. Mas, sim, era um recorte de um momento, de um momento da sociedade também, patriarcal, machista, masculina, com muitos privilégios e com muitos recortes que privilegiam muito o homem e o estereótipo do homem que a gente não quer mais reproduzir”.
Para o diretor, Brilhante traz um recorte de resistência, de batalha. “Ela foi invisibilizada. Algumas peças que a gente quer contar dela faltam nesse emaranhado de coisas que foram apagadas, mas a gente tenta recontar essa história mostrando as lutas, as dores, mas também as alegrias, as purpurinas, os coloridos que ela trouxe para a cidade de Porto Alegre, eu acho que ela transformou essa cidade”, conclui.
Ficha Técnica
Direção geral: Daniel Colin
Direção musical: Juliano Barreto
Direção de produção: Jack Garcia
Elenco: Andi Goldenberg, Ândy, Daniel Colin, Dammiel Brocker, Eulália
Nascimento, Fayola Ferreira, Juliano Barreto, Lincoln Pereira, Natasha Villar e Phill Coutinho
Atrizes convidadas: Gloria Andrades e AJeff Ghenes
Assistente de direção: AJeff Ghenes
Dramaturgia: Daniel Colin e Hênrica Ferreira
Coreografia: Letícia Paranhos e Ally Gms
Figurinista: Luiz Augusto Lacerda – Gugu Lacerda
Cenógrafo: Rodrigo Shalako
Light designer: Bruna Casali
Técnico de som: Matheus Moraes
Designer gráfico: Mitti Mendonça
Trilha sonora original: Daniel Colin e Juliano Barreto
Criação de projeção: Gabriela João
Consultoria de maquiagem: Gabrielle Ávila
Serviço:
Brilhante: Nega Lu em Musical
Datas: 27 e 28 de novembro, quinta e sexta-feira
Horário: 20h
Local: Teatro Simões Lopes Neto, Complexo Multipalco Eva Sopher do
Theatro São Pedro (porta principal do Multipalco – Rua Riachuelo, 1089, Porto Alegre-RS)
Duração: 2h (com intervalo de 15min)
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos de R$ 15,00 a R$ 80,00 à venda na bilheteria online do Theatro São Pedro: https://theatrosaopedro.rs.gov.br/bilheteria
