A Prefeitura de São Paulo de Ricardo Nunes (MDB) reintegrou, nesta quinta-feira (15), a posse da área ocupada pelo Teatro de Contêiner Mungunzá, na Rua dos Gusmões. Referência cultural no Centro da capital há cerca de 10 anos, o espaço foi lacrado pela administração municipal.
O local era conhecido por oferecer espetáculos gratuitos de teatro, música e dança, além de acolher pessoas em situação de vulnerabilidade social com cursos, oficinas e áreas de descanso.
A ação cumpre decisão da 5ª Vara da Fazenda Pública e expõe o conflito entre a preservação de polos culturais e os planos de reurbanização habitacional, segundo integrantes da Cia. Mungunzá de Teatro. A gestão de Nunes justifica a retomada para a construção de um conjunto habitacional de interesse social, com previsão de 95 moradias e área de lazer.
Na visão dos gestores da companhia teatral, a ação faz parte de um processo de esterilização da cultura e das pessoas que circulam pelo centro da cidade. Para o gestor do espaço Lucas Beda, o cenário no Centro ultrapassa a “higienização”. “Estamos vendo um cenário de esterilização. Os lugares são cercados para não terem marcas das pessoas. É realmente o apagamento cultural do território.”
Em entrevista ao Brasil de Fato, Beda classificou a ação como uma “violação” e afirmou que o grupo tem sido criminalizado. Ele apontou uma contradição na gestão pública: enquanto secretarias de cultura investem no espaço via editais, outras pastas ordenam sua destruição.
“Isso causa um conflito de prioridades e um mau uso do recurso público. Como se empenha dinheiro em algo que está predestinado à destruição?”, questionou.
Histórico de conflitos
A disputa intensificou-se em maio de 2025, com a primeira ordem de desocupação. Em agosto do mesmo ano, uma ação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) para retirar artistas de um prédio anexo, marcada pelo uso de spray de pimenta gerou forte repúdio do Ministério da Cultura (MinC). Na época a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e um representante da Fundação Nacional de Artes (Funarte) chegaram a atuar como mediadores junto à gestão municipal.
Na ocasião, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) concedeu uma liminar garantindo a permanência do grupo por 180 dias.
Em setembro, a companhia denunciou tentativas de demolição parcial mesmo com a liminar vigente, o que levou o Ministério Público a investigar a conduta de agentes públicos por possível abuso de autoridade.
No fim do ano passado, houve tentativas de negociação. A prefeitura ofereceu terrenos alternativos, mas o grupo alegou que os locais eram inadequados e que as promessas de auxílio financeiro não foram formalizadas em contrato.
Impasse logístico e financeiro
Embora o grupo tenha aceitado a transferência para um terreno na rua Helvétia, os artistas alegam falta de suporte para fazer a mudança dos 11 contêineres que compõem a estrutura. O custo do novo projeto está estimado em R$ 2 milhões. A Justiça, porém, considerou que o prazo da liminar se esgotou e que a ocupação em área pública era irregular.
Marcos Felipe, ator e também gestor do teatro, recorreu às redes sociais para explicar que o grupo precisava de mais tempo para organizar a retirada do equipamento. Segundo ele, os integrantes tentam diálogo com a Prefeitura desde dezembro, sem sucesso.
“A Prefeitura não está nos recebendo para conversar. Faço esse apelo: conversem com a gente. Agentes públicos, chamem a gente para o diálogo”, pediu.
Lucas Beda ressaltou que uma nova estrutura demanda auxílio do poder público. Ele criticou a forma como a interdição foi conduzida. “Nós não somos intransigentes, a gente já aceitou, sabe? Intransigência é a gente chegar no espaço e ele estar interditado, lacrado, sem o mínimo de comunicação. Nós não merecemos isso. Somos um grupo que atua há 18 anos em prol da cidade de São Paulo.”
Uma década de ocupação
O projeto nasceu em 2016, quando a Cia. Mungunzá ocupou um terreno abandonado que servia como descarte de lixo. O local transformou-se em um premiado centro cultural que, ao longo dos anos, recebeu cerca de R$ 2,5 milhões em verbas públicas via editais.
O impacto do teatro mobilizou até nomes como Fernanda Montenegro e Marieta Severo, que enviaram cartas ao prefeito defendendo a permanência do grupo como essencial para a segurança e a vida do bairro.
Em nota publicada em seu site, a Prefeitura de São Paulo reforçou que a medida é necessária para o “interesse social” e afirmou ter oferecido R$ 100 mil para viabilizar a mudança, proposta que, segundo a gestão, teria sido recusada anteriormente.
