Nas décadas de 1970 e 1980, Dona Izabel Mendes — ou simplesmente mestre Izabel — tornou-se uma das grandes referências da cerâmica brasileira. De suas mãos nasciam as noivas do Vale do Jequitinhonha, moldadas com paciência e devoção: figuras femininas de olhar distante, feições firmes e uma presença quase espiritual.
Mais do que barro e fogo, Izabel moldava histórias de um povo — mães, noivas, mulheres que carregavam na expressão o peso e a beleza da vida no vale.
Seu talento foi reconhecido dentro e fora do país, recebendo distinções como o Prêmio Unesco de Artesanato para a América Latina e o Caribe e a Ordem do Mérito Cultural do Brasil. Em 2014, ela partiu, deixando no ar uma pergunta que ecoava pelos admiradores de seu trabalho: “E agora? Quem continuará esse legado?”
Por um tempo, o silêncio pareceu ameaçar a tradição. Mas o barro não se cala.
No mesmo chão que viu nascer a mestra, um novo nome começa a despontar, reacendendo a chama da esperança: Augustto Ribeiro.
Com apenas 25 anos, Augustto já demonstra uma maestria que surpreende até os olhos mais exigentes. Suas bonecas guardam a alma do Vale — os olhos amendoados, o corpo arredondado como o pote de barro que as sustenta, e braços que parecem se mover com leveza e graça.
Mas há algo novo em seu trabalho. As expressões de suas figuras têm vida própria. Parecem dialogar com o observador, convidando-o a sentir o barro, a história, o tempo. O acabamento, de tão delicado, instiga o toque — é impossível não querer se aproximar.
Mestre Izabel deixou uma herança que vai além da arte: ela transformou uma comunidade. Graças a ela, muitas famílias de Santana do Araçuaí encontraram sustento, dignidade e voz. Entre essas famílias, está a de Augustto, que cresceu vendo o barro virar beleza.
Hoje, esse jovem artista honra e eleva o legado da mestra.
Não apenas o continua, mas o reinventa com amor, técnica e respeito.
O que nasceu nas mãos de Dona Izabel floresce, agora, nas mãos de Augustto Ribeiro — e o que poderia ter sido o fim de uma era, revela-se o recomeço de uma tradição.
O Vale fala novamente através dele.
Ediel Vieira Rangel é mestre em tecnologia e pesquisador sobre tecnologia e alienação da classe trabalhador.
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.
