Uma carta assinada por autoridades, personalidades e acadêmicos da América Latina, Europa e Estados Unidos denunciou o ataque estadunidense contra a Venezuela e defendeu a soberania do país. Entre os signatários da carta está Gustavo Petro, presidente da Colômbia.
O documento, publicado na semana passada, afirma que “o que hoje ocorre na Venezuela não é uma anomalia nem um inesperado desvio da ordem internacional” e descreve o episódio como parte de uma lógica histórica que trata o continente como “fronteira selvagem, território onde as regras que regem o ‘mundo civilizado’ se suspendem sem escândalo e onde a violência se exerce como se fosse um direito natural”.
Na madrugada de 3 de janeiro, Caracas acordou com explosões que atingiram a capital e os estados de Aragua e La Guaira, onde está localizado o principal aeroporto do país.
As detonações começaram por volta das 2h. Poucas horas depois, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, foi confirmado pelas autoridades venezuelanas e pelos Estados Unidos, que assumiram a autoria da operação.
“Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, capturado, juntamente com sua esposa, e retirado do país por via aérea”, afirmou o presidente Donald Trump em uma rede social.
Segundo o governo venezuelano, 111 pessoas morreram no ataque, entre elas 32 agentes cubanos responsáveis pela segurança pessoal de Maduro.
Horas após a ação militar, a vice-presidenta Delcy Rodríguez declarou em rede nacional que o único presidente da Venezuela continua sendo Nicolás Maduro e que há união cívico-militar para resguardar a soberania do país.
Na segunda-feira (5), Rodríguez tomou posse como presidenta interina perante a Assembleia Nacional e afirmou: “Venho com dor, mas também com honra”. Três dias depois, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, declarou apoio total à dirigente durante seu programa televisivo.
Para os signatários da carta, o episódio marcou um novo patamar de intervenção no hemisfério. O texto sustenta que “o que ocorreu em 3 de janeiro não foi apenas a repetição de práticas conhecidas, mas uma demonstração obscena de impunidade diante de qualquer lei e a confirmação da atual ‘palestinização do mundo’”. No documento, a operação é apresentada como gesto público destinado a mostrar que “a força basta por si mesma para se legitimar”.
O documento sustenta que a intervenção contra Caracas não pode ser interpretada como exceção. Os autores sustentam que a história regional inclui invasões, ocupações, golpes e bloqueios sempre que projetos de autonomia política ou controle soberano de recursos naturais foram incrementados.
Não se trataria, segundo o texto, de desvios corrigíveis, mas de um padrão estrutural das relações internacionais quando aplicadas ao Sul Global. A carta afirma ainda que “nenhuma crítica interna justifica uma invasão” e que nenhum desacordo político autoriza o castigo coletivo a um povo, uma vez que a soberania não é prêmio moral outorgado de fora, mas condição mínima para que as sociedades definam seu destino.
A carta também aborda a ausência de reação contundente de parte da comunidade internacional. O silêncio diplomático, segundo os autores, normaliza a violência e dilui responsabilidades ao colocar agressor e agredido no mesmo plano.
Nesse cenário, a América Latina voltaria a ser tratada como espaço de experimentação geopolítica e de demonstração de força. “Defender hoje a soberania da Venezuela não equivale a defender um governo, mas a rejeitar uma lógica que volta a instalar a guerra como instrumento legítimo de ordenamento internacional”, afirma o texto.
O documento é assinado por 26 personalidades de 11 países. Entre os signatários, além do presidente da Colômbia, estão o escritor e ex-ministro da Cultura de Cuba Abel Prieto; o argentino prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel; o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos; e o economista estadunidense Jeffrey Sachs, que atuou como assessor especial do Secretário-Geral das Nações Unidas.
