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Venezuela: o laboratório da ofensiva imperialista na América Latina

Trumpismo busca reorganizar imperialismo por meio da intensificação de práticas diretas e contínuas de intervenção

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Os ataques militares e o sequestro do chefe de Estado venezuelano, Nicolás Maduro, e da primeira-dama e deputada eleita, Cilia Flores, constituem um marco na implementação da nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos para a América Latina.

Embora já exista um conjunto expressivo de análises qualificadas sobre a incursão militar, bem como sobre seus desdobramentos econômicos e geopolíticos, persiste no campo progressista brasileiro a circulação de um senso comum empobrecedor e analiticamente equivocado.

Expressões como “volta do imperialismo”, explicações monocausais do tipo “tudo por causa do petróleo” ou, ainda, a adesão a “teorias da conspiração” convivem com a reprodução acrítica de fontes, narrativas e categorias ideológicas produzidas pelo próprio imperialismo estadunidense.

Como temos sustentado em nossos estudos, a categoria teórica de imperialismo — assim como a centralidade política do anti-imperialismo — foi progressivamente marginalizada no debate político e acadêmico nacional. Quando reaparece, tende a fazê-lo de forma reducionista, dogmática ou meramente episódica, dissociada das determinações estruturais do capitalismo contemporâneo e de suas mediações.

Nesse sentido, defendemos que o atual contexto histórico impõe o recolocamento estratégico do anti-imperialismo no centro dos projetos de esquerda. Trata-se de uma condição de sobrevivência política na quadra histórica em que nos encontramos.

A Doutrina Trump para a América Latina

Uma marca distintiva da Nova Direita — em especial de seu núcleo neofascista — é o uso do discurso aberto como arma ideopolítica. Trump rompe com a retórica do “livre mercado” e da “defesa da democracia” para afirmar explicitamente os interesses dos Estados Unidos sobre as riquezas naturais da Venezuela e da América Latina, legitimar aliados vinculados ao narcotráfico e mobilizar discursos abertamente racistas. Nos termos de Lukács, trata-se da passagem da apologia indireta para a apologia direta do imperialismo estadunidense.

Esse deslocamento articula-se à ascensão do irracionalismo como forma ideológica dominante. A produção de mitos, a arbitrariedade e o uso sistemático de sofismas não constituem desvios discursivos, mas instrumentos estratégicos diante da crise estrutural do capitalismo e do acirramento das lutas de classe, funcionando como mecanismos de coesão política e legitimação da ofensiva imperial.

É nessa chave que se compreende a política externa trumpista em seu segundo mandato. A consolidação do movimento de massas Maga (sigla para Make America Great Again), dirigido por um núcleo neofascista, garantiu base social entre setores da classe trabalhadora e da classe média branca, em um contexto de desemprego estrutural e pauperização. Essa base sustenta uma inflexão no interior do sistema imperialista, inclusive nas alianças intercapitalistas e nas relações com as burguesias dependentes.

Se o imperialismo contemporâneo combinou mecanismos indiretos de dominação — jurídicos, culturais e ideológicos — com poderio militar e monetário, o trumpismo busca reorganizá-lo por meio da intensificação de práticas diretas e contínuas de intervenção, recolocando os interesses nacionais imediatos dos EUA no centro da estratégia imperial, inclusive com a ameaça explícita do uso da força militar.

Nesse contexto, o ainda incerto Acordo de Mar-a-Lago expressa uma tentativa de reenquadramento do sistema comercial e monetário internacional e sinaliza o deslocamento da influência de think tanks tradicionais em favor de centros ideológicos alinhados ao Maga. O “nacional-imperialismo” trumpista, como indicam Foster e Patnaik, opera segundo a lógica do “empobrecimento do vizinho”, combinando sanções, tarifas e intervenções unilaterais com uma escalada inédita dos gastos militares, já superiores a US$ 1 trilhão.

A Estratégia de Segurança Nacional publicada em 2025 explicita essa inflexão ao priorizar os “interesses nacionais” e o bloqueio à ascensão de novas potências, sobretudo a China. Nesse marco, a América Latina é reposicionada como base material e geopolítica do poder estadunidense. O documento anuncia para o “Hemisfério Ocidental” o Corolário Trump da doutrina Monroe, menos próximo de sua formulação histórica de 1823 — vinculada ao contexto pós-Congresso de Viena — e mais afinado à política do Big Stick e à noção de espaço vital.

