Num domingo (30) que parecia comum, a vida de Gerson de Melo Machado, conhecido como Vaqueirinho, foi abruptamente ceifada no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa. Aos 19 anos, ele foi atacado por uma leoa ao invadir o recinto dos felinos. Sua morte, contudo, não foi apenas o resultado de um acidente: foi o desfecho de anos de ausência do Estado, de falhas intersetoriais e do silêncio da sociedade frente à vulnerabilidade de jovens pobres com transtornos mentais. A tragédia tornou-se metáfora de um país que falha em proteger os seus mais frágeis.
“Falhou na infância, na convivência familiar e comunitária, na garantia de direitos socioeconômicos, no acesso ao Benefício de Prestação Continuada, na inserção em serviços de saúde mental, na criação de dispositivos de acompanhamento contínuo. É um conjunto de ausências que extrapola a saúde mental – envolve assistência social, justiça, município, estado e políticas permanentes de cuidado”, aponta a professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Ludmila Correia, coordenadora do grupo de pesquisa Loucura e Cidadania da instituição.
Gerson vivia uma trajetória marcada pelo abandono familiar e pela exclusão social. Diagnosticado com esquizofrenia grave, ele acumulava 16 passagens pela polícia, dez delas ainda menor de idade. Segundo a conselheira tutelar Verônica Oliveira, ele foi acompanhado desde os dez anos por diversos órgãos da rede de proteção, mas nunca teve garantido o cuidado integral que precisava. “Foram oito anos acompanhando você, lutando e brigando para garantir seus direitos. Desde que entrou na minha sala, sempre buscamos proteção, mas a sociedade não compreendeu sua história”, relatou Verônica em nota pública.

A invasão ao recinto dos felinos
O ataque ocorreu por volta das 10h, durante horário de visitação. Imagens registradas por visitantes mostram Gerson escalando uma parede de mais de seis metros, ultrapassando grades de proteção e utilizando uma árvore interna para acessar o recinto da leoa. Conforme o Instituto de Polícia Científica, a morte foi causada por choque hemorrágico decorrente de ferimentos profundos na região do pescoço.
O Parque da Bica informou que a leoa Leona entrou em estado de estresse após o ataque, mas respondeu aos comandos dos tratadores sem uso de tranquilizantes e não será sacrificada. A administração reforçou que a reação do animal foi instintiva diante da invasão e que o zoológico permanece fechado por tempo indeterminado, com sindicância aberta para apurar possíveis falhas de segurança.
Infância marcada por abandono
Gerson nasceu em um contexto familiar fragilizado, com a mãe diagnosticada com esquizofrenia e incapaz de prover cuidados adequados. Segundo relatos da conselheira tutelar Verônica Oliveira, ele foi encontrado sozinho na BR aos 10 anos, entregue à rede de proteção e acompanhado durante anos por serviços de assistência social, saúde e educação. “Eu conheci a criança que foi destituída do poder familiar da mãe e impedida de ser adotada, como os outros irmãos. A sociedade preferiu deixá-lo à própria sorte”, disse Oliveira.
Transtornos mentais e fugas
Ainda na infância, Gerson apresentou sinais claros de sofrimento mental. Foi encaminhado ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps), mas em várias ocasiões fugiu da unidade. Sua trajetória incluiu períodos em instituições socioeducativas e prisões, após os 18 anos. Segundo policiais locais, ele tinha histórico de comportamento de risco e sinais de esquizofrenia grave, condições que exigiam acompanhamento contínuo e especializado, mas que nunca foram garantidas de forma adequada.
Durante toda sua vida, diferentes setores públicos tentaram intervir em sua proteção, conforme relatou Verônica Oliveira. “Desde que entrou na minha sala pela primeira vez, a rede de proteção me procurava sempre que algo acontecia com ele. Foram anos de acompanhamento, denúncias, intervenções e cuidados que nem sempre encontraram resposta efetiva do Estado”.
Em relato, Verônica reforça a complexidade da situação e o descaso histórico. “Gerson, meu menino sem juízo, quantas vezes você dizia que ia pegar um avião para ir a um safári na África cuidar dos leões… Foram oito anos lutando para garantir seus direitos, mas a sociedade não compreendeu sua história. Ele queria apenas ser filho de sua mãe, mas foi lançado à própria sorte”, escreveu.
Ausência de uma rede intersetorial
A professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e coordenadora do grupo de pesquisa Loucura e Cidadania destacou que o caso de Gerson evidencia falhas estruturais da rede de saúde mental e do Judiciário. “Não é apenas sobre um prazo judicial. É sobre a ausência de uma rede intersetorial capaz de garantir cuidado integral a jovens com transtornos mentais. Gerson só recebeu diagnósticos e acompanhamento quando já estava no socioeducativo ou no sistema prisional. O Estado falhou”, afirma.
Repercussão pública e comentários nas redes
O caso gerou intensa repercussão. O procurador do Trabalho Eduardo Varandas também relacionou o caso a “omissões” do Estado. “Um jovem de 19 anos, vulnerável e sem amparo, foi lançado à própria sorte. Poderia ser roteiro de filme de terror, mas foi a vida real – fruto de omissões históricas do Estado”, comentou.
