Instituição da Secretaria da Cultura (Sedac), o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) está entre os espaços integrantes do roteiro da 9ª Noite dos Museus, neste sábado (29), em Porto Alegre. O local seguirá aberto para visitação até 22h.
As atrações que poderão ser visitadas pelo público em geral são as exposições: Giselle Beiguelman – Naturezas desviantes; Elias Maroso – Vida que sobra; fuse* – Onirica; Paulo Chimendes – A travessia do tempo; Onirica, do estúdio italiano fuse; e Acervo em movimento – Outubro a janeiro.
A homenagem à trajetória do artista Paulo Cezar da Silva Chimendes, nascido em Rosário do Sul (RS) em 1953, apresenta sua produção desde os anos 1970. São mais de 60 trabalhos, em sua maioria provenientes da sua coleção pessoal, além de obras que integram o Acervo Artístico do Museu. A mostra segue em exibição até o dia 4 de janeiro de 2026.
A família de Paulinho, como é conhecido no meio artístico, se mudou para Porto Alegre quando ele era ainda criança, por volta de 1961. O quarto dos 13 filhos de um bancário e de uma dona de casa começou sua formação muito jovem: aos 12 anos, entrou no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre (quando ainda funcionava no segundo andar do Mercado Público) para estudar desenho, tendo mestres como Paulo Peres, Vasco Prado, Xico Stockinger e Danúbio Gonçalves, seu “padrinho” artístico.
Depois de ter experimentado praticamente todas as técnicas, o jovem teve a primeira individual em 1972. Os 20 desenhos em bico-de-pena foram todos vendidos na ocasião. A sua obra é, até hoje, facilmente comercializada em eventos.
Em paralelo, uma intensa produção particular permitiu desde então viver exclusivamente da venda de seus trabalhos, muitos dos quais expostos em galerias e instituições artísticas dentro e fora do Rio Grande do Sul. A carreira é marcada, ainda pelo reconhecimento oficial – desde o Salão do Jovem Artista de 1974 ao troféu especial no Prêmio Açorianos de Artes Plásticas de 2022.
Também trabalhou durante anos em uma banca de revistas no Centro (que era de seu pai, funcionário da Caixa Econômica Estadual), o que fez crescer seu interesse por leituras sobre arte, história e filosofia.
Um outro salto foi dado com a seleção de Chimendes para um curso de técnico em litogravura, realizado em São Paulo sob patrocínio do programa Fullbright, dos Estados Unidos. Sua atividade também permitiu que conhecesse Argentina, Uruguai, Portugal, Itália, Alemanha e Áustria.
De volta à capital gaúcha, tornou-se também um dos mais requisitados impressores de obras para colegas como Maria Tomaselli e Iberê Camargo.
Hoje, aos 73 anos, o risonho desenhista, gravador, pintor e escultor segue produtivo e uma característica mais que diferencial sua é ser, desde sempre, um dos mais queridos nomes das artes plásticas no Rio Grande do Sul. Em evento no Espaço Cultural do Hotel Praça da Matriz (HPM) nesta semana, o artista contou que descobriu recentemente uma doença séria (um diagnóstico de câncer de medula) e está de mudança marcada para fazer a recuperação do tratamento em isolamento no município de General Câmara.

A travessia do tempo
A travessia do tempo é resultado de mais de um ano de diálogo entre o veterano artista plástico gaúcho e a equipe do museu. A curadoria é do diretor-curador do Margs, Francisco Dalcol, e da curadora-assistente, Cristina Barros, dando sequência a um conjunto de exposições monográficas inéditas de artistas que integram o acervo. A exposição também conta com texto de apresentação sobre Chimendes escrito pela artista e amiga Maria Tomaselli.
A relação de Chimendes com o Margs remonta a 1976, ano em que participa, pela primeira vez, de uma exposição coletiva no museu e tem sua primeira obra incorporada ao acervo. Ao longo desses 50 anos, passaria a estar representado por 45 obras na coleção, além de participar de 26 mostras coletivas e de inúmeras atividades de formação de público.
