AVALIAÇÃO

Um 2025 para não esquecer e um 2026 para não recuar

Violência política de gênero, isolamento no plenário e o aprendizado de um mandato exercido sem concessões

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Sou Bia Alcantara, tenho 23 anos. Encerrei 2025 no meu primeiro ano como única mulher vereadora na Câmara Municipal de Cascavel. Um ciclo que termina com a convicção de que não existe espaço para recuar.

Desde o início do mandato, ficou claro que a disputa política não se daria apenas no campo das ideias. No Legislativo, como em outras esferas de poder, a violência política de gênero é prática recorrente.

Vivi isso quando tive o microfone cortado durante uma audiência pública sobre a Copel, após criticar a privatização e a precarização do serviço. Eu tratava de impactos concretos, prejuízos a produtores, falhas no atendimento e perda de qualidade de vida.

Ao pedir que o debate retornasse ao tema da audiência, fui silenciada. A repercussão desse episódio definiu o aprendizado central deste meu ano de estreia na vida pública. Ao sair da sessão, recebi muitas manifestações de apoio.

Ficou evidente que o isolamento no plenário não equivale ao isolamento político. Posso ser voto vencido na Casa de Leis, mas passei a ter certeza que jamais estarei sozinha.

Foi a partir dessa compreensão que apresentei o projeto Mulher Protegida – Informação e Acolhimento. A proposta era objetiva: mapear a rede de proteção às mulheres e garantir acesso à informação.

Ainda assim, vereadores decidiram adiar a votação por 13 sessões. Não por falhas técnicas, mas por decisão política. O debate deixou de ser sobre o conteúdo e passou a ser sobre quem teria legitimidade para legislar.

Essa tentativa de desautorização toca diretamente a minha história. Estou em Cascavel porque minha mãe precisou fugir de um agressor. A violência contra a mulher nunca foi, para mim, um tema abstrato. É experiência concreta.

E não será homem algum que definirá se tenho ou não autoridade para legislar sobre políticas que dizem respeito à vida das mulheres.

Esses episódios evidenciaram uma distorção que precisa ser enfrentada: a transformação da política em espetáculo. O ataque pessoal substitui o debate, e o trabalho legislativo perde centralidade.

Ainda assim, aprendi também com a prática que há limites. A reação de mulheres de diferentes posições políticas em defesa do respeito à proposta feita pelo nosso mandato mostrou que banalizar a violência não passa despercebido fora das bolhas extremistas de nossa cidade.

Este primeiro ano foi, sobretudo, um aprendizado prático. Aprendi os limites de um mandato minoritário e a importância de sustentar posições com método, não com encenação. Representar não é falar por, é falar com.

E, nesse sentido, uma das coisas que mais tem me encantado nesse primeiro ano é a quantidade de meninas jovens que me param nas ruas para dizer que as inspiro. Acho muito poderosa a possibilidade de inspirar meninas que estão buscando seu espaço, sua autonomia, e que enxergam em mim uma possibilidade de caminho. Talvez, isso já valha todos os desafios que passei para estar onde estou hoje.

Finalizei 2025 reconhecendo o desgaste, sem romantizá-lo. Agradeço a quem esteve junto e ao Brasil de Fato PR por abrir espaço para compartilhar uma experiência que não é apenas individual, mas coletiva.

Que 2026 traga novos desafios. Seguimos com fé, resistência e sem recuar, jamais.

*Bia Alcantara, 23, é vereadora de primeiro mandato em Cascavel (PR) pelo Partido dos Trabalhadores. Estudante de Ciências Sociais, atua na defesa dos direitos das mulheres, da juventude, dos trabalhadores e das políticas públicas com foco em justiça social. É a única mulher eleita para a atual legislatura da Câmara Municipal.

**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Lucas Botelho

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