Nas redes sociais, a internauta Claudia Bronzeado escreveu:
“Um jovem que, desde a infância, carregava marcas que ninguém via. Aos 10 anos, viu os irmãos serem adotados enquanto ele ficou para trás e desde então passou a vagar pelo mundo carregando uma dor que nunca encontrou acolhimento. As prisões, que tantos julgavam como ‘mau comportamento’, talvez fossem apenas gritos silenciosos pedindo socorro… uma mente em confusão, em sofrimento, implorando cuidado, atenção, tratamento. É doloroso pensar que, se tivesse recebido o apoio certo lá atrás, essa tragédia poderia ter sido evitada. Que essa história desperte mais empatia, mais políticas de cuidado e menos julgamento. Que ele finalmente encontre a paz que a vida nunca lhe deu.”
Já Nilton Alves comentou: “Dois grandes problemas: abandono de humanos e aprisionamento de animais. Essa notícia mexeu muito com o meu emocional. Vá com Deus, Vaqueirinho.”
Fabiana Fernande acrescentou: “A leoa não teve culpa… e o Estado falhou severamente com esse jovem… aliás, todas as instituições falharam.”
Debate sobre políticas de saúde mental
Especialistas e movimentos populares ressaltam que o caso evidencia a ausência de uma rede intersetorial de cuidado para pessoas com transtornos mentais. A estagnação do sistema de saúde mental em João Pessoa e as falhas na articulação entre Judiciário, assistência social e saúde demonstram a urgência de políticas estruturantes que previnam novas tragédias.
Segundo apuração, a Prefeitura de João Pessoa abriu sindicância interna para apurar como Gerson conseguiu acessar o recinto e se os mecanismos de contenção eram suficientes. O Conselho Regional de Medicina Veterinária da Paraíba criará uma comissão técnica para avaliar condições estruturais do parque e protocolos de segurança.
Abaixo, as notas do Parque Arruda Câmara


Especialista em saúde mental critica estagnação da política pública que deixou Gerson desassistido
A professora da UFPB Ludmila Cerqueira Correia afirmou que a tragédia envolvendo Gerson de Melo Machado é profundamente comovente, mas não pode ser interpretada apenas pelo recorte da decisão judicial ou pelo atraso na publicação do documento. Segundo ela, como destacou a conselheira tutelar Verônica Oliveira, o caso revela uma trajetória marcada por sucessivas ausências e omissões do Estado.
“Gerson só recebeu alguns diagnósticos depois de ser capturado pelo sistema socioeducativo, onde cumpriu medida por ato infracional, e posteriormente pelo sistema prisional, já maior de idade. Ele já apresentava sinais claros de sofrimento mental severo muito antes disso”, explicou Correia, ressaltando que pessoas com transtornos mentais severos necessitam de cuidado contínuo e de uma rede articulada.
A especialista observou que a política nacional de saúde mental, vigente desde a Lei de 2001, estabelece que o cuidado deve ocorrer prioritariamente em serviços comunitários, sendo a internação hospitalar utilizada apenas quando absolutamente necessária. Ela acrescentou que a única instituição psiquiátrica de segurança do estado encontra-se fechada para novas internações, o que, na prática, é importante para não reiterar a violência institucional contra pessoas pobres, negras e com pouco acesso às políticas públicas.
No caso de Gerson, ela explicou que houve uma sentença proferida oralmente no dia 30 de outubro na 6ª Vara Criminal da capital, determinando medida de segurança com internação imediata devido ao diagnóstico de esquizofrenia grave e à incapacidade de compreender seus atos na ocasião. No entanto, o documento só foi publicado oficialmente 30 dias depois, quando já não havia como garantir o acolhimento que poderia ter evitado a tragédia.
Ela enfatizou as falhas do Estado em relação a Gerson. “Falhou na infância, na convivência familiar e comunitária, na garantia de direitos socioeconômicos, no acesso ao Benefício de Prestação Continuada, na inserção em serviços de saúde mental, na criação de dispositivos de acompanhamento contínuo. É um conjunto de ausências que extrapola a saúde mental – envolve assistência social, justiça, município, estado e políticas permanentes de cuidado”.
A professora também apontou que jovens pobres e periféricos com histórico de violações são frequentemente capturados pelos sistemas punitivos antes de terem seus direitos assegurados. “O Judiciário acaba sendo a última porta porque toda a rede anterior falhou. E quando a decisão chega, como no caso de Gerson, ela se depara com um território sem estrutura, com serviços insuficientes, com a Rede de Atenção Psicossocial estagnada há anos em João Pessoa”, disse.
Desde 2012, o grupo de Ludmila atua na defesa dos direitos de pessoas com transtorno mental, acompanhando casos de mulheres internadas no Juliano Moreira (Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira em João Pessoa é um hospital público que oferece serviços de saúde mental, como pronto atendimento, perícias médicas, internação e ambulatório) aguardando sentença, para que pudessem cumprir medidas em liberdade assistida pelo Caps e pela rede de seus municípios. Ela destacou que, embora a Paraíba apresente uma das maiores coberturas formais de centros de atenção psicossocial do Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, isso não garante pleno funcionamento da rede.
Ela ainda revelou que desde 2023 havia diálogo com a Defensoria Pública e a gestão municipal para ampliar a rede de atenção, fortalecer serviços 24 horas e implementar recursos já disponíveis, mas que até 2025 nada avançou. “Há uma estagnação evidente. E essa estagnação explica por que Gerson, mesmo sendo um caso conhecido por vários órgãos, nunca teve acesso ao cuidado integral que merecia”, disse.
Para Correia, o acolhimento poderia e deveria ter ocorrido de maneira intersetorial, conforme a Resolução do Conselho Nacional de Justiça de 2023. “Se o município ainda não se organizou para garantir isso, estamos diante de uma fragilidade estrutural que precisa ser enfrentada urgentemente para evitar que outras tragédias como esta se repitam”, concluiu.
