entrevista

Marsha Trans pauta ‘futuro possível para todas as existências’ no centro do debate político, afirma Benevides

Para presidenta da Antra, candidaturas progressistas precisam se colocar a favor da população trans

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Mulher transexual, militar e ativista, Bruna Benevides é presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)
Mulher transexual, militar e ativista, Bruna Benevides é presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) | Crédito: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Em um Brasil que, há quase duas décadas, ocupa o topo do ranking mundial de assassinatos de pessoas trans e travestis, a 3ª Marsha Trans Brasil não se apresenta como celebração, mas como denúncia. Realizada em Brasília, no próximo domingo (25) a mobilização reúne ativistas de todo o país para cobrar respostas concretas do Estado, tensionar o debate eleitoral e reafirmar que não existe soberania nacional possível enquanto a transfobia seguir estruturando a exclusão, a violência e a morte.

À frente dessa articulação está Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Em entrevista ao Brasil de Fato DF, ela analisa os três anos da marcha, critica a ausência de entregas efetivas do poder público e defende a centralidade da pauta trans na reconstrução democrática do país.

Criada em meio à ascensão global da extrema direita e à perseguição sistemática às pautas de diversidade, a Marsha Trans Brasil nasceu com a expectativa de reposicionar os direitos das pessoas trans no centro do debate público. No entanto, três anos depois, o balanço é duro.

“O Brasil já era um país extremamente violento com a população trans antes mesmo da extrema direita assumir o poder. Nós já enfrentávamos desemprego, expulsão escolar, dificuldades de acesso à saúde e uma violência cotidiana brutal”, afirma Benevides, presidenta da Antra.

Segundo ela, a marcha surge exatamente para romper com a naturalização dessa realidade e tensionar o Estado brasileiro. “A Marsha nasce num momento crucial de virada, com a tarefa de dizer que a pauta trans é uma pauta de direitos humanos, tão central quanto a pauta das mulheres, do enfrentamento ao racismo, da proteção às crianças, às pessoas idosas e aos povos indígenas.”

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No entanto, a presidenta avalia que as respostas institucionais ficaram aquém do necessário. “Infelizmente, o balanço desses três anos não é positivo. O que vimos foi uma sequência de recuos, de ausência de compromisso e de falta de políticas estruturantes para a população trans”, reflete.

Ela aponta um paradoxo no atual cenário político. “Temos a única secretaria LGBT do mundo em segundo escalão, com uma travesti à frente, o que é motivo de orgulho [refere-se a Symmy Larrat, à frente da pasta vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos]. Mas, fora isso, não existe absolutamente nenhuma política pública robusta, nenhuma entrega que impacte de fato a vida material das pessoas trans e travestis”, constata Benevides.

Brasil soberano é país sem transfobia

O tema da 3ª Marsha é “Brasil soberano é país sem transfobia”, dialogando diretamente com o atual debate sobre reconstrução nacional. Para Bruna Benevides, no entanto, soberania não pode ser um conceito vazio ou restrito à política externa.

“A soberania define quem são os corpos que têm direito à cidadania, à proteção e à humanidade reconhecida. Um país não pode se dizer soberano se falha em garantir direitos básicos à sua própria população”, defende.

Ela alerta que a pauta trans tem sido instrumentalizada pela extrema direita como ferramenta de mobilização política. “Hoje, a existência das pessoas trans virou uma urgência eleitoral para o campo antigênero. Somos transformadas em espantalho para produzir medo e angariar votos.”

Ao mesmo tempo, mesmo quando há avanços econômicos gerais, a exclusão persiste. “Uma pesquisa recente do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] mostra que apenas uma em cada cinco mulheres trans e travestis tem emprego formal no Brasil. Isso escancara que essa soberania não nos alcança.”

Para Bruna, a marcha afirma uma ideia de país que não se sustenta na exclusão. “Queremos um Brasil forte, com instituições funcionando, mas que não deixe ninguém para trás. Caso contrário, essa soberania é falha.”

Violência como projeto político

O eixo central da Marsha Trans Brasil segue sendo o enfrentamento à violência. Em 2025, o Brasil confirmou, pelo 18º ano consecutivo, a liderança no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, segundo dados da Transgender Europe (TGEU).

