KILOMBOALDEYA

Artista tem obra censurada no Ceará: ‘Estado defende símbolos nacionais, mas não corpos e territórios’, denuncia

Obra que revisita bandeira nacional foi removida do Palácio da Abolição; arte já havia sido banida em festival no RJ

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Para Matheus Ribs, remoção mostra disputa por memória e símbolos do Brasil
Para Matheus Ribs, remoção mostra disputa por memória e símbolos do Brasil | Crédito: Reproduçãoa/Instagram/@o.ribs

O artista visual Matheus Ribs voltou a denunciar um episódio de censura envolvendo sua obra Kilomboaldeya, uma releitura crítica da bandeira nacional. A peça integrava a exposição Se não for agora, um dia será…, organizada pela Galeria Liberdade e instalada no Palácio da Abolição, em Fortaleza (CE), espaço dedicado à memória dos direitos humanos, da negritude e da ditadura militar.

Segundo o artista, a Casa Civil e a Casa Militar do estado determinaram primeiro a realocação e, depois, a remoção completa do trabalho. “Recebemos a informação de que a Casa Civil do estado e a Casa Militar estavam solicitando a realocação da obra”, relatou em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “Mesmo entendendo isso já como uma sinalização de censura, eu topei fazer essa realocação. No entanto, procedeu à remoção total da obra”, afirmou.

Ribs explica que a obra havia sido pensada para dialogar com a área externa da Galeria Liberdade, antiga estrutura que abrigava o mausoléu do ditador Humberto Castelo Branco. Ele lembra que a retirada dos restos mortais, em 2024, foi uma conquista de movimentos populares e marcou a transformação do local em um espaço de memória crítica sobre a ditadura.

Para ele, justamente por esse simbolismo, a intervenção ganhou mais força e também mais resistência. “Isso fala sobre como um espaço que se torna uma galeria, mesmo depois de transformado, não consegue sair das mãos do militarismo, não consegue sair da ingerência de um governo”, lamentou. “Então, o que é de fato a Galeria Liberdade?”, questionou.

A obra, que revisita a bandeira para questionar quem ela de fato representa, é parte de uma pesquisa do artista sobre memória, raça e colonialidade. Ribs afirma que seu objetivo é provocar um debate, não violar símbolos oficiais. “Eu não estou propondo uma alteração na bandeira nacional, mas fazendo da arte um lugar para rediscutirmos esses símbolos”, explicou. “Para muitos de nós, essa bandeira não representa povos quilombolas, não representa povos indígenas”, acrescentou.

Recorrência

A mesma obra já havia sido alvo de censura em julho deste ano, em Itaipava (RJ), durante um festival de inverno organizado pelo Serviço Social do Comércio (Sesc). “Instalamos a obra em um dia e no outro já chegou um guarda civil solicitando a retirada do trabalho”, recordou. Para ele, episódios repetidos não são coincidência. “Isso fala sobre o nosso país, como o poder do Estado se mobiliza para defender os símbolos nacionais, mas não se mobiliza para defender os corpos racializados, os territórios indígenas, os territórios quilombolas”, criticou.

Ribs avalia que o ambiente cultural continua tensionado por disputas políticas profundas, sobretudo quando obras questionam narrativas oficiais. “Acho que isso é uma ferida aberta, sobre como essas narrativas estão em disputa ainda”, analisou. Ele considera que mexer com símbolos nacionais não deveria ser visto, na verdade, como um exercício democrático. “E se não for pela arte, por onde será também?”, provocou.

Para o artista, impedir que esse debate exista é justamente o núcleo da censura. “O que está em jogo aqui é a impossibilidade de exercer um direito, que é o direito de imaginar outras possibilidades de país”, afirmou. Reforçando o papel da arte na pluralidade de visões sobre o Brasil, ele concluiu que está “propondo diversidade. A arte tem essa possibilidade de propor diversidade.”

O Brasil de Fato procurou o Instituto Mirante e o Museu da Imagem e Som (MIS) do Ceará para entender os motivos da remoção da obra, mas, até o momento, não houve retorno. O espaço segue aberto às manifestações.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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