Em 2022, sua trajetória foi tema de um dos documentários da série Acervo Margs (disponível no YouTube), que homenageia artistas que integram o acervo do museu, com direção de Gilberto Perin. Também presente na Roda de Cultura no Hotel Praça da Matriz (HPM), que ainda contou com outros artistas, como Britto Velho e Arlete Santarosa, o fotógrafo e cineasta relatou que a condução do curta foi do próprio artista, “para mostrar como o Paulinho é; o difícil é juntar e mostrar tudo”, brincou. O subtítulo do filme vem do próprio retratado: Meus olhos não são suaves.
No entanto, até aqui Chimendes havia tido apenas uma única mostra individual no Margs, em 1989, centrada, porém, em uma série de aquarelas recentes à época. “É um dado surpreendente, sobretudo pelo artista notabilizado que é, daí também o caráter histórico e retrospectivo assumido pela exposição, assinalando um reconhecimento e homenagem”, destaca Dalcol.
Apesar de ser uma instituição da Secretaria Estado da Cultura, o plano de recuperação, exposições e atividades educativas do Margs conta com patrocínio direto do Banrisul e com patrocínios via Lei de Incentivo à Cultura Federal do Santander, da Hyundai e da EDP.
Artista hábil e “mestre da impressão”

Doutor e mestre em Teoria, Crítica e História da Arte, Francisco Dalcol é diretor-curador do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs). O crítico de arte, historiador da arte, pesquisador, curador e editor é membro da Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica), da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e da Associação Brasileira de Pesquisadores em Artes Plásticas (Anpap). Ele ainda é professor-colaborador do curso de especialização (lato sensu) Práticas Curatoriais, do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
Responsável pela curadoria de Paulo Chimendes – A travessia do tempo ao lado de Cristina Barros, curadora-assistente do museu, o pesquisador responde nesta entrevista sobre o legado do veterano artista à História da Arte do Rio Grande do Sul e sobre as marcas de sua trajetória.
Brasil de Fato: Quando se fala em Paulo Chimendes no contexto da História das Artes Visuais no RS, o que se destaca dentro de sua obra como marca característica e o situa dentro dessa linha do tempo?
Francisco Dalcol: Paulo Chimendes desperta atenção muito cedo, precocemente inclusive, por conta da grande habilidade e desenvoltura técnica que demonstra para o desenho, ainda adolescente, no começo dos anos 1970. Isso projeta seu reconhecimento entre artistas experientes e também nos diversos prêmios que recebe em salões e outros certames naquele período.
Depois, quando passa a trabalhar com gravura, Chimendes se torna uma espécie de mestre da impressão, tamanho o conhecimento que adquire e passa a praticar em colaboração com outros artistas, na atuação de técnico impressor. Observando retrospectivamente a obra individual que desenvolveu até aqui nessas décadas, sua produção pode ser caracterizada pelo modo como explora questões artísticas e expressivas vinculadas aos processos técnicos e criativos baseados nesses meios e linguagens.
Pesa mais nessa trajetória sua atuação e postura como artista, com quem trabalhou na carreira (mestres, parceiros, grupos – Atelier, Núcleo, Oficina, Museu do Trabalho – e de quem foi impressor), as diferentes experimentações de linguagem do que propriamente traços próprios ou universos que explorou?
A atuação de Chimendes se caracteriza pelo trabalho desenvolvido no ambiente coletivo das artes plásticas, sobretudo o da produção gráfica gaúcha. Isso desde o seu início como aluno no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre e também depois, nas experiências posteriores, em sua atuação como técnico impressor, a exemplo do MAM Atelier de Litografia de Porto Alegre, da Oficina 11 – Atelier de Litografia e Gravura em Metal, do Núcleo de Gravuras do Rio Grande do Sul e do Museu do Trabalho, onde até a enchente de 2024 era responsável pela oficina de litografia (gravura a partir de matriz em pedra).
O que situaria esta exposição no programa “Histórias Ausentes”?
