A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul promoveu uma noite de reconhecimento à cultura regional ao entregar os Prêmios Vítor Mateus Teixeira e José Mendes, além de inaugurar o Troféu Jaime Caetano Brau, durante solenidade no Memorial do Ministério Público, em Porto Alegre, na quarta-feira (3). As homenagens, distribuídas a personalidades que contribuem para o tradicionalismo e para a produção artística do estado reafirmam o compromisso institucional com a preservação da memória e da identidade cultural do Rio Grande do Sul.
O Prêmio Vítor Mateus Teixeira recorda o legado de Teixeirinha, ícone popular falecido em 1985 e que, em 2025, completa 40 anos de ausência. O Troféu José Mendes, criado para destacar a contribuição do artista morto precocemente aos 34 anos, também reafirma a necessidade de valorizar figuras que marcaram a cultura regional.
Neste ano, o Prêmio Vítor Mateus Teixeira passou por uma mudança importante no processo de escolha dos agraciados. As indicações foram realizadas pelos gabinetes parlamentares, e a votação final ficou a cargo dos deputados, tornando a seleção mais participativa e representativa.
A consagração de Odilon Ramos
Um dos nomes que marcou a noite foi o do comunicador, porta e declamador Odilon Ramos, que completou 58 anos de trajetória na comunicação e recebeu duas das principais distinções. Ele foi homenageado com o Prêmio Vítor Mateus Teixeira na categoria Artista de Interpretação Poética, indicado pelo deputado Luís Marenco (PDT), e recebeu o Troféu José Mendes, cujo proponente foi o deputado Zé Nunes (PT), como destaque na apresentação de programas regionalistas.
Ao justificar a indicação, Zé Nunes classificou Odilon Ramos como “uma voz singular do Rio Grande do Sul”, destacando sua relevância na preservação e difusão da cultura local. Para o deputado Paparico Bacchi (PL), reconhecer trajetórias como a dele significa fortalecer a continuidade das expressões culturais que moldam a identidade regional. Em suas palavras, “ao homenagear os bons”, incentiva-se “que o bom continue sendo bom”.
Visivelmente emocionado, Odilon agradeceu as distinções e disse que elas representam um marco pessoal e profissional. Durante seu discurso, afirmou: “Sinto-me pequeno para tamanha honraria e, com muita emoção, agradeço e compartilho, divido com todos os declamadores e poetas do Rio Grande esta homenagem que eu recebo”.
Ao refletir sobre sua carreira, avaliou que as premiações funcionam como incentivo para seguir em atividade, reconhecendo que ainda tem contribuição a oferecer. “Depois de 58 anos de comunicação, é um estímulo a mais para continuar e a certeza de que ainda restam coisas a fazer”, afirmou.
Compromisso com a comunicação e com a comunidade
A relevância do trabalho de Odilon Ramos ultrapassa o campo artístico e alcança dimensões sociais, especialmente pelo papel que desempenha na comunicação popular e comunitária. Para ele, o compromisso ético dos comunicadores conscientes envolve transmitir algo positivo e construtivo ao público. “Antes de sair, antes de me despedir, eu tenho que ter deixado alguma coisa de bom, seja uma mensagem positiva, seja uma emoção através de uma poesia, seja um motivo para rir, mas que a gente sempre, na função de comunicador, comunique algo de bom, de positivo para as pessoas”, disse.
Ramos também relembrou momentos marcantes da carreira, como o período em que foi apresentador do programa Vida no Sul, desenvolvido em parceria com o Instituto Cultural Padre Josimo e movimentos sociais, com transmissão pela TV Aparecida. Enfatizou que sempre buscou abrir portas para quem não encontra espaço nos grandes meios, destacando a necessidade de “dar visibilidade a talentos anônimos” como parte da responsabilidade como comunicador.
Para ele, os prêmios recebidos representam não apenas o reconhecimento da trajetória, mas também o agradecimento às pessoas que contribuíram para que chegasse até esse ponto, incluindo familiares e parceiros de caminhada. “Nada disso se constrói sozinho”, ressaltou, reforçando que sua história é também a das relações e dos vínculos construídos ao longo dos anos.
Tradição, inovação e os caminhos da música regional
A discussão sobre o futuro da música tradicionalista e nativista no estado também integrou o discurso de Odilon Ramos, que defendeu a necessidade de conciliar preservação e transformação. Ele explicou que a música tradicionalista carrega um “certo conservadorismo”, próprio de manifestações que se fundamentam em heranças simbólicas e rituais. Para ele, compreender e respeitar essa origem é fundamental para evitar perdas culturais.
Ao mesmo tempo, argumentou que é preciso permitir que novas gerações adaptem e reinventem a música gaúcha, desde que isso não comprometa sua essência. Ele chamou a busca de “ponto de equilíbrio”, articulando tradição e contemporaneidade. O comunicador também distinguiu entre a antiga música chamada de tradicionalista e o movimento nativista, marcando diferenças de linguagem, estética e contexto histórico.
Ao comentar a vertente moderna da música fandangueira, Ramos disse reconhece a legitimidade, embora não seja a que mais o representa artisticamente. Para ele, trata-se de uma expressão que integra o direito à criação. Em suas palavras, a arte “é sempre bem-vinda” quando exercida com liberdade, ainda que demande critérios de classificação para preservar a memória cultural. “É preciso classificar os gêneros para que a tradição não se perca”, refletiu.
Para ele, a preocupação central é garantir que a cultura gaúcha continue viva e significativa, sem cair na tentação de se colocar acima de outras expressões culturais. Ele defendeu que o valor da tradição está em sua capacidade de se reconhecer no próprio território e de dialogar com o que vem das novas gerações.
Premiados da noite
Prêmio Vitor Mateus Teixeira
Artista de Interpretação Poética – Pajada, Trova ou Declamação: Odilon Ramos
Artista ou Grupo de Interpretação Musical Gaúcha, Tradicionalista ou Nativista: Pedro Ortaça e Família
Autor de Composição Musical: Thiago Fonseca, pela obra “Vida no campo”
Obra Cinematográfica: Marco Aurélio Pedot, pelo filme “Revivendo a História dos Balseiros do Rio Uruguai”
Instituição, Entidade ou Veículo de Comunicação: Rádio Nativa FM
Troféu José Mendes
Apresentador de Programas Regionalistas de Rádio ou Televisão: Odilon Ramos
Troféu Jayme Caetano Braun
Melhor Letra/Letrista: empate entre Rômulo Chaves, Rodrigo Bauer e Rafael Machado
Melhor Melodia/Melodista: empate entre Nilton Ferreira e Evandro Zamberlan
Melhor Intérprete Musical Feminina: Maria Alice
Melhor Intérprete Musical Masculino: Filipe Coelho
Melhor Instrumentista: Edilberto Bergamo
Melhor Declamador: Neiton Peruffo
Melhor Pajador: Elizandro Chaves
Melhor Poesia: não houve vencedor
Melhor Trovador: não houve vencedor
Grupo vencedor Danças Tradicionais Força A – Enart: CTG Ronda Charrua, de Farroupilha
Prêmio Especial Clássicos do Rio Grande do Sul
Artista ou Obra Musical Marcante da Cultura Rio-grandense: Os Homens de Preto
