O cientista político Rudá Ricci afirmou que os episódios de violência e censura na sessão que aprovou o Projeto de Lei (PL) da Dosimetria indicam um ambiente de negociações subterrâneas e não o aparente “rolo compressor” da extrema direita. Para ele, a Câmara vive um “acordão”, ou seja, uma articulação ampla entre as bancadas para amarrar acordos que envolvem orçamento, punições disciplinares e o próprio avanço do projeto que beneficia o ex-presidente preso Jair Bolsonaro (PL).
“Dá a entender que está em curso um grande ‘acordão’ que coloca na mesma cesta todas essas pautas”, disse, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. Segundo Ricci, a lógica é de pressão extrema para, em seguida, buscar vantagens na mesa de negociação. “A bancada do PL pressiona e faz exageros para negociar logo em seguida porque sem negociação não dá”, apontou.
Ao comentar a manutenção dos mandatos dos deputados Carla Zambelli (PL-SP) e Glauber Braga (Psol-RJ), Ricci reforçou que ambas as decisões fazem parte de um entendimento mais amplo entre bancadas, guiado pelas eleições de 2026. Segundo ele, os dois parlamentares foram usados como “moedas” para evitar rupturas em um acordo que prioriza a liberação de emendas, peça central para a reeleição dos deputados. “O impacto do dinheiro chegando na prefeitura compra os prefeitos e os empresários da base”, explicou.
Para ele, o PL da Dosimetria é como um “boi de piranha”: um item que pode ser parcialmente cedido para manter o acordo maior. Ele também citou a atuação de parlamentares como o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), “o deputado que mais judicializa”, para selar os entendimentos. “Se não judicializar, é porque o acordo está dado”, condicionou. O cientista político lembrou ainda que “o Congresso não é lugar de confronto; é lugar de blefes, de bravatas e acordo. Sempre acaba em acordo.”
No Senado, Ricci acredita que o cenário deve ser semelhante. Na avaliação dele, as lideranças já discutem um texto mais “enxuto”, retirando pontos que pegariam mal em ano eleitoral. “Acho que passa no Senado já com uma mudança mais palatável”, analisou, reforçando que a madrugada de votações “selou a imagem mais forte do ‘acordão’”.
Ao mesmo tempo, ele criticou a tentativa do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), de acelerar o trâmite atropelando comissões. “É um erro do Alcolumbre. Essa ideia de demonstrar força demais ao invés de agregar, desagrega”, observou. Para Ricci, sem mobilização popular nas ruas, fora das redes sociais, o jogo real segue nos lobbies e nas articulações internas do Congresso.
Leia a entrevista na íntegra:
A sessão que aprovou o PL da Dosimetria começou com muita violência, o deputado Glauber Braga sendo retirado à força e a imprensa censurada, também com bastante truculência da polícia legislativa. O que esse episódio revela sobre o momento que estamos vivendo?
Rudá Ricci: Para quem viveu, como eu, os intensos anos 1980, sabe-se que lá se construiu uma lógica política que o Brasil não via há muito tempo porque tínhamos acabado de sair de um regime militar, uma ditadura, que é a ideia de pressionar ao limite para negociar com alguma vantagem, principalmente quando o outro lado tem mais força do que você. É isso que eu estou vendo na Câmara.
Há, no bastidor, uma conversa de que está em curso a construção – e eu vou falar exatamente como eles dizem, talvez seja um exagero – de um sindicato da Câmara, dos deputados, que seria um “acordão”, sendo fechado para ter uma convivência amarrada na Câmara. Eu acho que existe em curso uma articulação.
Entendo que, para quem está de fora, dá a impressão de que nós estamos indo para o limite das relações internas e que tem um bloco que está atropelando o outro. Mas quem está dentro não sente exatamente isso. Claro que tem situações de força, não há dúvida, mas a história da Dosimetria, o orçamento e a exigência do pagamento das emendas, e as punições que não ocorreram de fato ontem [as cassações dos deputados Carlos Zambelli e Glauber Braga], que passaram pela madrugada, dá a entender que está em curso um grande “acordão” que coloca na mesma cesta todas essas pautas.
O parlamento não é lugar para grandes exacerbações, ataques permanentes. Pode ser de um ou outro deputado, principalmente novos, mas os parlamentares são muito calejados. Vemos deputado xingando os adversários, saindo da tribuna e abraçando o adversário. Não acho que há um rolo compressor que tomou a Câmara; o que eu acho é que a bancada do PL, a mais forte da Câmara, não tem o judiciário do lado deles, muito menos o governo, então pressionam e fazem exageros para negociar logo em seguida porque sem negociação não dá.
[O presidente da Câmara] Hugo Motta se aproxima muito dos bolsonaristas, mas ele é filhote do [ex-presidente da Câmera] Arthur Lira, o grande pai do Centrão. Temos que ter um pouco de cuidado com isso.
Ontem, evidentemente que houve negociação do governo, inclusive entrando com essa história de também não ter a punição máxima de cassação do mandato de Carla Zambelli, em troca da também não cassação do mandato de Glauber Braga. Ali tem um “acordão”. Há 47 anos, eu acompanho a política; tenho certeza que tem um “acordão” em curso.
A Câmara manteve o mandato de Carla Zambelli, mesmo depois da condenação definitiva do STF [Supremo Tribunal Federal]. Também decidiu pela não cassação de Glauber Braga. Como essas duas decisões ajudam a entender essa relação do Legislativo com o Judiciário?
