AUDIOVISUAL

Quatro anos de Sulflix: reconhecimento, diversidade e memória na tela

Documentário '5 casas' estreia na plataforma que é o único streaming dedicado a produções do RS

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Anahy de las misiones
Catálogo da plataforma Sulflix tem clássicos como “Anahy de las misiones” (1997) | Crédito: Sulflix Divulgação

Nesta quarta-feira (17), a Sulflix, único streaming inteiramente dedicado a produções audiovisuais do Rio Grande do Sul, comemora quatro anos de existência. A plataforma foi colocada em prática por meio do programa Pró-Cultura RS – Edital FAC Movimento, da Secretaria de Estado da Cultura (SEDAC/RS), tendo como proposta a valorização do cinema e das artes gaúchas, reunindo uma ampla diversidade de produções audiovisuais como longas, curtas, séries, clipes, programas e cursos exclusivos que celebram a cultura local.

Em meio a esse aniversário, a Sulflix também está celebrando um marco: mais de mil conteúdos já disponibilizados ao público. As obras em exibição são resultado de um trabalho sistemático da Sulflix para a construção de um catálogo vivo e em constante atualização.

De títulos clássicos como Anahy de las Misiones, O Dia Em Que Dorival Encarou a Guarda, Ilha das Flores e O Cárcere e a Rua até títulos representativos da safra gaúcha contemporânea, entre eles, Castanha, Mulher do Pai, Dromedário no Asfalto e Prova de Coragem, a Sulflix oferece ainda conteúdos especiais voltados ao público infantil, obras com acessibilidade (audiodescrição, legenda descritiva e Libras) e filmes universitários.

O único streaming somente com produções do estado traz títulos como “Mulher do Pai” (2017) – Sulflix Divulgação

Além disso, o serviço se apresenta como uma alternativa real para os desafios atuais dos circuitos de exibição. “Nosso compromisso é com o acesso à produção regional, oferecendo uma janela democrática tanto para obras que encontram espaço nos circuitos tradicionais quanto para aquelas que, muitas vezes, acabam limitadas em seu alcance junto ao público”, comenta Daniela Menegotto, idealizadora da Sulflix.

A consolidação da Sulflix ocorre em um contexto de crescimento expressivo da produção audiovisual gaúcha. Segundo a SEDAC/RS, hoje os gaúchos ficam apenas atrás dos paulistas e dos cariocas quando o assunto é volume de produções de longas-metragens, estatística que sublinha a relevância de um streaming como a Sulflix. “Sejam obras populares ou independentes, precisamos ter um espaço onde elas possam existir e continuar circulando depois de suas passagens pelas salas de cinema, por exemplo. Estando fora do eixo Rio-São Paulo, precisamos também pensar na preservação da nossa memória cultural”, complementa DaniELA.

Sulflix Divulgação

Considerando as adições mais recentes ao catálogo, destaque para o documentário “Luis Fernando Verissimo – O Filme” (imagem acima), de Luzimar Stricher, exibido na Mostra Gaúcha de Longas do 51º Festival de Cinema de Gramado, em 2023.

Primeiro conteúdo original Sulflix

Falando em expansão do catálogo, a Sulflix agora também disponibiliza sua primeira produção original: a série “Territórios Criativos”, que reúne 20 talentos gaúchos de diferentes áreas da indústria criativa, das artes e da cultura. O objetivo é inspirar profissionais, estudantes e toda e qualquer pessoa que queira iniciar um novo hobby ou até mesmo uma nova atividade profissional, mas não sabe por onde começar. São 20 episódios e cada um apresenta um talento referência em sua área de atuação que compartilha trajetória, métodos e vivências, com linguagem prática e acessível.

Com apoio institucional do programa RS Criativo e financiamento do Pró-Cultura RS, os curta-cursos passam por temas como produção cultural, gestão de negócios, escrita criativa, moda, música, gastronomia e games, sendo organizados em cinco trilhas de aprendizado. Nomes da cena gaúcha como Hique Gomez, Shana Müller, Guilherme Balle e Marcelo Bolinha integram o time reunido para o projeto.

Como acessar a plataforma

‘Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll” (2006), de Otto Guerra, também é uma opção do catálogo – Sulflix Divulgação

Para encontrar a Sulflix, é só baixar o aplicativo disponível em Android e iOS, ou acessar via computador, celulares ou tablets conectados à internet em todo o mundo. O valor de assinatura mensal é de R$ 9,90, e o plano pode ser cancelado a qualquer momento, sem multa ou taxas.

