Mulheres Vivas. Este foi o lema da manifestação que mobilizou milhares de mulheres em diferentes Estados do país contra o feminicídio e a violência de gênero. Em Brasília, nem mesmo a chuva foi capaz de desmobilizar as manifestantes da Feira da Torre de TV no domingo (7). Acompanhada de sua mãe, a servidora pública Aldiza Soares se somou às outras que pediam: parem de nos matar.
“Esse movimento nacional é super importante, haja vista que estamos vendo um crescente movimento desses covardes assassinando as mulheres, achando que são donos dessas mulheres. A nossa vida é nossa, nós temos direito de viver, de escolher com quem nós queremos viver”, defendeu.
Ao lado da filha, Alzira Soares, ela destacou a importância da união entre as mulheres em atos como este. “Se a mulher não der o passo na rua para fazer o que está fazendo, ninguém vai fazer”, disse. E completou: “o levante das mulheres é importante. Seria bom fazer [uma manifestação] todo mês”.
Mulheres de diferentes regiões e lideranças de organizações sociais, parlamentares e ministras participaram do ato no Distrito Federal. A primeira-dama Janja Lula da Silva também esteve presente e, além de pedir o fim da violência de gênero, cobrou uma postura mais firme do Congresso Nacional sobre o tema.
“O problema não está nos nossos corações, o nosso problema também está no Congresso Nacional. Precisamos de uma legislação mais dura para combater o feminicídio”, disse.
Ao Brasil de Fato DF, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, lembrou dos recentes casos de feminicídio que vieram à tona no Brasil e lembrou da irmã, a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018. “Podíamos estar aqui comemorando, mas infelizmente o Brasil chorou e sangrou essa semana e tem feito isso há muitos anos. Só quem passa por uma dor como essa, sabe o que é. Me arrepio de falar que foi a minha irmã e foram tantas outras”, desabafou.

Celebração inter-religiosa
O ato na capital federal teve início com uma celebração ecumênica. Lideranças de diferentes religiões cobraram o fim da violência contra as mulheres e exigiram uma postura mais firme dos sacerdotes religiosos nessa luta. A professora e pastora Wall Moraes da Ruah, fundadora do Coletivo de Mulheres das Organizações Religiosas, disse que o momento foi histórico no DF.
“Pela primeira vez, um ato político-social liderado por mulheres inicia com uma celebração política social inter-religiosa pelo fim da violência contra as mulheres. Foi a primeira vez que isso aconteceu. Tendo no lugar de fala mulheres de diversas organizações religiosas do Distrito Federal e do Brasil”, comentou.
A mãe de santo Frances de Oyá alertou sobre os casos de abuso sexual nas religiões de matriz africana: “Não existe um homem dizer que está com espírito de atacar uma mulher. Isso é mentira. O santo não é isso. Ele não vai usar disso para abusar da mulher e amedrontá-la”.
Geovanna Tabajara, que acompanhou a manifestação, comemorou a presença das mulheres indígenas no ato. “Muitas vezes não nos incluem nessas lutas. As mulheres indígenas também sofrem violência. E é uma violência que muitas vezes não vai para a mídia”, enfatizou.
DF tem sua 26ª vítima de feminicídio
Dias antes da manifestação, o Distrito Federal registrou a 26ª vítima de feminicídio. A cabo do Exército Maria de Lourdes Freire Matos foi encontrada carbonizada no 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (RGC), no Setor Militar Urbano, na última sexta-feira (5).
O autor do crime foi o soldado Kelvin Barros da Silva. A morte se soma a uma estatística alarmante. Só em 2025, a capital federal registrou 25 feminicídios, segundo a Secretaria de Segurança Pública. Das vítimas, 88% eram mães e 76% não registraram ocorrência contra o autor.
A conselheira dos Direitos das Mulheres, Vilmara do Carmos, pediu uma maior segurança para as mulheres por meio de políticas públicas do governo do DF. “Não adianta nos 21 dias de ativismo pelo fim da violência, ficarmos falando para as mulheres denunciarem, se essas mulheres não são acolhidas pelo Estado. É preciso que essa estrutura aconteça”.
A representante também cobrou a criação da Casa da Mulher Brasileira, instituição destinada ao acolhimento de mulheres vítimas de violência: “Nós temos uma promessa desde o início da gestão Ibaneis de construção de quatro Casas da Mulher Brasileira. Uma no Recanto, uma em Sobradinho II, uma em São Sebastião e uma em Sol Nascente. Não tem casas em nenhuma dessas regiões. Esse governo só dá dinheiro para banqueiro. Eles não estão preocupados com a vida das mulheres”.
Luta também é deles
A luta pelo fim do feminicídio também é dos homens. É assim que o designer Victor Hugo, que foi à mobilização, pensa. “É fundamental que os homens estejam em manifestações como essa, porque a sociedade precisa dar fim ao feminicídio. Afinal, são demandas por uma sociedade mais justa e, consequentemente, que elimine a curto e a médio e a longo prazo essas máculas nos outros garotos e jovens que possam vir”.
Erinaldo Lima compartilha do mesmo pensamento do designer. Para ele, é mais que necessário os homens se aliarem no combate à violência de gênero. “É muito importante nós homens participar do ato em defesa da vida das companheiras mulheres. Primeiro porque quem mata são os homens”, destaca.
Reivindicações
Além de Brasília, milhares de mulheres de outros estados tomaram as ruas. Foram realizadas manifestações no Rio de Janeiro (RJ), Vitória (ES), Belo Horizonte (MG), Maceió (AL), Fortaleza (CE), São Luís (MA), João Pessoa (PB), Recife (PE), Teresina (PI), Natal (RN), Rio Branco (AC), Manaus (AM), Boa Vista (RR), Palmas (TO), Florianópolis (SC), Curitiba (PR), Campo Grande (MS), Goiânia (GO) e São Paulo (SP). Em Salvador (BA), o protesto está marcado para o próximo domingo (14), às 10h, na Barra.
Entre as reivindicações da pauta nacional da mobilização, estão:
- Delegacias da Mulher 24h e atendimento especializado;
- Casas-abrigo e acolhimento imediato;
- Medidas protetivas rápidas e investigação sem demora;
- Autonomia emergencial para mulheres em risco;
- Proteção de filhos e filhas;
- Paridade de gênero no poder público;
- Combate à violência digital e aos discursos de ódio.

