Em seu novo livro, Ninfa Morta – Uma história do ódio às mulheres, a escritora e filósofa Márcia Tiburi investiga como a idealização da “mulher silenciosa” atravessa séculos de literatura, artes e cultura, enquanto a mulher real, que fala, deseja e reivindica direitos, segue sendo alvo de ódio e violência. Na entrevista ao Brasil de Fato RS, ela articula essa construção histórica da misoginia com o avanço dos feminicídios no país, o papel das redes sociais na monetização do ódio às mulheres e os mecanismos que sustentam o patriarcado como “um regime de terrorismo”.
Para Tiburi, enfrentar essa máquina exige políticas públicas, coragem coletiva e um horizonte feminista: “O feminismo não é o contrário do machismo. É uma proposta de sobrevivência”.
A filosofa esteve recentemente em Porto Alegre participando do Festival Mulheres em Lutas Rio Grande do Sul (MEL-RS), na mesa de debate “Do ódio digital aos feminicídios”, juntamente com Manuela d’Ávila, a vereadora do Rio de Janeiro Monica Benício (Psol), deputada federal Fernanda Melchionna (Psol-RS), as deputadas estaduais Bruna Rodrigues (PCdoB) e Luciana Genro (Psol) e as vereadoras Grazi Oliveira (Psol) e Natasha Ferreira (PT).

Brasil de Fato RS – Vamos começar falando desse teu livro novo, Ninfa Morta. Como ele conversa com esse ódio às mulheres e como se manifesta nas relações e conflitos que estamos vivendo?
Márcia Tiburi – Ninfa Morta é um livro que demorei muitos anos escrevendo e pesquisando para chegar à formulação de que existe uma adoração das mulheres mortas. Essa imagem da mulher morta aparece na história da literatura, das artes visuais e do cinema. É como se existisse um culto a essa mulher morta, que remete à idealização da mulher: aquela que é calada, parada, inativa, uma pura imagem.
A misoginia é fundadora da sociedade patriarcal; não existe patriarcado sem ela
Isso diz respeito à misoginia, no sentido de que o ódio às mulheres é um ódio em relação à mulher real. A mulher idealizada é cultuada e a real é odiada. Essa mulher real é a que fala, deseja, tem suas demandas e reivindica seus direitos. É uma mulher que não corresponde às idealizações que a cultura patriarcal faz. A misoginia é fundadora da sociedade patriarcal; não existe patriarcado sem ela.
De que forma essa misoginia estrutural conversa com esses feminicídios que estamos vendo: Seriam mais de mil casos no país neste ano…
São números estarrecedores. A ONU divulgou um número mundial de mais de 80 mil mulheres mortas simplesmente pelo fato de serem mulheres. O motivo de gênero é o fator que desencadeia essa matança. No meu livro, chamei isso de “circuito feminicida”, dentro de uma “máquina feminicida”. O patriarcado é um sistema de poder baseado na violência e no privilégio dos homens.
Não existiria feminicídio sem esse ódio inicial, que é camuflado. Está na estrutura da sociedade. Um homem, quando nasce, tem valor, é considerado uma existência importante. Já as mulheres, historicamente, têm seu nascimento lastimado. No passado, mais ainda. Hoje, com o orgulho feminista, as mulheres, digamos, não são todas as pessoas que têm esse desmerecimento ao nascer. Mas é um fato que, na cultura patriarcal, o corpo dos homens tem mais valor. Enquanto que as mulheres valem nada. É uma questão de valor.
Uma autora que pesquisei, Diana E. H. Russell, a primeira a falar sobre feminicídio, diz que uma cultura que odeia mulheres é, ao mesmo tempo, uma cultura que ama os homens. Então, o ódio às mulheres, a violência contra as mulheres, se dá na contramão dos privilégios masculinos, do amor aos homens, do culto e da valorização dos homens. É a equação que a gente tem que enfrentar.
Mulheres são tratadas com termos que remetem à animalidade: “vacas”, “peruas”, “piranhas
Isso já estava em textos como os da Simone de Beauvoir. Ela já falava que os homens são tratados como cidadãos de primeira categoria e as mulheres são cidadãs de segunda categoria.

No Rio Grande do Sul, em muitos casos de feminicídio, quando se vai observar, são de ex-companheiros que não aceitavam o fim do relacionamento. Nesse sentido, há a questão da posse, não?