RR: Toda vez que você faz um acordo, as duas partes cedem. O que está em discussão nesse momento é 2026. E o que está em 2026? Emenda parlamentar é o mais importante. Tem que liberar no primeiro semestre, segundo os cálculos do Centrão, 75% das emendas acordadas no orçamento porque vai fazer campanha no segundo semestre. O impacto do dinheiro chegando na prefeitura compra os prefeitos e os empresários da base, porque as emendas vão para eles também. E aí reelegem os deputados.
A história da Dosimetria entra mais como um “boi de piranha”. Ou seja, cedemos um pouquinho, mas não totalmente. Vamos ver o que acontece no Senado. Evidentemente que vai ter toda uma discussão se vai judicializar [o PL] ou não. Se não judicializar, é porque o acordo está dado.
Na Câmara, o deputado que mais judicializa, segundo o presidente Hugo Motta, é Lindbergh Farias, do PT. Então quer seguir se teve acordo ou não, segue Lindbergh. Ontem, ele estava excessivamente efusivo quando Glauber só foi suspenso. Parecia irmão dele. Significa que ele tinha colocado todo o prestígio e credibilidade dele junto ao governo e à Câmara para fechar um acordo, e fechou. Ele estava absolutamente aliviado.
O Congresso não é lugar de confronto; é lugar de blefes, de bravatas e acordo. Sempre acaba em acordo. O parlamento foi feito para isso: grupos heterogêneos que são pagos para ficar negociando. Esse é o papel. Claro que tem gente que acha que está lá para representar os bancários, os quilombolas. Mas, mesmo eles, para sobreviver, têm que fazer acordo. Senão vira uma Carla Zambelli, um Glauber Braga.
Glauber virou moeda para um “acordão”. Pelo que nós sabemos de Glauber, tenho certeza que ele não queria estar nesse papel. Mas não sobrou caminho porque o parlamento é lugar de negociação. Claro, aquele bloco que é mais forte, que tem mais deputados, vai impor um acordo melhor. Porém, é um acordo. Ninguém sobrevive massacrando o outro lado. Ainda mais se o outro lado tem o governo federal. Não tem saída.
Como caminhará o PL da Dosimetria no Senado? “Acordão” também?
RR: Acho que sim. A conjuntura pode mudar. Por exemplo, as manifestações pelas mulheres vivas não foram inclusivas, abertas, buscando a dona Maria que estava passando lá com os filhos. Ainda pode-se criar uma onda. Se começar a ter uma briga de rua, acaba interferindo no acordo. Mas eu não estou vendo isso nas próximas duas semanas. E aí entramos no Natal.
Esse momento é igual a quando compramos uma peça de carne e pedimos para cortar em bife. A primeira coisa que o açougueiro faz é ficar tirando as rebarbas, excesso de gorduras ou nervos da carne, para depois cortar o bife. É isso que já está se vendo no Senado. Já se está falando que é hora de tirar tudo que diz respeito a crimes comuns dessa mudança da Dosimetria. Eles vão enxugar para aquilo que é essencial.
Acho que a proposta de diminuição da pena de cadeia para o [ex-presidente Jair] Bolsonaro não passa exatamente do jeito que está, mas vai passar. Faz parte de um acordo, não tem nada a ver com acordo de convivência. ‘O Brasil pede paz’? Ninguém pede paz. Eu vou na padaria, e o que o pessoal pede é o dinheiro para pagar o pãozinho.
Ninguém fala ‘nós queremos paz’. Não existe isso na rua. É conversa mole dos bolsonaristas, que eles adoram. Mas eles têm força e vão negociar. Eu acho que passa no Senado já com uma mudança mais enxuta, mais palatável, para não pegar mal em ano de eleição, para quem é contra. Mas acho que tem um “acordão” em curso. Essa madrugada selou a imagem mais forte do “acordão”.
O próprio [presidente do Senado, Davi] Alcolumbre está querendo acelerar a discussão do PL da Dosimetria no Senado, querendo passar por cima de comissões e atropelar o processo legislativo. O que deve acontecer nas próximas semanas? O que esperar dessas discussões e dos impactos no Congresso?
RR: É um erro de Alcolumbre. Ele está se sentindo empoderado. Se a minha tese está correta, ele já percebeu que tem o “acordão” para ir para a comissão. Só que aí é demais, ele parece o poderoso chefão. Não precisa. A política, a negociação, tem um pouco de cuidado, uma moral própria. Então essa ideia de demonstrar força demais ao invés de agregar, desagrega.
Alcolumbre tem um peso nacional porque ele sempre foi habilidoso, vai para um lado, vai para o outro. Ele se elege com dezenas de cidades. Mas acho que ele exagera nos últimos tempos. Ele está tentando dar uma demonstração dupla. Primeira, ‘Hugo Motta está no meu bolso e eu estou tratando ele como meu irmão mais novo’. Não precisa. Segunda, ‘eu faço e desmando e o [presidente] Lula vai ter que pedir desculpa para mim de joelho’. Não precisa. Para quem precisa saber que ele tem poder, não precisa fazer isso. Já sabemos.
É um exagero típico desse período que estamos vivendo. A política está contaminada pelas redes sociais, que exageram. Para quem conhece o Congresso e o parlamentar, fazer petição, campanha online não muda a opinião de deputado. Isso é bobagem, perda de tempo. A negociação está nos lobbies. A política no parlamento está ligada aos lobbies do bem e do mal. É isso que define. Se combinar a rede social com TV e rua, aí sim [tem capacidade de interferir na política]. Mas só a rede social, dois, três cards, não muda mesmo.
Para ouvir e assistir
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