SINDICALISMO

Em Minas Gerais, Sindicato dos Jornalistas comemora 80 anos de lutas e conquistas

SJPMG afirma que a categoria precisa se organizar e reconquistar a obrigatoriedade do diploma

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A entidade realiza, nesta sexta-feira (5), um Coquetel Comemorativo na Casa do Jornalista
A entidade realiza, nesta sexta-feira (5), um Coquetel Comemorativo na Casa do Jornalista | Crédito: Reprodução – SJPMG

Em meio aos 80 anos do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG), a categoria é convidada a celebrar sua coletividade, ainda que em meio aos desafios que aparecem a cada esquina. A entidade realiza, nesta sexta-feira (5), um Coquetel Comemorativo na Casa do Jornalista, espaço físico da entidade, que completa 60 anos em 2025. 

O encontro promete resgatar a memória, os desafios e as conquistas do sindicato e da Casa de Jornalista ao longo das décadas. Ao Brasil de Fato MG, jornalistas que atuam e atuaram na consolidação desta entidade partilharam as vitórias e as preocupações da profissão. 

O recado principal é claro: a categoria precisa se organizar e  reconquistar a obrigatoriedade do diploma. 

“A tônica das comemorações dos 80 anos do sindicato e 60 anos da Casa é um olhar para o passado e outro para o futuro. Fazer um balanço de todos esses anos de história, de tradição, de luta: luta pelos jornalistas, luta em defesa da liberdade de imprensa, em defesa da democracia, contar a história desses 80 anos e projetar o futuro, o futuro do jornalismo, o futuro do sindicalismo e o futuro da Casa de Jornalista, com os seus projetos culturais”, destaca Lina Rocha, atual presidenta do SJPMG. 

Luta pela volta da obrigatoriedade do diploma

Foi no dia 6 de setembro de 1945 que o Ministério do Trabalho concedeu a carta sindical para a fundação do sindicato, que tinha como sede o edifício Mariana, localizado na avenida Afonso Pena, no centro da capital mineira. 

Desde a sua criação, mesmo em meio às opressões promovidas pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, o sindicato lutou pela profissionalização da classe jornalística, pelos direitos dos trabalhadores e pela liberdade de imprensa.

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Para Washington Thadeu de Mello, ex-presidente do Sindicato, em 1978-1980, e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), os 80 anos estimulam a recordar os momentos importantes da profissão. 

“O Sindicato dos Jornalistas de Minas pode dizer, para todo mundo ouvir, que é um dos mais lutadores, um dos que mais conquistou para a categoria, um que teve presença forte na criação da exigência dos cursos de jornalismo”, lembra. 

O Sindicato foi presença marcante em 1969, por exemplo, ano em que a categoria alcançou  a legislação profissional que valorizava a formação superior na área de jornalismo e tornava obrigatória a graduação para registro profissional e exercício da atividade profissional. 

“Foi o período em que o jornalismo brasileiro mais cresceu, progrediu, despertou os jovens para a importância da atividade profissional, mas mexeu muito com o empresariado. Nós então tivemos uma luta permanente de algumas empresas chamada a grande imprensa brasileira contra a exigência do diploma para exercício profissional”, conta o jornalista. 

Em 2009, o ministro Gilmar Mendes foi o relator do Recurso Extraordinário (RE) 511961 e votou contra a exigência do diploma, argumentando que a Constituição Federal de 1988, ao garantir a ampla liberdade de expressão e de exercício profissional, não recepcionou o antigo decreto-lei que tornava o diploma obrigatório.

“Ele considerou que não era importante, que o jornalismo nasce feito, jornalista basta saber escrever, jornalista aprende na redação, e por aí foi. E, de lá para cá, não conseguimos mais voltar com a regulamentação profissional. Lutamos muito, vivemos um período muito bom com a legislação em vigor, mas hoje, infelizmente, a categoria está muito desmobilizada, desprestigiada”, lamenta. 

Organização da categoria é fundamental

A comemoração dos 80 anos destaca, sobretudo, a relação fundamental de cooperação permanente, alinhamento político e fortalecimento mútuo entre os sindicatos e a Fenaj. 

“Compartilhando diagnósticos, estratégias de ação, formação profissional, defesa jurídica e enfrentamento às violações contra jornalistas”, lembra.

Para ela, com o SJPMG, essa relação tem sido histórica e estratégica, uma vez que Minas sempre foi um dos polos mais ativos da organização sindical da categoria. 

“A Fenaj tem dialogado de maneira muito próxima com o sindicato em temas como: a volta da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, a defesa da liberdade de imprensa e enfrentamento às agressões e ameaças aos profissionais da mídia, campanhas salariais, valorização profissional, enfrentando a precarização e a pejotização”, detalha. 

Alessandra Melo, ex-presidenta do SJPMG, também pontua que o sindicato é uma entidade de muita relevância na história de Minas Gerais, não só pela defesa da categoria que ele representa, mas também pelas tantas lutas que já encampou. 

“Um sindicato, por exemplo, importantíssimo, que teve um apoio do sindicato de jornalistas para sua constituição, foi o Sind-Ute, o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação”, afirma. 

Alessandra dirigiu o sindicato próximo aos anos que antecederam a reforma trabalhista, que retirou o financiamento das entidades de classe e restringiu o acesso do trabalhador à justiça, além de privilegiar os acordos individuais e flexibilizar as relações trabalhistas.

