Linguagem universal

Miguel Góes lança disco 100% instrumental e comenta resistência do público: ‘Falta paciência’

Para músico, canções sem letra permitem 'linguagem universal'; ele defende políticas culturais contra domínio do mercado

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Álbum independente 'Pequenas lembranças' está disponível nas plataformas digitais
Álbum independente ‘Pequenas lembranças’ está disponível nas plataformas digitais | Crédito: Reprodução/Instagram/@miguelggoes

O músico, compositor e produtor Miguel Góes lançou o seu primeiro disco solo, Pequenas Lembranças, um álbum inteiramente instrumental. Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele contou que a opção surgiu de forma natural, a partir de composições que nunca pediram letra. “Sentia que essas melodias e essas músicas foram feitas para serem expostas do jeito que elas vieram para o mundo”, afirmou.

Para ele, a ausência de palavras também amplia o alcance do trabalho. “A pessoa que escutar aqui no Brasil está escutando da mesma forma que a pessoa no Japão ou na Polônia. A música, bem ou mal, acaba sendo uma linguagem universal”, observou.

Góes explicou que o disco nasceu do encontro entre o jazz e a Música Popular Brasileira (MPB), dois gêneros que considera profundamente conectados. “A bossa nova acho que justamente é o maior exemplo disso”, citou. Violonista, ele conta que as composições surgiram no violão de nylon, o que determinou parte da estética brasileira. Já os arranjos, que incluem sopros e cordas, abriram o caminho para o diálogo com o universo jazzístico. “Foram coisas que dialogaram muito tranquilamente. Não foi um desafio conciliar essa vertente brasileira com essa mais jazzística”, relatou.

Já a produção exigiu mais organização de equipe e direção artística. Góes descreveu que se sentiu como um diretor conduzindo um set de filmagem. “Eu sabia que eu tinha uma visão do que eu queria com o disco. Precisava de pessoas que fossem me ajudar a concretizar essa visão”, disse. Ele citou o trabalho do arranjador Antônio Fischer-Band como fundamental. “Eu sabia que ele seria uma pessoa muito mais capaz de me levar até esse lugar do que eu chegar lá sozinho”, admitiu. O lançamento é independente e já está disponível nas plataformas digitais.

Sobre a dificuldade de a música instrumental ocupar grandes festivais, como o Rock in Rio, o artista reconheceu barreiras de recepção. “A música instrumental é, de certa forma, abstrata. Depende muito da percepção do ouvinte”, indicou.

Segundo ele, a ausência de letra pode gerar resistência em um público habituado a narrativas mais diretas. “Falta um pouco de paciência para as pessoas, estarem dispostas a experiências diferentes do que elas estão acostumadas”, opinou.

Para ampliar esse horizonte, Góes defende mais políticas culturais. “Política pública que fomenta arte e cultura no geral é de uma importância inacreditável. O mercado decide o que o povo quer também”, avaliou.

Fascinado por cinema, ele considera que a sua música dialoga naturalmente com trilhas sonoras e imagina que cada ouvinte cria o seu próprio filme ao escutá-la. “É com você: se é um filme de amor, de terror, brasileiro ou gringo… depende de quem está ouvindo. Essa é a graça da música instrumental”, concluiu.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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