ARTIGO

A política e as comunidades e povos de tradição de matriz africana

É preciso ampliar o acesso político institucional das comunidades e povos tradicionais

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Makota Kinanjenu (Andréia Roseno) | Crédito: Reprodução/Redes sociais

Uma comunidade de tradição de matriz africana salvaguarda um mundo complexo, dinâmico e profundo nas suas entranhas, cuja principal função dentro de um contexto racista, misógino e de exploração de classe é a luta diária pela sobrevivência.

Há um cabo de força cujos paradigmas civilizatórios são antagônicos: de um lado uma cosmogonia, cuja tradição está centrada na relação indissociável entre humanidade e natureza; e de outro lado, o sistema capitalista que produz e se alimenta das mazelas sociais e  na sua atual fase de desenvolvimento tem passado por uma crise estrutural e diante da necessidade de se reinventar, tem levado às últimas consequências a exploração predatória do meio ambiente, gerando uma crise climática sem precedentes, a exacerbação do individualismo e o comprometimento da saúde mental das pessoas.

Desta forma, um terreiro é uma unidade territorial tradicional que contrapõe as vias mercadológicas dessas relações capitalistas. Isso não significa a ausência da reprodução de contradições oriundas da ideologia hegemônica. Mas o que fizemos em nossos territórios ao longo desses anos tem sido operacionalizar no contrafluxo, na fresta, na instabilidade estrutural desse modo de produção, o nosso próprio modo de ser, viver e conviver em sociedade.

Porque a vida não é linear e a realidade é material, histórica e dialética. No contratempo da dinâmica hegemônica, é gestado no cotidiano da vida das pessoas a luta de classes, a qual produz lacunas, omissões, confrontos, insurreições, revoltas, rebeldias e criatividades; ações que, indicam novos caminhos, táticas e estratégias que, ainda dentro da estrutura hegemônica, preconizam possibilidades do “jogo virar”.

Os inúmeros povos escravizados na diáspora não sucumbiram e vivem nesses terreiros. Os quais podem ser considerados consulados diplomáticos de uma cultura viva e histórica desse passado-presente, construindo diariamente inúmeras possibilidades de virada do jogo.

Um exemplo disso, no candomblé Kongo-Angola possui a narrativa da diáspora africana contada pela matriz de origem bantu, através das cantigas do Galo. Essa narrativa fundamenta uma transição subjetiva e objetiva de vários povos oriundos de uma parte do continente africano, que sistematizaram este percurso da diáspora através de rezas e cantigas, com a finalidade de que o caminho, a trajetória e o oceano atravessado pelos nossos ancestrais fossem rememorados e vivenciados ao longo da história dos sobreviventes.

Esse acontecimento perdura salvaguardado no grande tesouro do tempo, cuja guardiã é a oralidade.

A oralidade é uma senhora velha que dança entre os tempos vividos, tem presságios e anuncia futuros. O pacto de sobrevivência dos povos africanos em solo brasileiro não foi documentado em tratados escritos no Ocidente, porém segue vivo e atualizado a partir de livros humanos que carecem de ser lidos com afinco. A potência desse pacto tem incidência no exercício da atuação política realizada por nós. A política não é uma construção social e histórica do Ocidente; a política é a vivência do ser humano na concepção mais profunda de sociabilidade.

Construindo a política

Os negros e negras estão construindo a política, as próprias instâncias e narrativas, ininterruptamente. Essa ação política nos mantém vivas e vivos e conectados. Somos trabalhadoras e trabalhadores formais e informais, mulheres, homens, crianças, jovens, adultos, anciãos, LGBTQIAPN +, de matriz africana, quilombolas, periféricos, diversos.

Sendo assim, a promoção e o fomento a políticas públicas afirmativas e de reparação que contemplem o povo de terreiro são importantes para que essas comunidades ampliem as ações que já realizam via iniciativas próprias; com recursos públicos podem ampliar projetos, e aumentar sua capacidade de disputa da sociedade e do Estado. No entanto, sem a ilusão que isso seja definidor em relação às desigualdades raciais e sociais que estão nos territórios tradicionais.

Veja, a partir da nossa jindanji em 2025 conduzimos espaços importantes de elaboração, exercício, formação e emancipação política. Por meio da produção de podcast, documentário, seminários, oficinas, saraus, aulões e intercâmbios com as casas de matrizes tradicionais, encontros intergeracionais, elaboramos projetos de captação de recursos para acomunidade e para outras co-irmãs.

Articulamos com os movimentos sociais e populares, tivemos na organização estadual da II Marcha Nacional das Mulheres Negras que levou mais 300 mil mulheres a Brasília/DF. Sem contar na execução do calendário das festas da tradição da nzo (com a felicidade de celebrar 40 anos de Tatetu Nkongobila), que movimenta as pessoas de dentro e de fora do território. O que incentiva a chegada de pessoas, sobretudo negras e jovens que querem viver a sua ancestralidade neste matriarcado.

Ampliar o acesso político institucional das comunidades e povos tradicionais de matriz africana sem que isso se converta no uso descomprometido, folclorizado e alegórico dos nossos elementos e ritos é um desafio para um projeto democrático.     

Em 2026, ano importante para o cenário político brasileiro e mineiro em razão das eleições majoritárias, temos a urgência de derrotar este Congresso Nacional de Hugo Motta e sua corja. O projeto neofacista, teocrático e conservador da ultradireita continua a ameaçar a democracia e a soberania nacional, sobretudo, a partir do Congresso Nacional. E, em Minas Gerais, por meio da continuidade do governo de Romeu Zema através da candidatura de Mateus Simões.

Isso exige de nós a responsabilidade de contribuir com a mudança deste cenário pautando candidaturas cujo comprometimento com as nossas pautas ocorram na práxis e não somente na apropriação do discurso do letramento racial.

A representação de negras e negros, indígenas, mulheres cis e trans é fundamental na ocupação dos espaços legislativos, sendo que o nosso papel enquanto comunidades e povos tradicionais de matriz africana consiste em atentar-se às propostas que estão no tabuleiro político.  

 Matamba, que venha o Ano Novo!

Makota Kinanjenu (Andréia Roseno) integra a Articulação de Mulheres Negras de Minas Gerais (Nzo Jindanji Kuna Nkos’i).

Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente corresponde a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Elis Almeida

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