Isso está na história da filosofia política e tento mostrar os fundamentos disso também. Porque os homens olham para as mulheres como se elas fossem uma coisa, um objeto seu. Os homens são donos da casa, do território, do carro, dos bens. E as mulheres não são mais do que um bem para eles, um corpo. Como os donos de escravos, antigamente: eram donos das pessoas que eles escravizavam.
Isso também está na nossa linguagem. Mulheres são tratadas com uma terminologia que remete à animalidade: “vacas”, “peruas”, “piranhas”. O jogo da violência se instaura na linguagem. A própria casa, para as mulheres, sempre funcionou como um campo de concentração. E aí, quando a gente olha para esses assassinatos, feminicídios, eles sempre remetem justamente a essa ideia de que o homem é proprietário desse corpo, de que ele tem direitos sobre o corpo de uma mulher, direitos que ela mesma não tem sobre o seu corpo.
No Rio, um sujeito matou duas funcionárias porque achava que não podia ser chefiado por mulheres
Os homens agem com poder soberano, que é o poder de matar, e assassinam as mulheres nesse contexto do feminicídio. Ao mesmo tempo, controlam o corpo das mulheres através das leis. Se a gente olhar para a nossa Câmara dos Deputados, para o Congresso Nacional como um todo, que faz uma verdadeira guerra contra as mulheres no caso da questão do aborto, contra mulheres e contra meninas, a gente verifica de novo isso: os homens achando que são donos dos corpos das mulheres. E tudo isso para deixar evidente, para deixar marcado, que as mulheres não podem ser donas dos seus corpos, que não podem ter direitos sobre elas mesmas, porque não passam de coisas na mão dos homens.
Um dos casos que mais escandalizou a opinião pública nos últimos dias, dos tantos escandalosos que a gente viu — foi esse sujeito que era funcionário lá de um centro de educação, o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), do Rio de Janeiro. Ele matou as funcionárias porque considerava que não podia ser chefiado por mulheres.
E o que aparece de novidade para nós? Que normalmente os feminicídios, a gente inclusive fala de feminicídio íntimo: aquele praticado por um cônjuge ou alguém com quem a mulher assassinada teve uma relação afetiva, uma relação sexual, alguma relação com esse homem. Mas agora vêmos esse feminicídio duplo, que poderia ter sido ainda maior, pelo que ficamos sabendo, que remonta a um ódio genérico de um homem sobre mulheres que ele pouco conhece, com as quais ele trava uma relação profissional.
Então imagina: as mulheres têm medo de morrer por obra dos seus parceiros íntimos, dos parentes, dos cônjuges ou ex-cônjuges. E agora vão ter que começar a ter medo dos seus colegas de trabalho. Porque quando um homem comete um crime desses, ele cria uma informação. Ele dá uma informação. Eu falo bastante disso no livro: o feminicídio é uma prática, como toda violência contra as mulheres, uma prática codificada. Então, você envia a informação de que você é homem através daquilo que você fez. E de que as mulheres não valem nada. E de que elas podem ser mortas a qualquer momento, basta você ter uma arma.
Desde a época da Dilma, já se dizia que odiar mulher é o que mais monetiza nas redes sociais
Bom, é disso que estamos falando: de um terrorismo. O patriarcado é um regime terrorista. Nós, mulheres, vivemos sob ameaça e fomos desenhadas nesse sistema como inimigas. Tem um capítulo no livro também que fala sobre a construção da inimiga.

Temos também a questão da potencialização das redes sociais em relação aos discursos misóginos, aos red pills…
Aí estamos falando do que podemos definir como o mercado da “machosfera”, que é o mercado do ódio contra mulheres. Desde a época da Dilma Rousseff, já se dizia que odiar uma mulher é o que mais monetiza nas redes sociais. O CEO do Google, na época, já falava que atacar Dilma rendia muito dinheiro.
Aqui no Rio Grande do Sul, Manuela d’Ávila, eu, Maria do Rosário, Fernanda Melchionna e tantas outras, todas as mulheres da política e as mulheres que têm uma visibilidade pública, foram vítimas, de alguma maneira, disso. Em intensidades diversas, conforme a necessidade e as potencialidades do mercado.
