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Motouber, pressa e perigo: um trânsito à beira do colapso na Paraíba

Por trás de cada corrida de R$ 5, há um trabalhador exposto à insegurança, sem proteção social

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‘A motocicleta, antes símbolo de agilidade, tornou-se palco de riscos constantes’, afirma Deyse Araújo | Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Recentemente, estive envolvida em um acidente com um mototaxista de aplicativo, popularmente chamado de motouber, que se chocou contra meu carro em um cruzamento. O susto foi grande: ele caiu com escoriações, e o passageiro precisou de atendimento hospitalar por dores intensas. Por sorte, não houve fraturas. Mas o episódio escancarou um problema que vem crescendo há anos: o caos silencioso provocado pela precarização do transporte sobre duas rodas, especialmente na Paraíba.

O cenário, longe de melhorar, tornou-se ainda mais alarmante. De janeiro a agosto de 2025, o Hospital de Emergência e Trauma de João Pessoa registrou 8.099 atendimentos por acidentes de trânsito, dos quais 6.388 envolveram motocicletas, ou seja, 79% do total. No Complexo Hospitalar de Mangabeira, outro importante equipamento da capital, foram contabilizados 4.805 acidentes com motos apenas nos sete primeiros meses deste ano. Somando os registros de João Pessoa e Campina Grande, mais de 14 mil internações por acidentes motociclísticos já ocorreram em 2025.

Em relação às mortes, o panorama também preocupa. De 2016 a abril de 2025, João Pessoa acumulou 1.034 óbitos no trânsito, sendo 418 motociclistas. Só nos primeiros quatro meses de 2025, 18 pessoas perderam a vida em acidentes nas ruas e avenidas da capital, número que, se mantida a média, deve superar as 76 mortes registradas em 2024. A maioria das vítimas segue sendo homens na faixa de 20 a 39 anos, trabalhadores que têm na moto sua principal ou única fonte de renda.

A motocicleta, antes símbolo de agilidade, tornou-se palco de riscos constantes. De um lado, motociclistas que ultrapassam limites; de outro, trabalhadores pressionados a correr contra o tempo para conseguir mais corridas e garantir o mínimo de renda diária. Muitos enfrentam jornadas exaustivas, de até doze horas, por valores que mal cobrem combustível, manutenção da moto e alimentação. Enquanto isso, as ruas, despreparadas para esse aumento desenfreado de motos, se tornam cada vez mais perigosas para todos.

Não se trata apenas de imprudência individual. As plataformas digitais, que impõem metas e prazos quase impossíveis, se isentam de responsabilidade trabalhista. Empresas como Uber e 99 transformam a pressa em lucro e o risco em rotina. Por trás de cada corrida de R$ 5, há um trabalhador exposto à insegurança, sem proteção social, constantemente forçado a assumir riscos para alcançar um ganho mínimo.

A pressa transforma o trânsito em uma roleta russa. Mais do que comportamento individual, a questão dos motoubers reflete a ausência de políticas públicas de mobilidade urbana, a fiscalização insuficiente e a exploração laboral mascarada de “autonomia”. É urgente que o poder público reconheça este cenário como questão de saúde pública: não se trata apenas de reorganizar o trânsito, mas de proteger vidas que estão sendo descartadas diariamente em cruzamentos, avenidas e esquinas.

A pergunta que fica é: até quando vamos normalizar a morte como “custo do progresso”? O tempo economizado em uma corrida não pode continuar sendo pago com sangue. É hora de escolher entre manter um modelo de mobilidade que arrisca vidas ou lutar por condições dignas de trabalho, justiça social e um trânsito que preserve todas as vidas.

Acidentes com motociclistas em João Pessoa

8.099 acidentes de trânsito atendidos pelo Hospital de Trauma (janeiro a agosto de 2025). 6.388 envolveram motocicletas (79%). Fonte: Hospital de Emergência e Trauma de João Pessoa

4.805 acidentes com motos no Complexo Hospitalar de Mangabeira

Mais de 14 mil internações por acidentes de moto no estado (até setembro de 2025). Fonte: MaisPB

1.034 mortes no trânsito em João Pessoa, 418 com motociclistas. Fonte: Portal T5

18 óbitos em 2025 (até abril). 2024 fechou com 76 mortes. Fonte: RepórterPB

Faixa etária predominante: 20 a 39 anos. Fonte: Política & Etc

*Deyse Araújo mora em João Pessoa, é musicoterapeuta e atende pessoas com deficiência e autismo pelo SUS.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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