Eleições

Histórico de golpismo, pressão dos EUA e denúncias de fraude nas eleições: o que está acontecendo em Honduras

Eleições em Honduras seguem incertas; denúncias de fraude e influência dos EUA marcam disputa entre partidos históricos

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Simpatizantes da candidata presidencial hondurenha do partido governista Libertad y Refundación (LIBRE), Rixi Moncada, gritam slogans no dia seguinte à eleição presidencial em Tegucigalpa, em 1º de dezembro de 2025.
Simpatizantes da candidata presidencial hondurenha do partido governista Libertad y Refundación (LIBRE), Rixi Moncada, gritam slogans no dia seguinte à eleição presidencial em Tegucigalpa, em 1º de dezembro de 2025. | Crédito: (Foto de Orlando SIERRA / AFP)

Nas ruas de Tegucigalpa, capital de Honduras, sente-se um clima de incerteza, mas também de relativa tranquilidade. Passadas mais de 48 horas desde o fechamento das urnas nas eleições gerais do último domingo, o cenário eleitoral continua acirrado, sem certezas, com múltiplos desdobramentos possíveis.

Até o momento, a contagem de votos do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) avança com surpreendente lentidão e sofre quedas recorrentes do sistema, obrigando as autoridades a reconhecer “falhas técnicas na divulgação das atas”. Com 78,6% das atas apuradas, Salvador Nasralla, candidato do Partido Liberal, conseguiu recentemente se posicionar em primeiro lugar, com 40,36%, superando Nasry Asfura, do Partido Nacional, que ficou em segundo, com 39,55%.

Em terceiro lugar aparece Rixi Moncada, candidata oficialista do Partido Liberdade e Refundação (Libre), com 19,4%. No final da segunda-feira, ela concedeu uma coletiva de imprensa, na qual voltou a afirmar que se consolidaria uma “nova fraude do bipartidarismo”. Segundo Moncada, uma parte significativa das atas apresentadas tanto pelo Partido Nacional quanto pelo Partido Liberal continha “mais votos do que o devido”.

“Exigiremos, neste prazo de 30 dias antes da recontagem final, que essas atas sejam revisadas. Usaremos todos os recursos legais, porque não temos dúvida alguma sobre a inflação de votos no sistema bipartidário”, afirmou.

Além das irregulares “falhas técnicas na divulgação das atas”, dos cenários acirrados e das denúncias de fraude, soma-se a constante e onipresente interferência dos Estados Unidos. Na última segunda-feira, o ex-presidente de Honduras e um dos principais líderes do Partido Nacional, Juan Orlando Hernández, que cumpria uma pena de 45 anos após ser condenado por crimes relacionados ao narcotráfico e ao tráfico de armas em prisão de segurança máxima, foi indultado pelo presidente americano Donald Trump.

O indulto ocorreu depois que, na semana passada — em clara interferência nas eleições — Trump pediu votos para Nasry Asfura e garantiu que, caso ele vencesse, perdoaria Juan Orlando Hernández.

Com um longo histórico de intervenções dos Estados Unidos e denúncias de fraude que marcaram as eleições hondurenhas durante doze anos, desde o golpe de Estado de 2009, estas são as primeiras eleições realizadas desde a chegada do Libre ao poder em 2021. O partido encerrou a histórica alternância entre o Partido Nacional e o Partido Liberal, que dominou o país por toda a sua história. O desfecho das eleições determinará quem ocupará o Palácio José Cecilio del Valle pelos próximos quatro anos.

O golpe de Estado de 2009

Na madrugada de 28 de junho de 2009, uma operação militar comandada pelo então tenente-coronel René Antonio Hepburn Bueso, à frente de cerca de 200 militares encapuzados, cercou e invadiu a residência presidencial, sequestrando o presidente Manuel Zelaya. Ele foi levado à força para uma base militar ao sul de Tegucigalpa e, posteriormente, “deportado” para a Costa Rica. A operação havia sido cuidadosamente planejada pelos diversos fatores de poder do país, embora faltassem apenas alguns meses para o fim do mandato de Zelaya.

O golpe impediu a realização de um plebiscito convocado por Zelaya para o mesmo dia, poucas horas depois. A consulta tinha como objetivo que a população se pronunciasse sobre a instalação de uma “quarta urna” nas eleições gerais previstas cinco meses mais tarde, em novembro. O plebiscito perguntava se os cidadãos concordavam que, junto com a eleição geral — na qual seriam eleitos presidente, deputados e vereadores —, também fosse realizada uma votação para convocar uma Assembleia Nacional destinada a reformar a Constituição.

Ao contrário dos golpes clássicos do século XX, a derrubada de Zelaya não resultou em um governo militar. No entanto, seu papel foi fundamental para concretizar a operação.

