Desarmamento

China publica livro branco sobre controle de armamentos e não proliferação

Pequim critica abandono de tratados por 'certos países' e reafirma compromisso em nunca buscar hegemonia

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Fuzileiros navais dos EUA no complexo do Edifício Federal de Westwood atrás de uma manifestante que protesta contra o envolvimento dos EUA nos ataques de Israel ao Irã, em 18 de junho de 2025, em Los Angeles, Califórnia.
Fuzileiros navais dos EUA fazem guarda no complexo do Edifício Federal de Westwood enquanto manifestantes protestam contra o envolvimento dos EUA nos ataques de Israel ao Irã, em 18 de junho de 2025, em Los Angeles, Califórnia. | Crédito: SCOTT OLSON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

O governo chinês publicou nesta quinta-feira (27) um “livro branco” sobre controle de armamentos, desarmamento e não proliferação. Um livro branco é um documento que apresenta de forma sistemática as políticas e práticas de um país em determinadas áreas. A divulgação ocorre no ano em que se celebram os 80 anos da vitória na Segunda Guerra Mundial e da fundação das Nações Unidas, momento que o texto descreve como “uma encruzilhada histórica” para o sistema multilateral de controle de armas.

O documento foi publicado pelo Escritório de Informação do Conselho de Estado e procura explicar as políticas chinesas nas áreas de governança sobre armamentos, apresentar propostas sobre governança de segurança em campos emergentes como espaço exterior e ciberespaço, e expressar “a firme determinação da China em salvaguardar a paz e a segurança mundiais”. O livro branco também convoca todos os países a trabalharem juntos para revitalizar o processo internacional de controle de armamentos.

Desafios à governança internacional sobre armamento

O documento lista cinco ameaças à segurança global e ao controle de armas. Entre elas, destaca a competição entre grandes potências, com países “buscando vantagem estratégica absoluta” através da expansão militar, levando a “múltiplos conflitos regionais e gastos militares globais recordes”. Na região da Ásia-Pacífico, o texto afirma que há fortalecimento de alianças militares, promoção da “dissuasão estendida” e implantação de mísseis de alcance intermediário.

A principal preocupação apontada é a erosão do sistema internacional de controle de armas. Segundo o texto, “a retirada de certos países de acordos e tratados internacionais minou o sistema internacional de controle de armas”, enquanto o mecanismo de não proliferação está “profundamente prejudicado pelo pragmatismo e pelos padrões duplos”.

A China critica ainda países que estariam construindo “pátios murados” e promovendo “desacoplamento e interrupções da cadeia de suprimentos”, usando a não proliferação como pretexto para restringir o direito dos países em desenvolvimento ao uso pacífico da ciência e tecnologia.

Críticas aos Estados Unidos

Algumas referências genéricas a “certos países”, são direcionadas aos Estados Unidos, a julgar pelos tratados mencionados no documento. O livro diz, por exemplo, que “desde o fim da Guerra Fria, alguns países se retiraram do Tratado de Mísseis Antibalísticos [ABM, na sigla em inglês] e do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (Tratado INF)”.

Os Estados Unidos se retiraram unilateralmente do Tratado ABM em 2002, durante a administração de George W. Bush, e do Tratado INF em 2019, sob o governo de Donald Trump. Só os EUA se retiraram desses tratados.

O documento detalha que essas retiradas levaram ao desenvolvimento de “capacidades globais de defesa antimíssil estratégica”, à procura de “implantar armas no espaço sideral” e “implantação avançada de sistemas de mísseis de alcance intermediário na região Ásia-Pacífico e na Europa”.

Os Estados Unidos também se retiraram unilateralmente do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) em 2018 e voltaram a impor sanções ao Irã, consideradas ilegais pela China e outros signatários.

A crítica mais direta é à cooperação AUKUS, onde Estados Unidos, Reino Unido e Austrália são mencionados explicitamente. O documento afirma que a transferência de reatores de submarinos nucleares e urânio altamente enriquecido para a Austrália viola “claramente os objetivos e propósitos do Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares”.

