IMPACTOS

Especialista desmonta tese de que Tarifa Zero aos domingos explica aumento da passagem em BH

Valor passou de R$ 5,75 para R$ 6,25 na capital; no sistema metropolitano, as passagens variam entre R$ 8,95 e R$ 32,90

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O aumento supera em mais do que o dobro a inflação acumulada de 2025, de 3,81%
O aumento supera em mais do que o dobro a inflação acumulada de 2025, de 3,81% | Crédito: Vander Bras/PBH

O ano de 2026 começou com o reajuste das tarifas do transporte coletivo em Belo Horizonte. Nas linhas convencionais, o valor passou de R$ 5,75 para R$ 6,25, uma alta de 8,6%. Já no sistema metropolitano, as passagens variam agora entre R$ 8,95 e R$ 32,90. Com isso, BH passa a ter a segunda passagem mais cara do país entre as capitais, ficando atrás apenas de Florianópolis.

O aumento supera em mais do que o dobro a inflação acumulada de 2025, de 3,81%, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) afirma que o reajuste considera custos operacionais como combustível, pneus e despesas com pessoal, além de ser necessário para garantir investimentos e a manutenção do sistema.

Nas redes sociais e no cotidiano da cidade, no entanto, um argumento passou a circular com força: o de que o aumento seria consequência direta da Tarifa Zero aos domingos. Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que essa justificativa não se sustenta nos números.

Tarifa Zero representa apenas 2% do sistema

Segundo o economista e membro do movimento Tarifa Zero André Veloso, o reajuste é parte de um mecanismo anual da prefeitura que combina subsídio público e valor da tarifa para assegurar a taxa de lucro das empresas de ônibus, sem transparência sobre os critérios utilizados.

“Portanto, isso significa que, com um aumento de 8%, não se justifica ter colocado os ônibus aos domingos como justificativa para esse reajuste”, afirma. 

Veloso também critica o modelo de concessão vigente, que, segundo ele, protege os empresários mesmo quando a demanda cai. 

“Os empresários estão com o lucro e a operação garantidos até o fim da concessão, que termina daqui a apenas dois anos, em 2028. Para eles, um aumento no subsídio é o que precisam para operar. Mas, curiosamente, toda vez que a passagem aumenta, diminui o número de passageiros, porque menos pessoas optarão pelo ônibus ou terão recursos para utilizá-lo”, reflete. 

Promessa de mais ônibus à noite segue sem comprovação

Após a derrubada do projeto de lei da Tarifa Zero na Câmara Municipal, a PBH prometeu ampliar a frota no horário noturno. Segundo Veloso, levantamentos feitos até outubro do ano passado não indicavam aumento significativo da quilometragem ou da oferta de ônibus à noite.

:: Relembre: Com pressão de Álvaro Damião, Tarifa Zero é derrubada na Câmara de BH :: 

“Tudo indica que eles até aumentaram, fizeram o programa e a propaganda, mas é a mesma lógica da tarifa aos domingos. Isso representa muito pouco em relação ao custo do sistema e ao que tem que ser feito de fato. É uma estratégia utilizada para justificar o aumento da passagem, para fingir que algo tem sido feito de verdade, enquanto a população segue sendo prejudicada”, critica. 

Gestão municipal e ausência de melhorias

Apesar dos reajustes consecutivos, usuários seguem relatando falta de melhorias no serviço. Para Veloso, a gestão do prefeito Álvaro Damião (União Brasil) mantém a lógica das administrações anteriores, sem enfrentar os empresários nem discutir uma mudança estrutural no financiamento do transporte.

“O prefeito mostrou-se absolutamente inapto e incompetente na capacidade de enxergar o problema e entender a natureza do transporte coletivo. Ele age de forma submissa, sendo mandado por outros atores de dentro e de fora da prefeitura. Nesse sentido, ele dá continuidade ao favorecimento das empresas de ônibus”, analisa. 

Para o especialista, não há nenhum sinal de que o prefeito vá enfrentar os atuais empresários ou transformar o transporte coletivo. 

“Eventualmente, ele não atacará o problema estrutural do ônibus, que é o seu financiamento, justamente o que foi proposto no projeto de lei da Tarifa Zero no ano passado: mudar a forma de financiamento, ampliá-lo e não ficar refém nem da tarifa, nem do vale-transporte. Como se viu, ele simplesmente não tem coragem de fazer isso. Portanto, ele se insere entre os piores prefeitos das últimas gestões no que concerne ao transporte público”, defende. 

Impacto direto na vida de quem depende do ônibus

É no cotidiano que o aumento pesa mais. A diarista Isabel Gonçalves dos Santos, moradora do bairro Nossa Senhora da Conceição, em Ribeirão das Neves, sente o reajuste para além da capital. Ela utiliza linhas metropolitanas e de BH e chega a pegar seis ônibus por dia.

“Minha passagem era R$ 8,20 e agora foi para R$ 8,95. Eu moro em Neves, trabalho em Belo Horizonte e estudo na UFMG. Nos dias que eu trabalho, consigo o dinheiro da passagem para estudar. No dia que fico em casa, tenho que pagar do meu bolso. Tá cada dia mais difícil”, relata.

Isabel conta que depende de uma vaquinha para não abandonar os estudos e descreve um trajeto longo, que envolve a linha que utiliza até a estação Justinópolis e linhas de BH, que usa para se locomover entre trabalho e estudo. 

No total, ela passará a pagar R$ 24,15 por dia para ir e voltar de seus compromissos. Ao final da semana, contando apenas os dias úteis, Isabel terá desembolsado R$ 120,75 de seu salário para pagar o transporte. Isso corresponde a R$ 531,30 ao mês, na somatória de 22 dias úteis. Esse valor exorbitante representa 32,78% do salário mínimo, que atualmente  está na faixa de R$ 1.621,00. 

O aumento da tarifa, no entanto, está longe de ser acompanhado por melhorias, na avaliação dela.

“Não melhorou nada. Os ônibus estão sucateados, ar-condicionado quebrado. Já peguei ônibus andando com a porta aberta. Agora estão tirando os ônibus maiores e colocando menores, com mais gente espremida. Na estação Justinópolis, tem briga todo dia, atraso todo dia. Só piora”, desabafa.

Aumento reacende debate sobre Tarifa Zero

Paralelamente, o novo reajuste pode fortalecer a defesa da Tarifa Zero. Para André Veloso, a experiência da gratuidade aos domingos ajuda a população a visualizar outro modelo possível.

“A Tarifa Zero tem sido proposta nos âmbitos nacional, estadual e municipal. Sua necessidade é continuamente demonstrada, inclusive quando há gratuidade aos domingos ou finais de semana, momentos em que a população percebe como seria bom se não fosse necessário pagar pelo ônibus”, ressalta. 

Por outro lado, a tarifa continua sendo um instrumento de falência do financiamento do transporte coletivo, segundo ele. 

“Dessa maneira, continuamos lutando, como fizemos nos últimos 15 anos, certos de que a tarifa permanece sendo extremamente prejudicial para qualquer futuro do ônibus e do transporte coletivo em Belo Horizonte e no Brasil”, reafirma. 

Outro lado

O Brasil de Fato MG entrou em contato com a PBH para comentar as críticas e aguarda respostas. O texto será atualizado quando houver posicionamento. 

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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