O corolário trumpista redefine a América Latina como espaço interno à segurança nacional dos Estados Unidos. Migração, combate ao crime organizado e à corrupção convertem-se em instrumentos permanentes de coerção, intervenção e pilhagem, voltados à reconfiguração do comércio regional, das cadeias produtivas, dos fluxos financeiros e ao acesso irrestrito às riquezas naturais. Assim, projeta-se, da Terra do Fogo à Groenlândia, um espaço territorial vital para a preservação e expansão do imperialismo estadunidense.

Contradições Internas

Um equívoco recorrente nas análises internacionais é o que denomino “geopoliticismo”: a separação entre política externa e política interna e a adoção de concepções abstratas sobre Estados e supostos “interesses nacionais”. Essa abordagem ignora que, como ensinou Lênin, o imperialismo expressa as lutas de classes nas relações interestatais e no mercado mundial, sendo indissociável das contradições sociais internas às formações nacionais.

Nessa chave, a estratégia trumpista deve ser compreendida como produto e reação às contradições da sociedade estadunidense. Elas se manifestam, de um lado, na formação de bolhas financeiras ligadas às grandes empresas de tecnologia, na pressão por lucros extraordinários e no acirramento da concorrência tecnológica, financeira e comercial; de outro, no aprofundamento da desigualdade, da precarização do trabalho e da instabilidade econômica.

Do ponto de vista dos “de baixo”, a intensificação da perseguição aos imigrantes, o racismo estrutural, o aumento do custo de vida e da pobreza, somados às mobilizações contra o genocídio sionista na Palestina, fizeram de 2025 um ano de ampla contestação social ao governo Trump.

Dados do Crowd Counting Consortium, coordenado por pesquisadores das universidades de Harvard e de Connecticut, indicam que até 30 de setembro de 2025 ocorreram 29.138 protestos políticos nos Estados Unidos, frente a 8.314 no mesmo período de 2024. Esses protestos assumiram múltiplas formas — marchas, greves estudantis, acampamentos, vigílias e atos de desobediência civil — e pautas, do cessar-fogo em Gaza às denúncias de violência policial e injustiça racial.

Muito além do episódio “Epstein”, esse quadro evidencia a relação estrutural entre a intensificação da agressividade imperialista externa, o aprofundamento das contradições internas e a polarização das lutas de classes nos Estados Unidos.

Por que a Venezuela?

Mesmo com a ascensão de uma breve onda de governos progressistas na América Latina — Chile, Uruguai, Brasil, Bolívia, Colômbia e México —, a Venezuela tornou-se um ponto de dissenso no interior da própria esquerda latino-americana. Com exceção dos governos mexicano e cubano, os demais executivos progressistas se afastaram de Caracas, movimento que ocorreu paralelamente ao enfraquecimento das perspectivas de integração e unidade continental.

Não cabe aqui um balanço exaustivo desse processo. É inegável, contudo, que, sobretudo após a morte de Hugo Chávez, a experiência bolivariana passou a enfrentar um cerco político, midiático, comercial e econômico sistemático. Parte expressiva das reservas em ouro e dólares foi confiscada no exterior, o país foi excluído do sistema internacional de pagamentos (SWIFT) e sofreu mais de mil sanções econômicas impostas por países do Norte Global contra o Estado, empresas e indivíduos. A isso se somou a atuação permanente de uma oposição sediada em centros como Miami e Madri, dedicada à produção de instabilidade política.

A construção da imagem da Venezuela como “ditadura”, o aumento da migração e o agravamento da crise econômica consolidaram percepções negativas sobre a experiência bolivariana, inclusive entre setores da esquerda. Nesse contexto, o chavismo — forjado em um pacto cívico-militar — recorreu de forma mais intensa à sua sustentação militar como condição de resistência. Não imune a equívocos, disputas internas e deformações, a Revolução Bolivariana atravessou sua mais profunda crise econômica e a pandemia, ao mesmo tempo em que se gestava um processo de recomposição a partir da base social.

Essa recomposição teve como eixo a política de segurança alimentar e o fortalecimento do poder comunal territorializado. Em 2016, foram criados os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), voltados ao enfrentamento da crise e dos bloqueios comerciais, organizando a distribuição — e, em alguns casos, a produção — de alimentos para a população mais vulnerável. Diante da hiperinflação, algumas comunas instituíram moedas locais para a comercialização de bens essenciais.

Essas formas territorializadas de política pública foram reconhecidas por organismos internacionais como eficazes no combate à fome. O relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025, elaborado por FAO, FIDA, UNICEF, PMA e OMS, registra a queda do Índice de Prevalência de Subnutrição na Venezuela de 17,6% para 5,9% entre 2022 e 2024, o que significa que cerca de 3,3 milhões de pessoas deixaram a condição de fome, reduzindo o total de subnutridos de 5 milhões para 1,7 milhão.

