Ciranda é um longa-metragem que narra o surgimento de um dos pilares do Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST): a Ciranda. Um espaço de educação infantil criado para atender às crianças sem terrinhas, permitindo que pais e mães possam continuar sua luta pela Reforma Agrária e seus direitos enquanto cuidam e educam seus filhos.
Essa é a premissa do filme que acompanha Diana e Matias, líderes do movimento que, juntamente com sua filha, Dora, uma pequena revolucionária, se envolvem no desenvolvimento desse projeto que tem o poder de transformar a realidade das comunidades rurais. O filme, que está em produção, conta com roteiro de Maria Vitória, produção executiva de Maíra Bosi e Roger Pires, e direção de Gustavo Portela.
“A Ciranda não é apenas um local de aprendizado, mas um espaço de resistência no qual as crianças crescem imersas nos valores da solidariedade e do coletivo, enquanto os adultos encontram uma forma de conciliar a luta pela terra com a educação de seus filhos”, aponta Maria Vitória.
A escrita desse roteiro, de acordo com Vitória, é motivada por afetos. “Sempre tive uma ligação, uma admiração pelo Movimento Sem Terra. Desde criança acompanhando meus pais quando eles davam aula de teatro nos assentamentos, acompanhando coisas que na época eu não conseguia entender, mas que de alguma forma me tocava já”.
Para a roteirista, o roteiro vem desse lugar afetuoso e de certeza de estar diante de um movimento como o MST que, “quanto mais a gente se aproxima dele, mais a gente percebe a força e a fortaleza desse movimento”.
O mundo mágico das crianças
O filme se trada de um drama. Sua história é uma ficção baseada em histórias reais e o diretor Gustavo Portela explica que esse é um filme que vai buscar na magia da criança, do mundo fantástico e mágico da imaginação das crianças, contar um pouco de como se criou a Ciranda infantil do MST, que é um processo educacional, que visa o cuidado das crianças do movimento.
Além de atores reais, o filme também conta com participações de encenações com teatro de bonecos, isso, como informa o diretor, é para ir misturando o real com o realismo fantástico no universo infantil. “No longa a gente vai brincando muito com o realismo fantástico, com a realidade distorcida e mágica para ter essa dramaturgia ficcional baseado numa história real, sendo envolta por essa magia da infância, do olhar da criança”.

O longa
Portela explica que a ideia de fazer um filme que falasse do MST surgiu nas eleições de 2022 quando ele e seu sócio ficaram incomodados com a campanha difamatória que a oposição do Roberto Cláudio estava fazendo ao atual governador do estado Elmano de Freitas, utilizando o MST, distorcendo a luta pela Reforma Agrária do movimento para tentar enganar mais uma vez a classe média.
“A gente pensou: ‘vamos fazer um filme que tente contar um pouco da história do MST no Ceará de uma forma que tente alcançar as pessoas, que não seja mais um documentário. Vamos tentar usar uma linguagem que possa ser difundida, que possa ter alcance, mais alcance do que um documentário’, e aí a gente resolveu fazer um filme”. Naquele momento, segundo Portela, eles ainda não sabiam sobre o que seria o filme, sobre qual parte do MST seria contata, mas foi naquele momento que a decisão de fazer um filme foi tomada.
Desafios da produção
O longa foi inteiramente filmado na cidade de Quixeramobim (CE), sobretudo na zona rural, o que de acordo com Maíra Bosi, produtora do longa, impõe um desafio logístico significativo para uma produção independente. “Por ser um filme de baixo orçamento, desafios inerentes a qualquer longa-metragem se tornam ainda mais complexos, mas conseguimos superá-los com um espírito profundamente colaborativo entre os departamentos, muita criatividade e o apoio essencial de fornecedores, parceiros locais e da comunidade. É a força do coletivo, que está no DNA do próprio MST, que está fazendo o Ciranda sair do papel e se transformar no filme que irá para as telas”, diz Bosi.
Questionada sobre o que destacaria da produção do filme, Bosi aponta como um dos pontos a dedicação da equipe e do elenco. De acordo com ela, são pessoas extremamente talentosas e que entraram de corpo e alma no filme, movidos pelo propósito de contar essa história com verdade e sensibilidade. “É muito gratificante trabalhar com profissionais que buscam constantemente soluções criativas para os desafios que surgem no caminho e que estão, verdadeiramente, motivados a fazer um cinema com respeito às relações humanas, ao espaço onde estamos filmando e ao universo que retratamos”.
Bosi também destaca que o set de Ciranda foi marcado por um ambiente de colaboração, respeito e afeto, valores que, de acordo com ela, dialogam diretamente com o espírito da Ciranda infantil e com a prática cotidiana do MST. “É uma responsabilidade muito grande contar uma história sobre o maior movimento social da América Latina e isso só está sendo possível devido ao respeito e compromisso de toda a nossa equipe e ao apoio do próprio MST”.
Apoio e investimento
Ciranda foi contemplado no Edital de Apoio ao Audiovisual Cearense, com recursos provenientes da Lei Paulo Gustavo. Bosi explica que este é um filme de baixo orçamento e, até o momento, inteiramente financiado por essa fonte. “O cinema independente brasileiro é, fundamentalmente, viabilizado por políticas públicas de financiamento, seja por meio de editais diretos ou por leis de incentivo fiscal”.
Esses mecanismos, como ela explica, são essenciais para que produções diversas, regionais e socialmente relevantes, como Ciranda, possam existir. “Fortalecer e ampliar essas políticas é essencial para a manutenção e o crescimento do audiovisual no Brasil”.
Bosi também destaca apoios locais que foram muito importantes para o filme, como da Casa de Antônio Conselheiro, da Brigada Antônio Conselheiro e da Prefeitura de Quixeramobim, além do próprio Assentamento Recreio, onde a maior parte das filmagens aconteceram.

Lançamento e rodagem
O filme ainda não tem data de estreia, mas Portela afirma que todo o material está ficando pronto para rodar em todos os meios de circulação. “A gente tá deixando um material pronto para rodar em qualquer streaming, em qualquer cinema, em qualquer festival. “Temos alguns canais e algumas distribuidoras que se interessaram, mas precisam ver um primeiro corte”.
“Existe uma dificuldade natural por ser um filme que realmente usa a bandeira do MST, a gente não camufla essa narrativa. É um filme que fala do MST e usa o símbolo do MST e a pesquisa foi muito importante para que a gente realmente usasse os símbolos com o aval do movimento, então a gente vai encontrar alguma dificuldade sim de circulação, de canais, de festivais, talvez de apoios financeiros, como a gente tem tido na produção também, mas a nossa perspectiva é das melhores, a gente está se preparando para ter um material pronto e apto para estar em qualquer lugar”, afirma Portela.
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