Governo do golpe

Após o golpe, a presidência foi assumida por Roberto Micheletti, membro do Partido Liberal — o mesmo que havia levado Zelaya à presidência — e presidente do Congresso Nacional.

Em novembro de 2009, foram realizadas eleições gerais em meio a intensos confrontos. Durante a campanha, o governo de Micheletti decretou a suspensão temporária das garantias constitucionais, como a liberdade de expressão e de reunião, e promoveu uma repressão massiva, resultando em graves violações de direitos humanos contra manifestantes.

O Partido Liberal estava dividido entre aqueles que apoiavam Zelaya e a cúpula partidária que se uniu ao golpe. Zelaya e o movimento de resistência convocaram ao boicote, e a participação oficial ficou abaixo de 50% do eleitorado, número significativamente menor que em eleições anteriores.

Apesar das críticas nacionais e internacionais, saiu vencedor o conservador Partido Nacional, com Porfirio Lobo. Os Estados Unidos, então sob a administração Obama, reconheceram o governo de Lobo, oferecendo importante apoio internacional.

Um homem fala ao telefone celular em frente a um grafite que diz "Prisão para os que apoiam o golpe" durante um protesto contra o golpe que depôs o presidente Manuel Zelaya, próximo ao palácio presidencial em Tegucigalpa, em 29 de junho de 2009.
Um homem fala ao telefone celular em frente a um grafite que diz “Prisão para os que apoiam o golpe” durante um protesto em 2009 – Orlando Sierra / AFP | Crédito: ORLANDO SIERRA / AFP)

Resistência popular e governos da ‘narcoditadura’

Em 2011, diversos grupos do que ficou conhecido como “Frente Amplo de Resistência Popular” — formado por ex-militantes do Partido Liberal, movimentos sociais e setores da esquerda — criaram um novo partido chamado Liberdade e Refundação (LIBRE), liderado por Manuel Zelaya e sua esposa Xiomara Castro.

O objetivo do LIBRE era romper o tradicional bipartidarismo entre o Partido Nacional e o Partido Liberal, que governava o país desde sempre.

A primeira participação do LIBRE em eleições foi em 2013, com Xiomara Castro como candidata. A principal disputa foi contra Juan Orlando Hernández, do Partido Nacional, que na época era acusado de se apropriar de 360 milhões de dólares do Fundo de Desenvolvimento Departamental, usado para financiar a campanha de seu partido.

Após uma eleição acirrada, marcada por denúncias de fraude e compra massiva de votos pelo Partido Nacional, o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) declarou vencedor Hernández, deixando Xiomara Castro em segundo lugar. Washington reconheceu imediatamente a vitória de Hernández, invalidando qualquer contestação.

A presidência de Hernández consolidou o narcotráfico no país. A segurança interna foi militarizada, com soldados nas ruas e aumento da repressão. Durante seus mandatos, Hernández estreitou relações com Washington, recebendo mais de 50 milhões de dólares para a suposta “guerra contra as drogas”.

O fraude institucionalizada

As eleições de 2017 ocorreram em meio a forte controvérsia. Apesar da lei proibir a reeleição presidencial, Hernández conseguiu se candidatar novamente por decisão judicial.

Ele contou com amplo apoio da mídia e setores empresariais, mesmo sendo acusado de quebrar a regra que justificou o golpe de 2009 contra Zelaya.

No dia da eleição, um relatório inicial do TSE, divulgado com atraso, mostrava Salvador Nasralla, da Aliança de Oposição, com vantagem de quase cinco pontos, com 57,2% das urnas apuradas.

No entanto, a contagem foi interrompida por mais de 24 horas. Quando retomada, a tendência se inverteu inexplicavelmente, favorecendo constantemente Hernández. Vinte e um dias depois, o TSE o declarou vencedor por estreita margem de 1,53%. Apesar das irregularidades documentadas internacionalmente, o Departamento de Estado felicitou Hernández, tentando invalidar qualquer questionamento.

A reação popular foi massiva. Grandes protestos se espalharam pelo país, e o governo do Partido Nacional respondeu com violência, deixando pelo menos 17 mortos.

A chegada do Libre ao poder

Nas eleições de 2021, o Partido Nacional atravessava crise política e institucional. As manifestações contra seu governo se multiplicavam, enquanto dirigentes eram acusados de vínculos com o narcotráfico.

Ao contrário de pleitos anteriores, a eleição transcorreu com relativa normalidade. Com alta participação, próxima a 69%, Xiomara Castro, do Libre, venceu com 51,12%, superando Nasry “Tito” Asfura. Assim, encerraram-se doze anos de governo do conservador Partido Nacional.

Quatro anos depois, o bipartidarismo tradicional parece retornar ao poder, enquanto o indulto de Trump e a saída da prisão de Orlando Hernández projetam novamente sua sombra sobre a política hondurenha.

Editado por: Nathallia Fonseca

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