O chanceler da Venezuela, Yván Gil, condenou “categoricamente” a fala do presidente americano Donald Trump, publicada neste sábado (29) nas redes sociais, orientando companhias aéreas a considerarem o espaço aéreo acima e ao redor da Venezuela como fechado.
Em declaração oficial divulgada pelo Telegram, o ministro das Relações Exteriores qualificou a medida como uma “ameaça colonialista” e como uma nova agressão “extravagante, ilegal e injustificada”, inserida, segundo ele, em uma política permanente de pressão militar dos Estados Unidos sobre o governo de Nicolás Maduro.
No comunicado, Gil afirmou que as declarações de Trump configuram “um ato hostil, unilateral e arbitrário, incompatível com os princípios mais básicos do direito internacional”, além de representar “uma ameaça explícita de uso da força”, proibida pelo Artigo 2, parágrafo 4, da Carta da ONU.
O chanceler denunciou ainda o que chamou de tentativa de minar a soberania venezuelana, ao atribuir a Trump a intenção de aplicar extraterritorialmente uma “jurisdição ilegítima” que colocaria em risco a segurança da aviação, a integridade territorial e o controle do Estado venezuelano sobre seu próprio espaço aéreo.
A declaração de Trump
A declaração de Trump sobre o fechamento do espaço aéreo da Venezuela foi publica em sua rede Truth Social em meio à escalada das hostilidades dos EUA contra o país sul-americano.
Na publicação, Trump cita que a mensagem é direcionada a “companhias aéreas, pilotos, narcotraficantes e traficantes de pessoas”, utilizando expressões que não haviam sido usadas pela Casa Branca no alerta oficial emitido dias antes. Em 21 de novembro, a Administração Federal de Aviação (FAA) havia pedido “cautela” no sobrevoo do território venezuelano devido ao agravamento da situação de segurança e ao aumento da atividade militar.
A pressão estadunidense causa impacto direto nas rotas aéreas da região e aumenta o temor de ações militares iminentes. Pelo lado venezuelano, na noite de quarta-feira (26), o Instituto Nacional de Aeronáutica Civil anunciou a revogação da licença de voo para seis companhias aéreas, incluindo a brasileira Gol. A justificativa aponta que as empresas “se somaram às ações de terrorismo de Estado promovidas pelo governo dos Estados Unidos, suspendendo unilateralmente suas operações comerciais de e para a República Bolivariana da Venezuela”.
Outra declaração recente de Trump afirma que ofensivas terrestres em território venezuelano devem começar “muito em breve”. A Casa Branca acusa Nicolás Maduro de liderar o suposto Cartel de los Soles, apontado como uma “organização narcoterrorista”. “Detivemos quase 85% [das drogas] por mar e também começaremos a detê-los por terra. Por terra é mais fácil, mas isso começará muito em breve”, disse o mandatário estadunidense, que não apresentou nenhuma documentação que confirme o dado apresentado.
Mais cedo, no mesmo dia da declaração de Trump, Nicolás Maduro disse que os venezuelanos estão dispostos a pegar em armas para defender o país. “Se for preciso pegar em armas, o faremos e teríamos um destino de triunfo e dignidade”, disse, durante a celebração do 105° Aniversário da Aviação Militar Bolivariana.
Rosana Fernandes, coordenadora na Venezuela da Brigada Internacionalista Apolônio de Carvalho do MST diz que as ameaças de Donald Trump fazem parte de uma guerra psicológica contra os venezuelanos, mas que o risco de um ataque direto não pode ser descartado.
“Os inimigos do povo são capazes de qualquer atitude para aniquilar as forças organizadas. A guerra psicológica – como entendemos essa ofensiva – é uma forma de pressionar a organização popular e política da Venezuela. Então, não podemos duvidar de uma invasão terrestre, para colocar à prova a resistência do povo venezuelano”, disse Fernandes.
A ofensiva mais intensa de Trump contra Caracas ocorre desde o fim de agosto, quando os primeiros navios militares foram enviados ao mar do Caribe. No mês seguinte, os bombardeiros a embarcações, que já deixaram mais de 80 mortos, começaram.
Nas últimas semanas, o mandatário estadunidense tem enviado mensagens dúbias. Trump afirmou, em mais de uma ocasião, estar aberto a uma conversa com Nicolás Maduro. Ao mesmo tempo, diz não descartar a possibilidade de uma ação militar contra o país caribenho.
*Texto atualizado em 1º de dezembro para inclusão de posicionamento do governo venezuelano.