Para além do abastecimento, as comunas se destacam pela criação de unidades socioprodutivas — como hortas comunitárias e criação de pequenos animais, inclusive em áreas urbanas. Após as últimas eleições presidenciais, o poder comunal territorializado tornou-se eixo central do debate político nacional, com ampliação de suas funções formuladoras e executoras e a realização de eleições territoriais periódicas para definição de projetos e políticas locais.

Paralelamente, diante do bloqueio imperialista e da guerra econômica e midiática permanente, a Venezuela aprofundou sua articulação política, econômica e militar com países não alinhados aos Estados Unidos, como Irã, Rússia e China. Um marco desse movimento foi a comercialização de petróleo fora do circuito do dólar, tensionando diretamente a hegemonia monetária estadunidense.

Esse fator ganha centralidade estratégica na medida em que a Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo — cerca de 303 bilhões de barris, quase um quinto das reservas globais — e um setor petrolífero historicamente nacionalizado, sob controle estatal por meio da PDVSA, consolidado a partir das nacionalizações dos anos 1970 e aprofundado pela Revolução Bolivariana.

Assim, a Venezuela se afirma como a experiência latino-americana que, apesar de contradições, disputas e limites, resiste de forma mais direta às incursões contínuas do imperialismo, colidindo com interesses estratégicos centrais dos Estados Unidos: o controle de recursos naturais estratégicos, a preservação da hegemonia do dólar no mercado petrolífero e qualquer tentativa concreta de ampliação da soberania popular.

O significado para a América Latina

Em uma de suas coletivas, Trump anunciou o suposto êxito de sua doutrina Monroe, afirmando que governos alinhados ao seu projeto venceram no Chile, Argentina, Equador, Bolívia, entre outros países. A abertura do mercado petrolífero venezuelano, segundo essa lógica, seria alcançada por meio de pressões permanentes e negociações assimétricas.

Para além dos efeitos econômicos e comerciais — que transformaram a ação militar em propaganda para a indústria bélica, como assinala Ana Penido —, trata-se de uma mensagem política ao mundo e, sobretudo, à América Latina: a disposição de radicalizar um projeto neocolonial para a região.

O aprofundamento dessa ofensiva depende da correlação de forças nos Estados Unidos e na própria América Latina. Do ponto de vista econômico, não é simples nem imediato retirar os investimentos chineses concentrados em grandes projetos de infraestrutura. Mesmo em países alinhados a Washington, como Argentina e Peru, essas parcerias não foram rompidas.

Ainda assim, a estratégia trumpista, embora irracional e simplificadora, possui coerência diante da relativa decadência estadunidense. Mais do que ajustes conjunturais de política externa, trata-se da tentativa de impor mudanças estruturais e duradouras na relação entre os EUA e a América Latina.

No plano político, o trumpismo aposta em um ciclo de governos de direita e, sobretudo, de extrema-direita, que operam como governos-tampão dos interesses estadunidenses. Em um primeiro momento, o novo establishment pressiona e negocia com os governos progressistas remanescentes — México, Colômbia e Brasil — por meio de instrumentos diplomáticos, midiáticos, comerciais e, potencialmente, militares.

O cálculo estratégico, contudo, é corroer as bases desses governos e fomentar operadores internos pró-EUA. Cabe destacar que mesmo o Brasil apresenta subsoberanias nos planos econômico, jurídico e militar. Nesse contexto, as eleições colombianas e brasileiras se configuram como frentes imediatas de enfrentamento à ofensiva imperialista.

Na Colômbia, a derrota da primeira experiência de governo popular é estratégica para paralisar a reforma agrária e acessar recursos naturais-chave. No Brasil, mais do que impedir a reeleição de Lula, está em jogo o controle do parlamento — especialmente do Senado —, abrindo caminho para um remodelamento institucional do Estado no pós-Lula.

Mais uma vez, as veias e os destinos da América Latina se mostram abertos e interdependentes. A resistência popular na Venezuela, Cuba e nos Estados Unidos, assim como os processos eleitorais na Colômbia e no Brasil, são decisivos. Nesse cenário, o anti-imperialismo não pode permanecer como retórica vazia ou peça de museu: trata-se de um fundamento estratégico para a sobrevivência e o aprofundamento das soberanias nacionais e populares, articuladas a um projeto efetivo de integração continental.

 *Luís Eduardo Fernandes é professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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