Princípios chineses: não primeiro uso e arsenal mínimo

O livro branco enfatiza que a China adere “firmemente a uma política de defesa nacional defensiva” e está “comprometida com o caminho do desenvolvimento pacífico”, afirmando que o país “jamais buscará hegemonia, expansão ou esferas de influência”.

No campo nuclear, a política de “não primeiro uso” é apresentada como o pilar central. Segundo o texto, “desde o primeiro dia em que possuiu armas nucleares, a China defende a proibição completa e a destruição total das armas nucleares” e “comprometeu-se a não ser a primeira a usar armas nucleares em nenhum momento e sob nenhuma circunstância”. O documento caracteriza esta postura como “a mais estável, contínua e previsível entre todos os Estados detentores de armas nucleares”.

Outro princípio fundamental é a manutenção do arsenal nuclear no “nível mínimo necessário para a segurança nacional”. O livro branco afirma que a China “não se envolverá em uma corrida armamentista nuclear com nenhum país no futuro”. Como evidência dessa contenção, o texto menciona que “a China realizou o menor número de testes nucleares entre os países detentores de armas nucleares e desativou instalações de pesquisa e produção de armas nucleares em Chongqing, Qinghai e outras localidades”.

Armas químicas japonesas: cobrança histórica

O livro branco dedica uma seção extensa à questão das armas químicas abandonadas pelo Japão na China durante a Segunda Guerra Mundial, tema que continua sem ser resolvido, 80 anos depois.

O documento afirma que “durante a Segunda Guerra Mundial, o exército invasor japonês violou flagrantemente o direito internacional ao usar armas químicas em larga escala na China”. O documento denuncia que foram registrados 1.791 uso desse tipo de armas “com datas, locais e vítimas específicas” que tiraram a vida de mais de 200.000 militares e civis chineses.

Após a derrota, segundo o texto, o Japão “abandonou grandes quantidades de armas químicas em território chinês para encobrir seus crimes”. O problema persiste: desde o fim da Segunda Guerra Mundial, essas armas “causaram mais de 2.000 mortes e ferimentos por envenenamento, colocando em grave risco a vida, os bens e o meio ambiente da população chinesa”.

Embora memorandos tenham sido assinados em 1999 e 2012 para a destruição dessas armas, o livro branco critica que “devido à atenção e ao investimento insuficientes por parte do Japão, o plano de destruição foi adiado quatro vezes”. O texto insta o Japão a “assumir seriamente suas responsabilidades” e “a assumir seriamente a responsabilidade pelo tratamento da água e do solo contaminados”.

Propostas: governança de áreas emergentes e direito ao desenvolvimento

Uma parte significativa do documento é dedicada a propor estruturas de governança para áreas emergentes da segurança internacional. Para o espaço sideral, a China se opõe “resolutamente a políticas militares ofensivas, alianças militares, militarização e corrida armamentista” nessa área. O texto propõe que “negociar e alcançar um instrumento jurídico sobre o controle de armas no espaço sideral é a maneira fundamental de prevenir uma corrida armamentista”.

Em relação ao ciberespaço, o documento defende o princípio da “soberania cibernética” e critica países que lançam “ciberataques e espionagem em larga escala, sistemáticos e indiscriminados contra o mundo”. A China propõe que “o ciberespaço não deve se tornar um novo campo de batalha para conflitos geopolíticos”.

Um tema transversal ao documento é a defesa do direito dos países em desenvolvimento ao uso pacífico da ciência e tecnologia. O livro branco critica o uso de “controles de exportação como instrumento para ‘desacoplar e romper cadeias de abastecimento'” e o “abuso desses controles e sanções unilaterais sob o pretexto de manter a segurança internacional e a não proliferação”.

Em 2021, a China apresentou à Assembleia Geral da ONU uma resolução enfatizando que “maximizar a participação no intercâmbio e na cooperação em ciência, tecnologia, equipamentos e materiais para fins pacíficos é um direito inalienável concedido a todos os países pelo direito internacional”. A resolução foi adotada por ampla maioria, representando uma das principais contribuições chinesas ao debate sobre equilíbrio entre não proliferação e desenvolvimento.

Editado por: Nathallia Fonseca

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