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Economia política do Sul Global: desafios e possibilidades da nova ordem mundial emergente

A multipolaridade que está emergindo guarda especificidades em relação ao final do século 19

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O texto abaixo foi extraído de discurso apresentado durante a realização do 2º Fórum Acadêmico do Sul Global, realizado em Xangai, em novembro de 2025. O evento reuniu pesquisadores e instituições para promover cooperação, troca de saberes e pensamento crítico, fortalecendo a produção de conhecimento e soluções para desafios sociais, políticos e ambientais.


Quero falar um pouco sobre elementos de economia política do Sul Global, tentando priorizar o que identifico como desafios, mas também as possibilidades do surgimento de uma nova ordem global emergente. Para começar, trago alguns elementos que ajudam a caracterizar a ordem multipolar que está se avizinhando, ou na qual iniciamos os primeiros passos.

Um elemento importante de caracterização diz respeito ao fato de que, pela primeira vez, a alteração que o mundo está vivenciando na ordem global não está sendo precedida de nenhuma grande guerra mundial. Historicamente, grandes reconfigurações sistêmicas foram precedidas ou catalisadas por guerras de caráter prolongado. Cito as guerras napoleônicas, reconfigurando o processo e antecedendo o Concerto Europeu; a Primeira Guerra Mundial, deslocando a hegemonia da Inglaterra para os Estados Unidos; ou a própria Guerra Fria recolocando os Estados Unidos em um papel de governança unipolar com a ausência de rivalidades no sistema interestatal.

Por um lado, é importante que a reconfiguração de uma nova ordem não seja precedida por uma grande guerra, pois poupa vidas, mas, por outro lado, isso coloca o desafio de um processo de erosão mais prolongado. Ou seja, a velocidade dessas transformações dependerá de várias variáveis e, provavelmente, se estenderá muito mais ao longo do tempo.

A multipolaridade que está emergindo no século 21 guarda várias especificidades, principalmente se comparada com o período de multipolaridade do final do século 19. Um elemento fundamental é que a face das potências hoje emergentes é a de países subdesenvolvidos, países em desenvolvimento e do Sul Global. Trata-se de uma reconfiguração onde as potências emergentes são subdesenvolvidas, com as características políticas e geográficas que envolvem o conceito de Sul Global e subdesenvolvimento. Além disso, a reorganização global é de caráter multicultural, multiétnico e geograficamente localizada tanto fora da Europa e quanto fora do Ocidente.

Embora essa ordem esteja nascendo, algumas pessoas trazem a expressão de que “o novo ainda não nasceu, e o passado ainda não morreu”, caracterizando um período de interregno. Independentemente de a frase ser atribuída a Gramsci ou a Lênin, o que importa é a ideia de que vivemos um momento de interregno entre a desestruturação da velha ordem e a formação de uma ordem multipolar. Esse processo não ficará sujeito apenas às livres forças do mercado ou do próprio desenvolvimento, pois os Estados Unidos desempenham um papel que obstaculiza ou dificulta qualquer movimento mais autônomo e mais cooperativo do Sul Global.

A importância do Sul Global é evidente: se pegarmos os Brics, representamos em torno de 40% do Produto Interno Bruto (PIB), contabilizando por paridade do poder de compra. Contudo, embora sejamos países emergentes e importantes nessa nova ordem global, essa importância ainda não se manifesta de forma proporcional no sistema monetário e financeiro internacional que coloca desafios no sentido de que o dólar ainda é a moeda preponderante, 88% das operações cambiais, enquanto apenas 15% envolvem moedas dos Brics. Os questionamentos em relação à hegemonia e preponderância do dólar são antigos, mas têm se manifestado de forma mais presente no século 21, sobretudo devido ao impacto da crise financeira, à guerra da Ucrânia, às sanções contra a Rússia e à possibilidade por tanto dos Estados Unidos usarem o dólar como arma política.

