Reação

Capacidade militar dos EUA para atacar Venezuela e sequestrar Maduro surpreendeu diplomacia brasileira

Segundo fontes ouvidas pelo BdF, cenário de sequestro não era previsto pelo Itamaraty

VENEZUELA-US-CONFLICT-CRISIS
A capital Caracas foi uma das regiões mais atingidas pelo bombardeio dos Estados Unidos; na foto, o forte Tiuna, ao fundo, em chamas | Crédito: AFP

A capacidade dos EUA de conseguir atacar a Venezuela e sequestrar o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, no dia 3 de janeiro, surpreendeu o Itamaraty, que não previa a possibilidade de um rapto do mandatário.

A informação é de diplomatas brasileiros ouvidos pelo Brasil de Fato. O Itamaraty trabalhava com três possíveis cenários para um desfecho entre Caracas e Washington: um acordo entre os governos Trump e Maduro, um ataque massivo ou, por fim, uma onda de ataques pontuais contra o território venezuelano.

“Nunca trabalhamos com esse cenário de sequestro”, disse uma das fontes. De acordo com os diplomatas, a ousadia da operação e a forma como ela transcorreu — ainda que com alguma resistência — foi o elemento de maior surpresa.

Por volta das 2h da madrugada de Caracas (3h de Brasília) do último sábado (3), aeronaves estadunidenses invadiram o espaço aéreo venezuelano, atacaram pontos da capital, do litoral e dos estados Miranda e Aragua.

Entre os alvos estava o Forte Tiúna, base militar de onde sequestraram Maduro e Cilia Flores. Segundo autoridade venezuelanas, ao menos 80 pessoas morreram na operação, incluindo 32 soldados cubanos que integravam a guarda pessoal de Maduro.

As fontes da diplomacia ouvidas pelo BdF ainda desestimularam a ideia de uma traição da alta cúpula do governo a Maduro e disseram ter conhecimento de contatos de membros da administração do chavista com negociadores dos EUA, mas que seriam negociações que já ocorriam em outros âmbitos, como diálogos com Richard Grenell, enviado especial de Trump para tratar da questão venezuelana.

Além disso, há o entendimento de que o governo chavista está coeso e de que o risco é regional, ou seja, de que as ações dos EUA podem ser reproduzidas em outros países da América Latina.

Em 2026, cinco países devem realizar eleições presidenciais na América Latina: Colômbia, Peru, Haiti, Costa Rica e o Brasil.

Trump vem travando embates públicos com o presidente colombiano, Gustavo Petro, que apesar de não ser candidato a reeleição aposta em Iván Cepeda para representar a coalizão Pacto Histórico nas urnas e manter a esquerda no poder.

Bombas por petróleo

Na tarde desta quarta-feira (7), o secretário dos EUA, Marco Rubio, apresentou pela primeira vez o que seriam “fases” de um plano de Washington para a Venezuela.

“O primeiro passo seria a estabilização”, disse Rubio, sugerindo que nesse momento estaria contemplado o suposto acordo anunciado por Trump na noite desta terça-feira (6) para obter até 50 milhões de barris de petróleo venezuelano.

Também nesta quarta-feira, a estatal venezuelana PDVSA emitiu um comunicado em que diz estar negociando uma venda de petróleo para os EUA “nos marcos das relações comerciais que existem entre ambos os países”.

Não fica claro se o anúncio de Trump tem relação com essa venda anunciada pela estatal venezuelana. Até o momento, sanções impostas pelo Departamento do Tesouro estadunidense restringiam amplamente a venda de petróleo venezuelano para compradores dos EUA e praticamente impediam a operação de companhias do país em território venezuelano.

À imprensa, Rubio chegou a citar que em uma “segunda fase”, empresas petroleiras estadunidenses poderiam voltar a operar na Venezuela. Logo em seguida, sem oferecer detalhes, o secretário falou em uma “terceira fase” que consistiria em “uma transição”.

Em todos os casos, tanto Trump quanto Rubio afirmaram que os lucros desse suposto acordo petroleiro seriam controlados pelos EUA.

A operação e o interesse no petróleo levantou suspeita de congressistas do Partido Democrata que anunciaram nesta quarta-feira que pediram explicações a cinco gigantes do ramo petroleiro em carta endereçadas ao chefes executivos.

Os senadores Sheldon Whitehouse, Ron Wyden, Elizabeth Warren, Peter Welch e Brian Schatz pediram explicações às empresas Exxon Mobil, Chevron, Shell, Conoco Phillips, BP America Inc., Citgo Petroleum Corp., Continental Resources, Halliburton, SLB, Weatherford International e Baker Hughes.

“É pior do que você pensa. Executivos das empresas de petróleo parecem saber mais do plano secreto de Trump para a Venezuela do que o povo americano. Precisamos de audiências públicas no Senado agora mesmo”, escreveu a senadora Warren em suas redes sociais.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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