Com relação ao “Histórias ausentes”, trata-se de um programa expositivo voltado a projetos de resgate, memória e reconsideração histórica, compromissando o museu a trabalhar o que ainda não foi feito e está por ser feito, o que permite implementar ações que colaborem para reparar ausências e lacunas e a ampliar a diversidade e a pluralidade.
No caso de Chimendes, é o fato de até aqui ele nunca ter ganhado uma exposição individual apresentada pelo Margs, embora desde os anos 1970 tenha obras ingressando no acervo e venha participando de exposições coletivas do museu. É um dado surpreendente, sobretudo pelo artista notabilizado que é, daí também o caráter histórico e retrospectivo assumido pela exposição, assinalando um reconhecimento e homenagem a este grande artista.
Do ponto de vista temático e estético, qual a contribuição do veterano artista para a memória das Artes Visuais no estado e no país? Nas diversas técnicas em que trabalhou e trabalha, ficou um legado específico?
Com relação ao ponto de vista temático e estético, podemos dizer que a obra de Chimendes transita entre a figuração e a abstração, pautando-se por uma reflexão própria sobre a relação com o mundo e o cotidiano, a partir de uma visão social e de caráter crítico a respeito da condição do indivíduo frente à sociedade e do universo urbano no contexto da expansão das cidades.
Além desse legado mais singular de sua obra, Chimendes tem uma trajetória pessoal que atravessa diferentes períodos, círculos e interesses artísticos, destacando-o pelo modo como herda e processa a tradição sul-rio-grandense das artes gráficas, transmitindo-a e perpetuando-a.
Ainda nessa linha das “invisibilizações” e do que a “História” com H maiúsculo prioriza reconhecer, a questão racial seria um tema a se analisar? Magliani foi uma pintora que furou essa bolha. Mas além dela e do próprio Paulinho, quais outros nomes de artistas pretos no RS que deveriam ser indeléveis na área de Memória e Patrimônio?
Com certeza, sobretudo no momento que nos encontramos do debate e das questões do tempo contemporâneo. A questão racial permite reavaliar a própria trajetória de Chimendes em uma perspectiva mais social do campo da arte, reconhecendo ser entre os poucos artistas negros e negras a se destacar.
Isso não significa que esse aspecto está ausente no entendimento pretérito de sua obra e carreira, pois foi desde cedo e sempre pontuado pela recepção crítica de sua obra, inclusive com participações em exposições coletivas que tinha a negritude como mote ou tema. Mas hoje percebemos que, no passado, isso se dava mais pelo viés um tanto paternalista de reconhecimento do seu “esforço” e sua “dedicação” para as artes, daquele que “chega lá” e é “reconhecido” apesar das dificuldades, o que hoje tomamos como um tipo de leitura que esconde um tanto do preconceito com relação a pessoas racializadas como negras, ainda mais considerando o círculo privilegiado e elitista que a arte historicamente favoreceu e favorece.
O fato é que há muitos artistas negros e negras que restaram não reconhecidos ao longo da história, inclusive na arte gaúcha. O projeto “Presença negra no Margs”, que desenvolvemos em 2022 envolvendo um extenso programa público e uma grande exposição coletiva, propunha-se justamente a trabalhar pela visibilização da produção artística afrodescendente, tanto em uma perspectiva de artistas históricos falecidos como de artistas atuantes não plenamente reconhecidos ou mesmo conhecidos. Resultou em um mapeamento de mais de 60 artistas negros e negras do Rio Grande do Sul ao longo dos séculos 20 e 21, fornecendo como contribuição essa breve amostragem dentro do muito que ainda há para ser trabalhado.
Serviço
Exposição Paulo Chimendes — A travessia do tempo

Onde: 2º andar expositivo do Margs (Praça da Alfândega, s/n°, Centro Histórico de Porto Alegre, RS)
Visitação: Até 4 de janeiro de 2026, de terça-feira a domingo, das 10h às 19h (último acesso 18h), com entrada gratuita
O Margs oferece visitas mediadas para grupos e escolas, mediante agendamento prévio pelo e-mail [email protected]