Para caracterizar o momento atual, faço dois paralelos aqui. No século 20, quando os Estados Unidos já tiveram um período em que seu poder e sua moeda foram, se não ameaçados, pelo menos questionados ou contestados. Esse poder americano foi contestado em vários campos:

Econômico e Tecnológico: Com o acirramento das rivalidades interimperialistas a partir do soerguimento da grande empresa japonesa e alemã, especialmente na década de 50.

Militar: Com a derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

Político e Geopolítico: Uma série de questionamentos ou tensões; com a iminência da Revolução Iraniana em 79, fruto das mobilizações populares de 77, construindo uma política externa não alinhada ou anti-imperialista; a invasão do Afeganistão pela União Soviética e maiores extensões na região da Ásia; e a Revolução Sandinista na Nicarágua em 79, criando tensões, conflitos e dificuldades para o imperialismo norte-americano.

Monetário: Com o fim do lastro metálico, a valorização do dólar e o fim do sistema de Bretton Woods, além de questionamentos ao dólar especialmente vindos da França sobre a existência de lastro entre operações em dólar e o lastro metálico em ouro nos bancos centrais.

Supremacia Tecnológica: Com a aceleração expressiva dos esforços soviéticos na corrida armamentista, que já buscava recuperar o atraso relativo da União Soviética em relação aos Estados Unidos na indústria de defesa, o que coloca um debate sobre questionamentos.

Os Estados Unidos responderam a esse desafio de diversas formas: no campo tecnológico-militar, com a “Guerra nas Estrelas” e a tentativa de suplantar qualquer tentativa do rearmamento soviético; com a ampliação de bases militares, especialmente no Sudeste Asiático; e com a defesa do dólar amparada nos acordos de Plaza e Louvre. Com o aumento dos juros dos títulos da dívida pública americana em 79, uma drenagem da poupança mundial e um enquadramento que os Estados Unidos operam sobre seus concorrentes. Isso possibilitou que a dívida pública americana virasse um mecanismo de sustentação de déficits comerciais elevados e persistentes, servindo como instrumento de captação forçada da liquidez internacional.

Podemos sugerir que os Estados Unidos mais uma vez, assim como na década de 70, estão sendo novamente ameaçados ou contestados nos campos monetário, financeiro e militar. Destacaria os seguintes pontos:

  • Há uma ofensiva ou bloqueio no campo militar, visível nos resultados da guerra da Ucrânia e na dificuldade da Otan [aliança militar ocidental] de se alastrar para países da antiga União Soviética.
  • A China ocupa um papel diferente da concorrência econômica japonesa e alemã do passado, representando simultaneamente uma rivalidade política, econômica e tecnológica.

Existem alternativas sendo aventadas no campo da desdolarização, com desenhos melhores e mais plurais de diversificação da cesta de moedas, incluindo os Brics, como tentativa de cooperação dos países do Sul Global.

As sanções operam um mecanismo paradoxal: ao mesmo tempo em que criam constrangimentos e dificuldades para países periféricos, e do Sul Global também vão ensejando alternativas por fora do dólar.

Para encerrar, pontuo alguns movimentos em curso que podem acelerar um processo de mudança. Primeiro, há uma alteração no papel de alguns países na economia mundial, especialmente China, Rússia e Brasil. Segundo, as tensões geopolíticas crescentes entre as potências globais ensejam cenários de maior multipolaridade, o que interessa aos países especialmente da periferia do Sul Global.

Além disso, há desconfianças em relação ao dólar geradas pela administração Trump e por fim uma disposição política de uma gama maior de países para reduzir essa dependência em relação ao dólar. Exemplos disso incluem o processo de internacionalização do RMB, acordos de liquidação em moedas locais e bancos centrais comprando euro para hedge (proteção) geopolítica, gestando várias alternativas no campo da desdolarização.

*Juliane Furn é doutora em Economia, professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato

Editado por: Geisa Marques

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