“Isso mostra que não estamos falando de algo pontual ou recente. É uma violência estrutural, histórica, que atravessa governos e projetos políticos distintos”, afirma Bruna.

Ela destaca que a violência não se restringe aos assassinatos. “É o direito à vida, mas também o direito à cidade, ao ir e vir, à felicidade. A violência organiza toda a exclusão que a população trans sofre.”

Segundo Bruna, sem enfrentar a violência como eixo central, nenhuma política pública se sustenta. “Educação, saúde, trabalho, segurança pública e assistência social acabam reproduzindo violências institucionais quando não enfrentam a transfobia de forma direta”, afirma.

E nesse contexto que a Antra defende uma mudança radical de paradigma. “Não queremos apenas reduzir a violência. Queremos erradicá-la como projeto político. Retirar a violência de todos os campos, inclusive dos campos progressistas, para construir um futuro possível para todas as existências.”

Conferências LGBT+

A retomada das conferências LGBT+ foi celebrada como um marco de reorganização do campo político e social. Para Bruna Benevides, elas cumpriram um papel estratégico, mas ainda esbarram na falta de compromisso governamental.

“As conferências foram fundamentais para reorganizar alianças, estratégias e apontar caminhos. Mas sem orçamento, sem metas e sem mecanismos de monitoramento, elas se esvaziam”, avalia.

Ela defende que a pauta da diversidade não pode ser isolada. “Defender o fim da escala 6×1, o financiamento das universidades e a regulação das redes é tão importante quanto garantir que todos os ministérios tenham políticas de diversidade com recursos destinados.”

Em ano eleitoral, o alerta é direto. “Tudo o que foi aprovado precisa entrar nas plataformas de campanha e ser entregue. Caso contrário, seguimos apenas acumulando resoluções sem impacto real na vida das pessoas trans.”

Saúde 

A nova resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), que impõe restrições ao acesso à saúde da população trans, é tratada pela Antra como um dos maiores retrocessos recentes. A medida eleva de 16 para 18 anos a idade mínima para terapia hormonal em pessoas trans.

“Essa resolução faz parte de uma agenda global que tenta apagar pessoas trans da vida pública. Negar acesso à saúde, especialmente para jovens trans, é impor sofrimento institucionalizado. É um ato de tortura”, afirma Benevides.

Ela reforça que a medicina baseada em evidências aponta no sentido oposto. “Todos os estudos mostram que o acesso às tecnologias de afirmação de gênero melhora a saúde mental e a qualidade de vida da população trans.”

A Antra, junto ao Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (Ibrat), acionou o Supremo Tribunal Federal (STF). “O CFM segue um caminho negacionista, e o silêncio do Ministério da Saúde é alarmante. Crianças trans têm direito à saúde conforme suas necessidades. Negar isso é violar direitos fundamentais.”

Eleições 2026 

Com as eleições se aproximando, a Marsha Trans Brasil assume papel central na cobrança por compromissos públicos. Para Bruna Benevides, não há mais espaço para ambiguidades. “A marcha inaugura o ano político dizendo qual é a agenda das pessoas trans. As candidaturas progressistas precisam se comprometer de forma clara.”

Entre as pautas prioritárias estão um programa nacional de empregabilidade, políticas de cotas para pessoas trans em universidades, concursos e editais públicos, além da produção sistemática de dados sobre violência.

Ela também alerta para a repetição dos discursos de ódio em períodos eleitorais. “A cada eleição surge um novo espantalho. É fundamental que o governo e os candidatos estejam preparados para defender uma agenda que não recue e não seja omissa”, pontua.

Para Bruna Benevides, a 3ª Marsha Trans Brasil é, acima de tudo, um ato de disputa de futuro. “Não existe democracia plena enquanto as pessoas trans seguem sendo empurradas para a margem. Queremos viver, trabalhar, estudar e ocupar os espaços de decisão.”

A marcha, afirma, é memória, denúncia e projeto político. “Não estamos pedindo favores. Estamos exigindo direitos. Um Brasil soberano só será possível quando a transfobia deixar de organizar quem pode viver e quem pode morrer.”

Editado por: Clivia Mesquita

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