ENTREGUISMO

Privatização de setor nuclear como pretende Milei é mau negócio para a Argentina, dizem analistas

País vai abrir mão de setor estratégico que desenvolve tecnologia em inúmeros campos

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As usinas nucleares de Atucha 1 e 2
As usinas nucleares de Atucha 1 e 2 | Crédito: Mrcukilo/ Wikimedia

A privatização de 44% da Nucleoeléctrica Argentina (NASA), a empresa que opera as usinas nucleares argentinas, como decidiu o governo de Javier Milei é um péssimo negócio para o país. Esta é a opinião de analistas, que apontam a perda de tecnologia e soberania como os maiores problemas.

“A privatização de um setor como o nuclear é temerosa por vários motivos. Primeiro que é um setor estratégico do ponto de vista de segurança energética para qualquer país”, disse ao Brasil de Fato Alexis Toríbio Dantas, do Departamento de Evolução Econômica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

“Segundo, que é uma possibilidade de gerar continuamente fluxos tecnológicos e de inovação. Dos setores de energia, com certeza a energia nuclear é a que gera maior número de inovações tecnológicas”, completa.

Rodolfo Kempf, pesquisador do Conselho Nacional de Energia Atômica argentino, especializado em combustíveis nucleares e resíduos radioativos e membro da Coordenação Nacional de Trabalhadores da Indústria (CNTI) da CTA Autónoma concorda. “Um setor estratégico seria perdido, no qual a Argentina detém ciência, tecnologia, plantas-piloto e uma rede industrial metalúrgica que fornece o combustível nuclear para essas usinas”, disse ele ao portal Nota al Pie.

“Esse conhecimento seria perdido, restando apenas a geração de lucro para, como estamos vendo nas recentes negociações com Donald Trump, provavelmente uma empresa estrangeira”, lamenta o pesquisador.

A empresa é lucrativa

Em setembro o governo Milei anunciou o processo de privatização parcial da estatal Núcleoeléctrica, com a venda de 44% das ações em bloco por meio de uma licitação pública nacional e internacional. O governo disse que 5% do capital acionário “será cedido a um programa de propriedade compartilhada, enquanto os 51% restantes permanecerão nas mãos do Estado nacional”.

A Núcleoeléctrica Argentina é responsável pelas três usinas nucleares em operação na Argentina – Atucha I, Atucha II e Embalse – com uma potência total instalada de 1.763 Mw e uma contribuição que representa 7,4% da energia elétrica do país.

O governo diz que o objetivo é “promover o investimento privado com o objetivo de alcançar a construção do primeiro reator modular argentino, a extensão da vida de nossas usinas e impulsionar a mineração de urânio, entre outras questões”.

O governo a incluiu na lista de empresas públicas a serem privatizadas em uma mega lei aprovada pelo Congresso em 2024. A privatização se enquadra na política do presidente ultraliberal, Javier Milei, de retirada do Estado das atividades de exploração.

“Todas as empresas públicas estão submetidas a um processo de privatização irremediável”, disse o porta-voz presidencial Manuel Adorni. Longe de ser deficitária, a Núcleoeléctrica Argentina dá lucro.

Segundo relatórios financeiros da empresa, durante o primeiro semestre de 2025 registrou um resultado operacional positivo de cerca de 103 bilhões de pesos, equivalente a cerca de R$ 373 milhões à taxa de câmbio oficial.

Mais argumentos

O pesquisador da UERJ rebate o argumento de que a venda vai gerar dinheiro para investimentos. “Os recursos de privatização são drenados pelo sistema financeiro, vão entrar para pagar dívidas, sejam elas internas, sejam elas externas”, diz ele.

“Mesmo que isso fosse verdade, você vai privatizar o setor de ponta, que desenvolve a tecnologia, que aumenta a produtividade da economia, para você voltar para a mineração de urânio? Não faz o menor sentido.”

“É o mesmo argumento, por exemplo, de economistas como Paulo Guedes, que queriam acabar com a indústria no Brasil e transformar o Brasil naquilo que ele chama de vocação, o chamado Brasil fazendão”, afirma Dantas.

O pesquisador argentino diz ainda que “a Argentina é um dos poucos países do Hemisfério Sul, juntamente com o Brasil e a África do Sul, com usinas nucleares em operação que geram eletricidade”.

“As 460 usinas nucleares restantes no mundo estão no Hemisfério Norte.”

Rodolfo Kempf diz que “em resumo, a privatização levaria à perda de elos na integridade da rede nuclear entre a geração, a fabricação do ciclo de combustível e os materiais estruturais, e, se a empresa passasse a ser de propriedade estrangeira, a soberania seria perdida, pois o conhecimento passaria a ser protegido como segredo de outras empresas, longe das grandes potências”.

Editado por: Luís Indriunas

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