resistência

Marcha das Mulheres Negras apresenta manifesto político: ‘luta constante contra o racismo patriarcal’

Texto denuncia colonialismo e cobra políticas reparatórias

No audio source provided.
manifestação com museu nacional ao fundo.
Mais de 300 mil mulheres negras marcharam em Brasília em um dos maiores atos internacionais do movimento. | Crédito: Foto: Juliana Duarte

Brasília recebeu nesta terça-feira (25) a 2ª Marcha das Mulheres Negras que reuniu mais de 300 mil mulheres de todo o país e de mais de 40 nações em uma mobilização histórica. A organização também lançou um manifesto político que reivindica justiça reparatória, democracia plena e novas bases para o futuro do Brasil e do mundo.

No texto, o manifesto apresenta um projeto político “constituído de outras matrizes, de outros saberes e fazeres, de outras cosmopercepções e filosofias, o que significa a luta constante contra o racismo patriarcal”.

O documento também denuncia que, diante da “era das catástrofes climáticas, que coloca ainda mais em risco as existências negras e de toda a biosfera, marchar por Reparação e Bem Viver exige a adoção de um amplo programa que se distancie das propostas desenvolvimentistas em curso”.

Sem reparação não existe democracia

O manifesto reafirma que o país e suas instituições permanecem estruturados sobre desigualdades raciais profundas, herança direta do escravismo e da colonização. “Sem Reparação não há possibilidade de democracia, justiça, igualdade e equidade em todos os domínios da vida humana”, diz o texto.

A liderança histórica do Movimento Negro Unificado (MNU) Ieda Leal destacou que o avanço do movimento negro feminino é resultado de séculos de resistência, mas também da organização recente que ampliou o protagonismo nas ruas e na política institucional. “Nós estamos nesse país há mais de 500 anos. O sofrimento não é pouco, mas a nossa organização vai refletindo na organização das pessoas, nas suas cidades”, afirmou. 

Para ela, a luta agora mira novos patamares de poder. “Nós queremos ir para o STF, nós queremos ir para a presidência da República, nós queremos mandar. E a transformação é para todo mundo. O diferencial das mulheres negras é isso: nós pensamos coletivamente”.

Vozes dos territórios

De diversos pontos do Brasil, lideranças chegaram para reforçar a urgência da reparação como política de Estado. Da Bahia, Lígia Margarida Gomes lembrou que seu grupo mobilizou mais de 40 mulheres para participar da marcha. “Reparação e bem viver não é uma retórica. É uma necessidade, um dever que o Brasil tem para o povo preto desse país”, afirmou, ressaltando as permanências da desigualdade desde a escravidão até hoje.

Ela também destacou que a luta vem das mulheres que construíram o Brasil nos espaços invisibilizados da sociedade, como associações comunitárias, organizações de base e redes de proteção de meninas e mulheres negras. “Nós estamos aqui para garantir direitos, para defender a vida e para dizer que essa agenda precisa acontecer em cada canto do país”.

A deputada Erika Hilton (Psol-SP) também esteve presente na Esplanada dos Ministérios. Segundo a parlamentar, a marcha simboliza um projeto de país. “As mulheres negras são o fundamento, força, motriz e matriz da revolução que acreditamos: de um Brasil sem racismo, sem morte e sem violência”, afirmou durante a marcha.

Para Hilton, o ato é um recado direto aos espaços formais de poder. “Hoje Brasília é tomada por nós, porque nós acreditamos que marchar é o ato revolucionário contra um país que ainda insiste em violar nossa dignidade e nossos direitos”. A parlamentar ainda completou que “não aceitamos mais a nossa ausência e a nossa sub-representação”.

Reparar para reinventar o futuro

O manifesto político reforça que a reparação não é um conceito abstrato, mas um conjunto de ações concretas, materiais e simbólicas que precisam ser implementadas pelo Estado e também por instituições privadas, igrejas, famílias e grupos econômicos que enriqueceram historicamente com a exploração do povo negro.

“Reparação é a criação e implementação de ações que revertam os impactos da escravidão e colonização e corrijam as injustiças que se mantêm no presente”, diz o texto.

A marcha também gerou debates em curso no Congresso Nacional, como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que institui o Fundo Nacional de Reparação Econômica e Promoção da Igualdade Racial, defendendo que estudos dimensionem o tamanho dessa dívida histórica.

Ao final, o manifesto deixa um chamado coletivo: “Reparação e Bem Viver constituem o enunciado que expressa a força política das mulheres negras e reascende para a comunidade global o espírito da transformação do qual o mundo necessita”.

Leia o manifesto completo da marcha neste link.

:: Receba notícias do Brasil de Fato DF no seu Whatsapp ::

Editado por: Clivia Mesquita

|

Newsletter