É FESTA!

Carnaval de BH em 2026 dialoga com momento de celebração e de resgate da identidade nacional

Folia tem mais de 600 blocos cadastrados, aumento no fomento, mas alguns desafios permanecem

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Carnaval de 2026 na capital mineira se anuncia como um dos mais potentes dos últimos anos
Carnaval de 2026 na capital mineira se anuncia como um dos mais potentes dos últimos anos | Crédito: Pablo Bernardo/PBH

Com mais de 600 blocos cadastrados, crescimento no número de desfiles e um reajuste inédito no auxílio financeiro da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), o Carnaval de 2026 na capital mineira se anuncia como um dos mais potentes dos últimos anos, mas também como um território de disputas políticas, econômicas e simbólicas. Entre expectativas artísticas, temas que dialogam com identidade e desejo, e reivindicações históricas dos blocos, a folia segue afirmando seu caráter popular e de luta.

“A tônica do Carnaval de BH em 2026 deve ser a de um Carnaval democrático, inclusivo e respeitoso, sem racismo, sem machismo, sem homofobia, com respeito às pessoas com deficiência, aos trabalhadores ambulantes e a todos os foliões, garantindo o direito de curtir a festa sem preconceitos”, defende Stefanio Marques, integrante da Liga BRUTA BH, grupo que reúne mais de 60 blocos de carnaval em BH.

“Nossa expectativa é de um Carnaval maravilhoso, inclusivo, e que valorize verdadeiramente os fazedores de cultura, que com pouquíssimos recursos entregam um espetáculo extraordinário à cidade. É fundamental que esses trabalhadores tenham condições de continuar produzindo cultura ao longo de todo o ano”, afirma. 

Marques lembra, especialmente, que, em 2025, o Carnaval de Belo Horizonte gerou mais de R$ 1,2 bilhão em receitas para a cidade, o que, na avaliação dele, comprova que a festa é viável, gera emprego, renda e desenvolvimento econômico, além de fortalecer a identidade cultural.

Orgulho da identidade brasileira

À frente da gestão e da produção de quatro blocos – Abalô-Caxi, Lavô Tá Novo, Circuladô e É o Amô -, a produtora cultural e vocalista Amanda Coimbra destaca que o Carnaval de 2026 dialoga com um momento de celebração e de resgate das identidades culturais nacionais. 

“Vejo um orgulho maior da diversidade brasileira e uma valorização dos nossos artistas, da nossa história, dos nossos movimentos culturais e trajetórias coletivas. Esse movimento aparece em várias expressões da cultura e da arte, e se reflete fortemente no carnaval”, aponta. 

Para ela, essa energia celebrativa é decisiva para fortalecer e dar fôlego para quem está construindo o Carnaval na rua. 

“Minha expectativa é que seja um Carnaval bonito, potente, consciente da sua dimensão cultural, simbólica e econômica, mas também mais leve para quem trabalha, porque é um período extremamente intenso. Espero que seja um carnaval bem estruturado, seguro e financeiramente mais justo, garantindo reconhecimento e remuneração digna para artistas, produtores, técnicos e todos os agentes envolvidos nessa construção coletiva que é o carnaval de Belo Horizonte”, realça. 

Para Giselle Duarte, organizadora do bloco Abalô-Caxi e instrumentista nos blocos Tapa de Mina, Truck do Desejo, Bruta Flor e Baque de Mina, a tônica da folia de BH em 2026 é a leveza. 

“Para conseguir participar muito bem de todos os momentos, é importante ir na paz, na felicidade e na força do batuque, para viver a cultura popular e construir essa luta”, afirma. 

Na mesma linha, Fernanda Branco, diretora artística e coordenadora do Truck Do Desejo, lembra que o Carnaval de BH já é um elemento fundamental da cultura da capital mineira e que isso não mais está em disputa. 

“A expectativa é de um Carnaval cada vez mais consciente do seu papel: de encontro, de memória, de força. Um Carnaval que não é só sobre festa, mas sobre permanência, sobre comunidade, sobre lembrar que a gente existe, resiste e constrói junto”, destaca. 

O que os blocos levam para as ruas?

Os temas dos blocos também ajudam a desenhar o clima de celebração que deve marcar a folia. O Circuladô abre o pré-carnaval, no dia 8 de fevereiro, com “Fé na Festa”, unindo teatro e percussão para exaltar a cultura popular como experiência coletiva. 

No carnaval oficial, dia 15 de fevereiro, o Abalô-Caxi apresenta “Festa no Vale”, celebrando diversidade, liberdade e ocupação dos territórios como ato político. O É o Amô aposta em “Povo do Interior”, resgatando memórias afetivas e raízes mineiras, enquanto o Lavô Tá Novo convida o público a atravessar gerações com “As Mais Pedidas: da Rádio ao MP3”, transformando o desfile em um grande karaokê coletivo da música brasileira.