As redes sociais transformaram o ódio numa mercadoria neoliberal, como esse ódio já era na época do fascismo. E uma das coisas que tento mostrar no meu livro é justamente a continuidade entre esse machismo e o fascismo. Mas as redes sociais conseguiram turbinar isso de uma maneira que, ao mesmo tempo que desvaloriza as mulheres, calcula sobre elas para ver quem vai render mais se fôr praticado ódio na sua direção.
E, ao mesmo tempo, isso potencializa o grotesco, o ridículo político masculino, que virou também uma espécie de título de capitalização desses homens. Quanto mais eles ameaçam o estupro, quanto mais se fazem de machos viris, aterradores, se eles matam… E há, digamos assim, a captura também das massas para esse tipo de jogo. Homens frágeis emocionalmente se jogam nisso para adquirir algum tipo de cidadania política e social. E até mulheres caem nesse jogo, infelizmente.
Anteriormente tu falaste na construção da inimiga. Nesse sentido, como se dá a interiorização da misoginia por parte das mulheres e como isso contribui para esse aumento da violência?
Tem a ver com a construção do pânico. Uma reação que as pessoas têm diante de líderes autoritários é aderir a eles. Aconteceu com Bolsonaro. Quando ele fez aquele voto citando Brilhante Ustra, ele dividiu o Brasil. Alguns reagiram com coragem, mas outros reagiram com mais medo, com covardia.
Mulheres que aderem (à misoginia) estão morrendo de medo porque o sistema fez isso com elas
Esses que reagem com covardia vão então mandar uma mensagem mimética para o líder, dizendo: “Eu sou igual a você. Você não precisa me matar, não precisa me perseguir, porque já estou junto com você”. Mulheres também fazem isso. Essas mulheres que aderem são mulheres que estão morrendo de medo porque o sistema fez isso com elas.
Mulheres que não têm medo viram feministas. Vão pra luta, se juntam com as outras, tentam fazer transformações, lutam pela democracia, como aconteceu diante do Bolsonaro, da vitória, inclusive, do paradoxo da democracia que a gente viveu entre 2018 e 2022. As que aderem, mandam a mesma mensagem para seu algoz: “Não precisa fazer nada contra mim, porque estou do seu lado”.
Um caso que acompanhamos é de uma amiga de uma vítima de feminicídio que quase entrou nas estatísticas. Que um dia antes de uma passeata pela amiga, tornou-se uma sobrevivente de feminicidio…
Eu vi essa notícia no jornal e pensei o seguinte: os homens mandam essa informação. Quando um homem passa ao ato, não é porque surtou, de fato. É porque reconheceu a informação e resolveu entrar no mesmo jogo de linguagem.
É o mesmíssimo jogo de linguagem do fascismo, do masculinismo. Todos estão procurando comunidade, construir o comum. O comum que é violento, negativo, aterrador. Mas, ainda assim, é um comum. Alguma coisa que as pessoas podem partilhar entre elas.
E os homens partilham entre eles violência. Por quê? Porque a violência é a matriz não só de subjetivação masculina, mas é também a matriz de socialização dos homens. Então, os homens se unem em torno da violência e as mulheres são o objeto da violência.
E aí, as mulheres apavoradas, muitas delas, em vez de se juntarem com outras mulheres para se defender, essas mulheres tentam se escamotear ali junto aos homens.
É disso que falamos: de um sistema codificado de comunicação em que a violência tem uma valência gigantesca.

Outra questão são as vidas que ficam, como os órfãos. E quando esse homem vai a julgamento chega a se apresentar como um bom pai…
São as desculpas do patriarcado, dos machistas, dos sujeitos que aderiram a esse sistema. E é um fato visível: apaga-se a presença de uma criança no processo. Apaga-se o fato de que essa mulher, tratada como coisa, como res, como animal de abate, que essa mulher é também, ao mesmo tempo, mãe do próprio filho desse homem. Porque, para esse homem, nada vale. Nem sequer esse filho vale nada.
O patriarcado é um regime sem compaixão, sem piedade e respeito pelos mais frágeis
Hoje em dia existe uma lei, até uma pensão para os filhos das crianças órfãs do feminicídio. Agora, obviamente, nada disso resolve quem vai cuidar dessas crianças. O trauma gigantesco de ter tido sua mãe assassinada… muitas vezes pelo pai, pelo padrasto, pelo tio, por um namorado, por um homem que nem tinha nada a ver com ela.
Não tem como consertar isso, não tem desculpa. Mas o patriarcado também é um regime que oferece desculpas.
