A enchente de maio de 2024 não terminou ainda. Aos poucos, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio Grande do Sul (Gaeco/MPRS) vai descobrindo bandidagens por todos os lados. Nesta quinta-feira (4), uma operação chamada Ascaris*, em Caxias do Sul e alguns municípios da região serrana, divulgou a comercialização de produtos destinados às vítimas das cheias que deixaram cerca de 200 mortos e afetaram quase 2,4 milhões de pessoas no estado.
Foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão em Caxias do Sul, São Marcos e Boa Vista do Sul, além do bloqueio de contas bancárias no valor de R$ 2 milhões. Na época da enchente destacava-se a imensa generosidade dos doadores, o que é elogiável, mas alguns deles estavam interessados em roubar e praticar desonestidade, conforme as informações do MPRS. Produtos eram colocados em brechós ou vendidos individualmente.
Em Caxias, até uma bolsa Hermès com valor de mercado de R$ 25 mil foi desviada. A investigação e operação, conduzidas pelo promotor de Justiça Manoel Figueiredo Antunes, coordenador do 5º Núcleo Regional do Gaeco–Serra, tiveram o apoio do Núcleo de Inteligência da instituição (Nimp) e da Brigada Militar (BM).
As apurações revelaram que roupas de marcas conhecidas mundialmente, além de mais de 200 caixas de fraldas e outros produtos dos Estados Unidos, foram desviadas para uma ONG, mas depois acabaram sendo comercializadas em brechós da região, com indícios de enriquecimento ilícito por meio de laranjas e recebimento de valores via Pix em nome de terceiros. Duas pessoas foram presas por venda de medicamentos proibidos, junto às roupas.
“Um verdadeiro absurdo”
Conforme o promotor falou em uma emissora de rádio da Capital, parte do dinheiro foi usada para aquisição de veículos, um apartamento e outros bens da principal pessoa investigada. Oito suspeitos, três deles da mesma família, e uma empresa jurídica são alvo do Gaeco. “Um verdadeiro absurdo, uma situação calamitosa, afirmou ele.”
Os crimes foram de apropriação indébita, organização criminosa e lavagem de dinheiro, praticados em contexto de calamidade pública. A investigação teve início após denúncia encaminhada ao Consulado-Geral do Brasil em Miami, que alertou a Defesa Civil do Estado para a venda de roupas importadas que deveriam ter sido destinadas às vítimas das enchentes.
Com a apreensão de documentos, mídias e celulares, o objetivo é apurar se há mais envolvidos, quanto movimentaram em dinheiro, valores que revenderam de forma ilegal pelas peças doadas e até se desviaram doações em outras situações. Antunes garantiu que as ações não param aí e que novas investigações estão sendo planejadas.
“O interesse público é muito superior ao interesse individual dos investigados, que se aproveitaram da dor das pessoas para obter vantagem patrimonial. Inclusive, divulgavam ações solidárias em suas redes sociais durante as enchentes. Um dos investigados chegou a ser reconhecido publicamente por isso”, destacou o promotor em reportagem da assessoria de imprensa do MPRS. A intenção é incrementar as parcerias com outras instituições públicas, buscando responsabilizar os envolvidos e garantir que recursos e bens desviados sejam recuperados.
As denúncias que estão pipocando em outras frentes de investigações, em outras cidades do estado, revelam também desvio de rações para animais, medicamentos, galões de água e alimentos não perecíveis. “Em Canoas, por exemplo, uma dona de veterinária ia todos os dias a um dos pontos onde estavam animais recolhidos e enchia o seu carro com as melhores marcas de rações que ali estavam, além de cobertas e medicamentos”, contou uma voluntária para o Brasil de Fato RS. “Na maior cara de pau, ela dizia que ia levar os produtos para outros abrigos, o que era mentira. Ela levava para vender.” Isso, sem contar, dinheiro pedido via Pix por algumas pessoas para ajudar as vítimas das enchentes, o que era uma grande fraude.
*Ascaris é um gênero de vermes parasitas, especialmente o Ascaris Lumbricoides, que causa a ascaridíase, uma infecção intestinal comum conhecida como “lombriga”. A transmissão ocorre principalmente pela ingestão de água, alimentos ou solo contaminados com ovos do parasita, sendo mais comum em áreas com saneamento básico precário. Os sintomas variam desde dores abdominais e náuseas até problemas respiratórios mais graves, como tosse e febre, durante a migração das larvas pelos pulmões.