Também é possível acessar os conteúdos sem optar pela assinatura, por meio dos filmes que podem ser alugados de forma avulsa ou da Degustação Sulflix, catálogo rotativo que semanalmente apresenta conteúdos abertos ao público em geral.

No mês de dezembro, comemorando seu aniversário e as festas de final de ano, a Sulflix ainda oferece a opção de acesso por 30 dias grátis: basta informar nome, e-mail e telefone, criar uma senha e pronto!

A estreia de “5 Casas” no streaming

Crédito: Lança Filmes Divulgação

E, nesta quinta-feira (18), entra no catálogo da Sulflix um dos filmes mais lindos do país nos últimos anos: 5 Casas (2022). O documentário autobiográfico do diretor e artista visual gaúcho Bruno Gularte Barreto faz uma viagem ao seu passado no interior do Rio Grande do Sul. O caminho trilhado pelo realizador encontra as histórias de vida dos habitantes das cinco casas do título, com a sua própria como fio condutor.

Em uma cidadezinha interiorana do estado, há cinco casas e cinco histórias que se confundem em uma mesma. Uma velha professora lutando para manter sua casa de pé, um jovem que sofre agressões por se recusar a esconder sua natureza, uma freira sendo transferida da escola que regeu com punho de ferro por décadas, um velho capataz em uma fazenda mal assombrada e um menino cujos pais morreram 20 anos atrás e que é hoje o diretor que volta para buscar as memórias de sua infância perdida e dar voz a essas pessoas. Histórias distintas, mas que juntas pintam um retrato pungente de um Brasil marcado por apagamentos e desigualdade.

Crédito: Lança Filmes Divulgação

Bruno perdeu a mãe aos oito anos, vítima do câncer que assola a região onde nasceu, causado pelo uso desenfreado de agrotóxicos nas plantações próximas. Cinco anos depois, a mesma doença levou seu pai. Logo após, ele e seus irmãos deixaram a cidade.

Sem olhar para trás, Bruno deixou guardadas caixas de papelão com lembranças familiares em um galpão situado na fazenda do avô. Vinte anos depois, uma tempestade que arrancou parte do telhado do local o fez voltar à sua cidade natal. O documentário registra a redescoberta deste material. E o filme vai além da memória afetiva evocada por objetos, livros e fotos de família. A narrativa vai também ao encontro de pessoas que marcaram a infância do cineasta e de suas atuais realidades, trazendo à tona questões urgentes e emblemáticas do Brasil contemporâneo, como o etarismo, a especulação imobiliária, a homofobia e o conservadorismo.

O diretor interage com quatro personagens distintos, começando por uma velha professora de francês que toca um piano desafinado em uma pequena casa cercada de árvores. Ela luta para manter sua casa contra as construtoras que querem demoli-la para a construção de um prédio. Um homem vive há mais de 40 anos em uma fazenda isolada, que dizem ser mal assombrada. Um grupo de freiras conduz rigidamente uma escola, em especial uma delas, cuja transferência para outra localidade causa revolta na cidade. E um jovem gay sofre bullying e agressões por não conseguir esconder sua natureza, revidando e afirmando sua existência.

Crédito: Lança Filmes Divulgação

5 Casas teve sua première mundial no maior festival de documentários do mundo, o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA). O longa passou por vários festivais como o Biografilm (Itália), o Queer Lisboa (Portugal), o Cinélatino (França) e o Festival de Viña del Mar (Chile), onde recebeu o prêmio de melhor longa documental.

No Cine Ceará, levou o grande prêmio de melhor filme, além de roteiro e som. Também foi premiado no Panorama Coisa de Cinema e no Atlantidoc (Uruguai). O filme ainda venceu a mostra de longas gaúchos do 50° Festival de Cinema de Gramado, o Festival da Fronteira e a categoria de melhor fotografia do Prêmio APCA, além de ser sido finalista do ano do Prêmio ABC de Fotografia em 2023.

As telas no Museu e do Museu para as telas

Em 5 Casas, fragmentos de memórias, as fotografias, compõem estrategicamente montagens entre ruínas de um patrimônio que era edificado, firme, e hoje sobrevive somente desses vestígios e dos registros em imagens.

O trabalho de Bruno Gularte Barreto é bonito e delicado, respeitando os meandros da história e das memórias dele próprio e das personagens. Esta grande obra, que teve também enorme vulto no cenário audiovisual, ainda deu origem a um livro e uma mostra de arte. 

Sob o mesmo título, a investigação imagética e das palavras do autor foi exposta nas salas do segundo andar do Margs, em 2021.

Crédito: Lança Filmes Divulgação
Editado por: Vivian Virissimo

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