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Primeira semana de 2026 é marcada por altas temperaturas na Bahia e acende alerta para cuidados com a pele negra

Calor extremo funciona como gatilho para agravamento de condições como melasma, dermatite ou hiperpigmentação

Além da proteção solar, hidratação também é indispensável
Além da proteção solar, hidratação também é indispensável | Crédito: Fernando Frazão / Agência Brasil

A primeira semana de 2026 foi marcada por temperaturas elevadas em Salvador (BA). O ano começou sob a influência de uma massa de ar quente e seca, que manteve o predomínio do sol e contribuiu para a sensação térmica elevada na capital baiana e em diversas regiões do estado.

O calor intenso também colocou municípios da Bahia entre os mais quentes do país. Três cidades baianas apareceram no ranking das 10 maiores temperaturas registradas entre os dias 5 e 6 de janeiro, segundo levantamento do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Euclides da Cunha liderou entre os municípios baianos, com 38,4 °C, a terceira maior temperatura do Brasil no período. Ribeira do Amparo registrou 37,8 °C, seguida por Curaçá, que marcou 37,3 °C, ocupando, respectivamente, a nona e a décima posição no ranking nacional.

As altas temperaturas não afetam apenas o conforto térmico da população, mas também trazem impactos diretos à saúde da pele. Ainda assim, persiste a ideia equivocada de que a pele negra “sofre menos” com o sol. Um mito perigoso, especialmente em períodos de calor intenso e prolongado como o que marca o início de 2026.

De acordo com a biomédica esteta Jessica Magalhães, o calor extremo atua como um fator inflamatório importante para a pele negra, aumentando a vasodilatação, gerando mais atrito e oleosidade, mesmo quando os sinais não aparecem de forma imediata. Segundo ela, esse processo ocorre de maneira silenciosa e cumulativa, o que aumenta o risco de foliculite, acnes, manchas e outras alterações ao longo do tempo.

“A pele negra nem sempre apresenta sinais visíveis imediatos, como ficar muito vermelha. Muitas vezes essa resposta vai aparecer depois em forma de uma hiperpigmentação ou mancha. Por isso o calor extremo sem cuidado adequado, não é só uma questão de desconforto, é um fator de adoecimento da pele.”

A médica explica que o calor funciona como um gatilho inflamatório capaz de agravar condições já comuns na pele negra, como melasma, dermatites e hiperpigmentação pós-inflamatória. Para ela, um dos maiores riscos está na normalização de sinais que deveriam ser tratados com atenção, especialmente durante o verão, como o escurecimento progressivo da pele, coceiras persistentes, ardor ao aplicar produtos simples, descamação acompanhada de manchas e marcas que surgem após espinhas, picadas ou atrito. 

Quando sinais como esses são ignorados, especialmente durante as férias de verão, com a exposição repetida ao sol, à água do mar e à areia, o cenário pode se agravar, devido ao estado constante de agressão e inflamação. Entre os erros mais comuns que observa, a biomédica cita a crença de que a pele negra não precisa reaplicar protetor; o uso de produtos que têm álcool na sua fórmula; ou de ácidos fortes no verão. “Isso sem falar em esfregar a pele com toalha ou bucha e negligenciar o cuidado pós-sol. O cuidado não termina quando sai da praia, ele continua. E é aí que muita gente erra”, completa Jessica.

Nesse sentido, a ela destaca algumas dicas fundamentais para adaptar à rotina:

  • Adotar um protetor com Fator de Proteção Solar (FPS) bem alto;
  • Reaplicar corretamente sem deixar falhas, a cada duas horas e após banho;
  • Limpeza suave após a praia para retirar o sal e areia sem esfregar;
  • Hidratação potente com foco em reparar a barreira cutânea.

A atenção precisa ser ainda maior quando se trata de crianças e idosos, que possuem a barreira cutânea mais frágil. Jessica Magalhães destaca que o cuidado com a pele nesses grupos deve ser diário, mesmo fora do contexto de praia ou piscina. Além de um protetor solar adequado para a faixa etária, é preciso atenção para o uso de roupas mais leves, mais claras, com proteção UV e chapéus. “Além disso, a hidratação da pele precisa ser diária. Assaduras, áreas de atrito, manchas e ressecamento não devem ser vistos como algo normal no calor, isso porque pele ressecada também inflama, e inflamação, especialmente na pele negra, pode virar mancha.”

Mas nem todas as pessoas expostas a longos dias sob o sol estão de férias. São muitos os trabalhadores que não têm a possibilidade de evitar o calor extremo, como vendedores ambulantes, trabalhadores da praia, da construção civil, garis, pescadores, marisqueiras e agricultores. Para esse público, Jessica ressalta que os cuidados precisam ser possíveis, reais e adaptados à rotina de trabalho.

“Na prática, evitar o sol nem sempre é uma opção, e isso precisa ser dito com responsabilidade. O protetor solar é essencial, mas sozinho não é suficiente. É preciso associar estratégias reais e possíveis”, defende.

Os impactos do calor extremo sobre trabalhadores e populações mais vulnerabilizadas aparecem em dados científicos. Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros e portugueses, de instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade de Lisboa e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aponta que eventos de calor extremo resultaram em cerca de 48 mil óbitos no Brasil entre 2000 e 2018. As comunidades mais afetadas são aquelas com menor nível de escolaridade, pessoas negras, idosos e mulheres.

De forma específica, pessoas negras com mais de 65 anos apresentam taxas de impacto mais elevadas em comparação com pessoas brancas da mesma faixa etária. Trabalhadores que exercem atividades ao ar livre enfrentam riscos adicionais, como exaustão, desidratação, câimbras musculares e insolação, além da perda de desempenho e bem-estar no ambiente de trabalho.

Em um cenário de mudanças climáticas, temperaturas cada vez mais elevadas deixam de ser apenas uma característica do verão e passam a ser um fator de risco à saúde, especialmente para quem historicamente já enfrenta desigualdades no acesso à proteção, à informação e ao cuidado.

A médica recomenda, além da reaplicação frequente de um protetor resistente ao suor, o uso de chapéu de aba larga, boné, lenço, camisa de manga longa com proteção UV, óculos escuros, e pausas na sombra sempre que possível. Hidratação oral é indispensável. 

“Outro ponto fundamental é a rotina de cuidado ao final do dia, com foco em acalmar e reparar essa pele. Cuidar da pele dessas pessoas não é só uma questão de estética, mas de saúde, prevenção de doenças e respeito à dignidade de quem vive do próprio trabalho”, finaliza.

Editado por: Luís Indriunas

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