No Truck do Desejo, o tema “Truque do Desejo” propõe uma reflexão sensível e política sobre onde as pessoas depositam sua energia vital. 

“Estamos falando de desejo de vida: de amar, de liberdade, de direitos, de bem-viver. Um direito que deveria ser universal! A nossa intenção é provocar reflexão e também movimento, porque desejo também é político”, afirma Fernanda Branco. 

O Tapa de Mina celebra 10 anos enquanto um bloco afro e feminino, com cortejo dia 31, data de início oficial do carnaval belo-horizontino. Já o Bruta Flor aposta na tônica política “mulheres vivas: nenhuma mulher a menos!”. 

“No ano passado tivemos diversos casos de feminicídio e o bloco reforça novamente essa luta das mulheres latino-americanas”, recorda Giselle Duarte.

O Baque de Mina, por sua vez, mira nos  20 anos da Lei Maria da Penha. O bloco exclusivamente de mulheres do maracatu traz na camisa um viva à Maria da Penha e contra a violência contra as mulheres, nesta sexta-feira (17).  

Avanços no fomento e desafios estruturais

Apesar do clima positivo, o Carnaval de 2026 também evidencia tensões históricas na relação entre os blocos e o poder público. A Prefeitura de Belo Horizonte anunciou um aporte total de R$ 3,21 milhões para o auxílio financeiro aos blocos de rua, um aumento superior a 16% em relação ao valor praticado em 2025. Serão contemplados 105 blocos, divididos em três categorias, com repasses que variam de R$ 14,6 mil a R$ 41,5 mil.

Para a Liga BRUTA BH, o reajuste é um avanço importante, mas ainda distante da realidade da festa. 

“O recurso ajuda, mas é insuficiente. Temos mais de 600 blocos cadastrados e apenas 105 contemplados, o que representa cerca de 15% do total”, afirma Stefanio Marques, representante da liga. Segundo ele, os valores não cobrem custos básicos de produção, como trio elétrico, segurança e infraestrutura, além de chegarem tardiamente aos blocos.

A liga também aponta a necessidade de revisar critérios dos editais, ampliar o número de contemplados e descentralizar os recursos. Entre as principais reivindicações estão a garantia de espaços públicos para ensaios, a criação de editais permanentes que mantenham os blocos ativos durante todo o ano e o reconhecimento do trabalho cultural realizado nas periferias da cidade. 

“O Carnaval não acontece só em fevereiro. Muitos blocos desenvolvem oficinas, formações e ações culturais contínuas, especialmente com juventudes e comunidades negras”, destaca Stefanio.

Giselle lembra que o Abalô-Caxi é um dos exemplos desse desafio financeiro que ainda é imposto aos blocos. 

“O auxílio da Belotur este ano aumentou, o que ajuda, mas não contempla toda a demanda que é fazer o cortejo. O Abalô-caxi não foi contemplado e, por isso, estamos organizando uma vaquinha, para conseguir sair no dia 15 de fevereiro”, destaca a foliã.

A meta é arrecadar R$ 50 mil, valor necessário para viabilizar a estrutura do cortejo. Mais do que um chamado por recursos, a iniciativa convida apoiadores e foliões a contribuírem para levar às ruas o protagonismo LGBTQIAPN+. As contribuições podem ser feitas por meio da plataforma Evoé com valores espontâneos e também tem opções com recompensas.

Para Fernanda Branco, o reajuste ainda funciona como complemento de orçamento, pois colocar um bloco do tamanho da Truck na rua é extremamente caro. 

“E colocar com responsabilidade é mais caro ainda. A gente oferece uma estrutura de cuidado que vai além do básico. Um exemplo: nós temos carro de bem-estar com ar-condicionado para pessoas que estão passando mal, que precisam se regular, uma médica à disposição, equipe preparada e uma série de recursos pensados para o público e para quem desfila. Tudo isso custa muito caro. E ao longo do ciclo do bloco, de junho a janeiro, a gente trabalha com pouquíssimo recurso”, sinaliza. 

Mais do que o valor em si,  segundo Amanda Coimbra, existe a expectativa de que esse seja o início de um diálogo contínuo e de uma construção coletiva envolvendo o poder público municipal e estadual. 

“Quem está na linha de frente do carnaval são os próprios blocos e trabalhadores da cultura, que conhecem de perto as necessidades e os desafios. Quando esses agentes conseguem sair mais estruturados e melhor remunerados, o impacto é positivo para toda a cidade, movimentando a economia, o turismo e fortalecendo a cultura local”, finaliza. 

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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