Também há um aumento de violência contra as crianças, especialmente de meninas..
O que sabemos é que a maior parte das mulheres estupradas e que engravidam são meninas com menos de 14 anos, pessoas em estado de extrema vulnerabilidade. É disso também que a gente está falando. Então, pensa só: o que está em jogo é compreender que o patriarcado é um regime sem compaixão, sem piedade, sem respeito pelos mais frágeis, pelos vulneráveis. Um regime autoritário, sanguinário, de matança de mulheres.
E isso está explícito nesse momento histórico.
É possível desconstruir essa violência?
Do ponto de vista do funcionamento do patriarcado, precisamos de políticas públicas que envolvam educação, cultura, saúde mental, instituições, poderes estabelecidos. Precisamos criar espaços de reflexão, de ação, de sensibilização: campanhas, como a do Levante Feminista contra o Feminicídio, que está aí desde o começo de 2021. Quanto mais campanhas, mais consciência criamos, até porque as estatísticas têm sido cada vez mais estarrecedoras.
A palavra “feminismo” também apavora porque descortina uma realidade. Coloca as mulheres em luta
Eu acredito, sim, em transformação, mas desde que seja organizada; que o feminicídio e a cultura feminicida não sejam negligenciados; que haja combate ao feminicídio associado ao combate à misoginia. E isso é tarefa de um governo federal, de um Ministério das Mulheres. Sabemos que mesmo este governo, que tem R$ 1 bilhão e tanto destinados ao combate à violência contra as mulheres, não usou quase nada desse dinheiro este ano. E me pergunto: por quê? Tem o Ministério das Mulheres, poderia fazer uso disso. É estranho, né?
Tem muita coisa que revela falta de atenção a esse problema. A violência doméstica é um assunto antigo, mas o feminicídio assusta. Tanto que o próprio termo “violência doméstica” ameniza a situação, porque é, na verdade, violência praticada por homens contra mulheres e crianças. E o termo feminicídio só chegou ao universo legal brasileiro com a lei de 2015.
A palavra “feminismo” também apavora porque descortina uma realidade. Coloca as mulheres em luta. E isso não pode acontecer, porque, se elas lutarem, quem vai ser a escravizada? A violada? A mula de carga? Quem vai segurar o mundo nas costas? Se esse corpo, que não quer mais segurar o mundo nas costas e quer ter direito de existir e se desenvolver, se insurge, como é que fica?
O patriarcado é um sistema bárbaro que funciona praticando terrorismo. O machismo é a expressão mais antiga desse terrorismo patriarcal. Os homens contam com a servidão das mulheres, com sua submissão e obediência. Existe todo um universo de práticas e discursos que visam controlar essas mulheres. E o feminicídio faz parte disso: ele é sempre exemplar. Quando uma mulher é morta, as outras ficam com medo, assim como no espancamento, no estupro. Além do homem informar aos outros homens que é “homem o suficiente”, ele faz com que todas as mulheres se submetam, porque “afinal, podem ser mortas”.
Quantas mulheres, para não serem espancadas, ofendidas, maltratadas, aguentam seus cônjuges, maridos, irmãos, cunhados? Os homens, de maneira geral, sabem que o mundo é deles e que as mulheres não passam de corpos assujeitados, subalternizados, que devem ser docilizados e aceitar essa posição sem reclamar.
Qual é a mensagem de esperança, de transformação, que deixarias para a sociedade?
Venho dizendo há anos que o feminismo é o contrário da solidão. Escrevi isso num livro de 2018, O Feminismo em Comum. O feminismo, para mim, é um projeto de mundo, um projeto político, uma utopia. E o feminismo não é o contrário do machismo. O feminismo é uma proposta de sobrevivência para a humanidade.
Todo feminismo é antirracista, se não for, não é feminismo. Tem que ser anticapacitista, ecologista, inteligente o suficiente para sustentar aquilo pelo que as mulheres sempre lutaram: a sobrevivência.
Enquanto os homens fazem guerras, destruição, armamentos, envenenamentos e jogos pesados de poder para preservar seus privilégios, as mulheres lutam pela sobrevivência. Isso está na história. Os homens vão para as guerras; as mulheres ficam sobrevivendo, cuidando, tentando fazer seus filhos sobreviverem.
O feminismo, para mim, é a utopia de uma política do cuidado. E é isso que vejo crescer nessas décadas em que penso, ajo e reflito como feminista.