“O grande desafio, não só do sindicato dos jornalistas, mas de todas as entidades de classe, é convencer o trabalhador da necessidade de se filiar, de fortalecer a sua entidade representativa, porque a luta só vale, só tem sentido, e só consegue obter resultados, se ela é feita coletivamente”, acrescenta. 

É o que também pontua Lina Rocha, que faz um chamado à categoria para participar ativamente da organização. 

“Temos que chamar a base de volta para o sindicato, que participe da organização, que vá aos eventos da Casa de Jornalista”, enfatiza. “Eu diria que essa relação do sindicato com a categoria é uma via de mão dupla. O sindicato tem que estar próximo da categoria, atuando na defesa de seus direitos, e a categoria  próxima ao sindicato, participando das atividades, se filiando”, continua. 

A atuação do sindicato, lembra Lina Rocha, é muito importante na conquista de direitos e também para impedir que novos direitos sejam retirados através de explorações, de não cumprimento da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), de assédios morais. 

“Isso vai acontecer por meio dos jornalistas que estão nesses ambientes, seja em redações, assessorias, agências de comunicação. A gente precisa que eles venham até nós para que a gente tenha também informações sobre o que está acontecendo, de desmontes, de não cumprimento de direitos”, informa. 

Inteligência artificial

Nesse sentido, um tema que está na ordem do dia é o surgimento de novas ferramentas incorporadas ao trabalho dos jornalistas, especialmente a inteligência artificial (IA), algo que, para os entrevistados, precisa ser encarado com bastante senso crítico. 

“O jornalismo é uma profissão que foi impactada no coração pelas tecnologias, desde sempre. O impresso foi gradativamente substituído pelo digital, as rádios estão migrando para podcasts. A gente pode entender isso como um ganho, como uma modernização, mas pode entender também como perda de espaço, com novas plataformas que não necessitam exatamente de conteúdos de qualidade”, sinaliza Lina Rocha. 

Samira de Castro pondera que, frente aos desafios trazidos pelas novas ferramentas digitais, especialmente a IA, o movimento sindical dos jornalistas precisa concentrar sua atenção em três eixos fundamentais. 

O primeiro, segundo ela, é a proteção do trabalho e dos direitos da categoria, já que a IA pode levar à redução de postos, à intensificação do ritmo produtivo e ao aumento da precarização. 

“É essencial defender contratos formais, remuneração justa e transparência das empresas sobre como utilizam essas tecnologias, além de garantir cláusulas coletivas que impeçam substituições indiscriminadas de funções jornalísticas”, observa. 

O segundo eixo, para a jornalista, é a defesa da ética e da qualidade da informação. 

“É preciso exigir que plataformas digitais assumam responsabilidade pelo impacto de suas ferramentas, combater conteúdos sintéticos que confundem o público e assegurar que o uso da IA não desvalorize a apuração rigorosa, o espírito crítico e o trabalho humano que sustentam o jornalismo profissional”, continua. 

O terceiro eixo, destaca Castro, é a formação continuada, garantindo que a IA seja apropriada pelos jornalistas como instrumento de trabalho, e não como ameaça. 

“Isso envolve promover cursos, debates e pesquisas sobre tecnologias emergentes, integrando discussões éticas, técnicas e trabalhistas. Em síntese, a discussão sindical sobre IA deve ser crítica e propositiva, voltada à defesa da profissão e da informação de qualidade, sem demonizar a tecnologia, mas sem permitir que ela avance às custas dos direitos e da autonomia dos jornalistas”, recomenda. 

É o que também endossam Washington Thadeu de Mello e Alessandra Melo. 

“A presença das novas tecnologias exige um treinamento, uma formação profissional e uma uma educação básica muito sólida para os brasileiros, especialmente para os jovens, que pretendem ou que continuam tentando se habilitar em informação superior para que tenhamos sempre um comportamento profissional digno ético e corajoso”, lembra Washington Tadeu. 

“A inteligência artificial é uma coisa que está engatinhando. Ela vai avançar muito ainda e a gente não sabe o impacto que ela vai ter, mas com certeza ela vai reduzir postos de trabalho enormemente. Ela já está fazendo isso e isso vai avançar muito mais. Então, esse é um ponto extremamente negativo”, reflete Alessandra. 

A jornalista acredita, porém, que o sindicato também pode aproveitar da inteligência artificial para otimizar seus processos e garantir o melhor atendimento para o trabalhador.

“Tudo sendo usado com parcimônia, nem tanto ao céu, nem tanto à terra: no meio mora a virtude”, completa. 

Leituras fundamentais

Em meio aos 80 anos do Sindicato, elas também compartilham leituras que consideram fundamentais para uma categoria mais crítica e comprometida. 

“Acho fundamental que jornalistas e sindicalistas leiam ‘A máquina do ódio’, da Patrícia Campos Mello;  ‘A pauta é uma arma de combate: Subjetividade, prática reflexiva e posicionamento para superar um jornalismo que desumaniza’, da Fabiana de Moraes; e ‘Comunicações em tempos de crise – economia e política’, da Helen Martins”, indica Samira. 

Já Alessandra Melo indica Guerras Híbridas – das revoluções coloridas aos golpes, de Andrew Korybko, e Hiroshima, de John Hersey. 

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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