A partilha de alimentos, a música popular e o gesto coletivo de solidariedade marcaram a Celebração do Natal Solidário da Esperança, realizada nesta sexta-feira (19), em Rio Bonito do Iguaçu, na região Centro-Sul do Paraná. Organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o encontro reuniu famílias da cidade, militantes e apoiadores para a entrega de cerca de 2 mil cestas de alimentos da Reforma Agrária a pessoas atingidas pelo tornado que destruiu parte do município no início de novembro.
As cestas, compostas por frutas, legumes, hortaliças e tubérculos, foram doadas por famílias assentadas e acampadas de diversas regiões do estado. Para o MST, o gesto simboliza mais do que ajuda emergencial: expressa um projeto de sociedade baseado na solidariedade, na agroecologia e na defesa da vida.
“Vamos fazer essa celebração com aquilo que a gente tem de melhor: os alimentos produzidos e preparados pelas comunidades da Reforma Agrária de todo o estado”, afirmou Thaile Lopes, integrante da direção estadual do MST e moradora do assentamento “8 de junho”, em Laranjeiras do Sul.
A celebração contou com apresentações do músico Zé Pinto, de Minas Gerais, e do grupo As Cantadeiras, além de um ato ecumênico e uma ceia coletiva com frutas e panetones produzidos na cozinha solidária da Brigada.
Solidariedade como resposta à crise climática
O Natal Solidário marcou o encerramento de mais de 40 dias da Brigada de Solidariedade organizada pelo MST após os tornados que atingiram Rio Bonito do Iguaçu e Guarapuava, ambos municípios paranaenses. Classificados como F4 na escala Fujita, os fenômenos deixaram sete mortos, mais de 800 feridos, cerca de mil pessoas desalojadas e provocaram destruição em milhares de casas, além de danos a estruturas públicas e áreas produtivas.
Ao longo desse período, mais de mil militantes do MST, vindos de acampamentos e assentamentos do Paraná e do Rio Grande do Sul, se revezaram em ações de apoio. Foram distribuídas cerca de 50 mil marmitas por meio de duas cozinhas solidárias e mais de 100 casas foram reformadas, cobertas ou reconstruídas.
Para Angela Paixão, coordenadora da Cozinha Solidária, a resposta coletiva também é um chamado à reflexão sobre o modelo de desenvolvimento vigente. “Nossa resposta a este tornado não é só um ato de solidariedade, é um ato de luta e de resistência. Ele nos chama a debater um problema ambiental muito sério. A forma como a gente se relaciona com a natureza está produzindo essas tragédias”, afirmou.
Segundo ela, a produção de alimentos saudáveis é parte da resposta. “Essa comida que a gente partilha é fruto da luta pela terra. É um abraço que chega junto com o alimento.”
Cuidado, escuta e reconstrução
“A gente percebeu o quanto ouvir as pessoas era fundamental. No primeiro momento, havia muito medo e desânimo. Agora, muitas famílias começam a reencontrar sentido e força na coletividade”, relatou Maria Izabel Grein, da direção do coletivo de saúde do MST. “Em momentos de tragédia, é a organização coletiva que ajuda a transformar vidas.”

Para o dirigente nacional do MST, Roberto Baggio, a experiência em Rio Bonito do Iguaçu deixa um legado. “Foi um dos mutirões mais significativos que já vivemos no Paraná. Um grande mutirão humano para salvar vidas, diminuir a dor e reconstruir a cidade”, avaliou. “Esse Natal simboliza a esperança construída passo a passo, com muitas mãos.”
‘Se não fosse o MST, a cidade não estaria como está’
Entre as famílias beneficiadas, o sentimento predominante foi de gratidão. Moradora de Rio Bonito do Iguaçu, Vera Lucia Moreti teve a casa destruída pelo tornado e contou com o apoio da Brigada para reconstruir o telhado.
“Quando cheguei e vi tudo desabado, achei que tinha gente morta ali. A gente pensou até em ir embora da cidade”, lembrou. “Se não fosse o pessoal do MST e tantos voluntários, a cidade não estaria como está agora. Eles caíram do céu pra nós.”
Vera também destacou a importância da solidariedade no processo de superação. “Sem essa ajuda, muita gente teria desistido. Foi coisa de Deus mesmo, colocar essas pessoas no nosso caminho.”
Durante o ato ecumênico, o padre Cristian dos Santos Jardim, pároco da Paróquia Santo Antônio de Pádua, agradeceu o apoio do Movimento. “O MST trouxe esperança, fé e coragem para esse momento de reconstrução. Transformou um lugar destruído em um espaço de acolhimento e carinho.”
Natal da partilha
Para o MST, o Natal celebrado em Rio Bonito do Iguaçu reafirma o sentido da partilha como prática cotidiana. “O verdadeiro Natal é esse, da solidariedade, da empatia, da comunhão”, afirmou Maria Izabel Grein. “Um Natal que se constrói todos os dias, na organização coletiva.”
Ao final da celebração, as famílias receberam as cestas de alimentos da Reforma Agrária, enquanto a música e a ceia coletiva encerraram a noite. “A família do MST hoje é a família de Rio Bonito do Iguaçu”, disse Thaile Lopes. “Seguimos juntos, partilhando o que temos de melhor: alimento, cuidado e esperança.”
