ARTIGO

Cerâmicas do Jequitinhonha: a tradição está salva!

Nas décadas de 1970 e 1980, Dona Izabel tornou-se uma das grandes referências da cerâmica brasileira

No audio source provided.
123
Augustto Ribeiro continua e reinventa os trabalhos de mestre Izabel | Crédito: Ediel Rangel

Nas décadas de 1970 e 1980, Dona Izabel Mendes — ou simplesmente mestre Izabel — tornou-se uma das grandes referências da cerâmica brasileira. De suas mãos nasciam as noivas do Vale do Jequitinhonha, moldadas com paciência e devoção: figuras femininas de olhar distante, feições firmes e uma presença quase espiritual.

Mais do que barro e fogo, Izabel moldava histórias de um povo — mães, noivas, mulheres que carregavam na expressão o peso e a beleza da vida no vale.

Seu talento foi reconhecido dentro e fora do país, recebendo distinções como o Prêmio Unesco de Artesanato para a América Latina e o Caribe e a Ordem do Mérito Cultural do Brasil. Em 2014, ela partiu, deixando no ar uma pergunta que ecoava pelos admiradores de seu trabalho: “E agora? Quem continuará esse legado?”

Por um tempo, o silêncio pareceu ameaçar a tradição. Mas o barro não se cala.

No mesmo chão que viu nascer a mestra, um novo nome começa a despontar, reacendendo a chama da esperança: Augustto Ribeiro.

Com apenas 25 anos, Augustto já demonstra uma maestria que surpreende até os olhos mais exigentes. Suas bonecas guardam a alma do Vale — os olhos amendoados, o corpo arredondado como o pote de barro que as sustenta, e braços que parecem se mover com leveza e graça.

Mas há algo novo em seu trabalho. As expressões de suas figuras têm vida própria. Parecem dialogar com o observador, convidando-o a sentir o barro, a história, o tempo. O acabamento, de tão delicado, instiga o toque — é impossível não querer se aproximar.

Mestre Izabel deixou uma herança que vai além da arte: ela transformou uma comunidade. Graças a ela, muitas famílias de Santana do Araçuaí encontraram sustento, dignidade e voz. Entre essas famílias, está a de Augustto, que cresceu vendo o barro virar beleza.

Hoje, esse jovem artista honra e eleva o legado da mestra.

Não apenas o continua, mas o reinventa com amor, técnica e respeito.

O que nasceu nas mãos de Dona Izabel floresce, agora, nas mãos de Augustto Ribeiro — e o que poderia ter sido o fim de uma era, revela-se o recomeço de uma tradição.

O Vale fala novamente através dele.

Ediel Vieira Rangel é mestre em tecnologia e pesquisador sobre tecnologia e alienação da classe trabalhador.

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

|

Newsletter