Um abaixo-assinado pede o fim do intervencionismo dos Estados Unidos na América Latina. O documento, assinado por cerca de mil pessoas, incluindo personalidades políticas e acadêmicas, surgiu em resposta à invasão de Donald Trump na Venezuela e ao sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, na madrugada do último sábado (3).
Entre os signatários do documento, estão os economistas Ladislau Dowbor e Luiz Gonzaga Belluzzo e uma das fundadoras do Psol, Luciana Genro. Para assinar a carta, clique aqui.
A carta aberta argumenta que a conjuntura atual no continente americano é marcada por uma intensificação de tendências regressivas, atribuídas principalmente à atuação recente do governo de Washington, embora esse processo tenha raízes históricas anteriores. O documento afirma que a política externa norte-americana retoma padrões intervencionistas antigos e sustenta que ações econômicas, diplomáticas e militares vêm sendo reeditadas de forma ampliada.
“As intervenções dos Estados Unidos na região americana vêm de longa data, incluindo operações desestabilizadoras, bloqueios e até ações militares abertas. Hoje em dia, isso se replica de forma potencializada. Assistimos atônitos a uma crescente belicosidade por parte do governo da potência dominante sobre as sociedades de toda a América, incluindo agora a estadunidense”, diz um trecho do documento.
Os autores avaliam que a retórica de segurança utilizada por Washington se apoia em justificativas consideradas “falsas”, como a suposta ameaça representada pela presença chinesa, pela imigração irregular e pelo narcotráfico. Segundo o texto, a atuação da China nas Américas estaria restrita a esferas comerciais, científicas e tecnológicas, sem constituir risco militar.
Os signatários afirmam que “isso contrasta, por certo, com as 80 instalações de uso militar de algum tipo que os Estados Unidos possuem na América Latina. Simplesmente não há qualquer ameaça militar aos Estados Unidos vinda do restante do continente americano. Qualquer afirmação em contrário falta com a verdade. Todos os fatos de natureza militar ou terrorista que envolveram os Estados Unidos vinculam-se a outras regiões do mundo”.
No caso do narcotráfico, os signatários defendem que o tema deveria ser tratado como questão de saúde pública e apontam o que classificam como “hipocrisia” do governo norte-americano, ao não adotar políticas eficazes de redução do consumo interno e ao tolerar práticas de lavagem de dinheiro no próprio sistema financeiro.
Soma-se a esta contradição o indulto concedido por Donald Trump a Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras, condenado pela justiça estadunidense em 2024 a 45 anos de prisão, precisamente por narcotráfico.
Ao tratar das perspectivas futuras, a carta alerta para um cenário descrito como “sombrio”, no qual poderiam se consolidar governos com “propensões autoritárias”, baseados em discursos de ódio e em políticas de segurança que fragilizam os direitos civis.
Por fim, os signatários fazem um apelo conjunto aos povos das Américas, incluindo o dos Estados Unidos, para resistir ao que chamam de processo regressivo. O documento defende a retomada de princípios soberanistas históricos como base para a convivência pacífica entre os países e sustenta que liberdade e prosperidade só seriam possíveis por meio de relações internacionais não autoritárias nem militarizadas.
“Como cidadãos preocupados e angustiados por esta perspectiva, realizamos um chamado a todas as Américas para enfrentar este processo regressivo, que só trará fatos lúgubres e não garantirá a prosperidade econômica; este chamado inclui o povo estadunidense”, concluem.
