OUTRO MUNDO POSSÍVEL

Camp inicia 2ª turma presencial voltada a lideranças da economia popular em Porto Alegre

Programa articula grupos e empreendimentos do estado em debates sobre temas como antirracismo e troca de saberes

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O Programa de Formação Continuada é destinado a lideranças sociais que tenham como atividade principal os empreendimentos ou grupos de economia popular e solidária, que residam no RS
O Programa de Formação Continuada é destinado a lideranças sociais que tenham como atividade principal os empreendimentos ou grupos de economia popular e solidária, que residam no RS | Crédito: Clara Aguiar

Teve início, nesta quinta-feira (22), as atividades presenciais da 2ª Turma do Programa de Formação Continuada – Construindo o fazer solidário para um outro mundo possível, promovido pelo Centro de Assessoria Multiprofissional (Camp), na Pousada Salesianas, em Porto Alegre. 

A atividade integra o Ciclo de Formação denominado de “Construindo o fazer solidário para um outro mundo possível”. O objetivo é promover processo de formação continuada para lideranças de coletivos, grupos e empreendimentos da economia popular e solidária, da economia circular, da economia da cultura e de formas alternativas de economia, visando o desenvolvimento de consciência crítica e de classe, na perspectiva  da construção de um outro mundo possível. 

O Programa de Formação Continuada é destinado a lideranças sociais que tenham como atividade principal os empreendimentos ou grupos de economia popular e solidária, que residam no Rio Grande do Sul e que, preferencialmente, tenham participado de pelo menos uma atividade realizada pelo Camp nos últimos três anos.

A iniciativa integra o Projeto de Formação de Agentes de Desenvolvimento em Economia Solidária, desenvolvido e implementado pelo Camp – Escola do Bem Viver, por meio de recursos da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), do governo federal, e conta com o Instituto IDhES como parceiro e responsável pela organização, produção e apoio político-pedagógico.

Formação continuada

O advogado socioambiental e especialista em direitos humanos, Mauri Cruz, do Conselho Diretor do Camp, explicou que a entidade tem um legado de atuação em assessoramento e realização de formações junto à sociedade, como mulheres negras da periferia, agricultores familiares, comunidades tradicionais e iniciativas comunitárias de geração de renda. 

Segundo Mauri Cruz, o Camp tem um legado de atuação em assessoramento e realização de formações junto à sociedade | Crédito: Clara Aguiar

A coordenadora do Camp, Daniela Tolfo, acrescentou que a Economia Popular Solidária segue como um dos eixos de atuação da entidade. 

Com quase 43 anos de atuação — a entidade completa aniversário em março deste ano —, o Camp, segundo Tolfo, carrega um compromisso consolidado com as lutas sociais. Ela ressaltou o empenho da equipe técnica e do conselho da organização para manter viva a atuação da entidade. “É uma trajetória muito longa, um compromisso muito grande para nós da equipe e do conselho, de seguir tocando essa entidade e de poder estar junto com vocês”, destacou.

“Hoje, a gente consegue trabalhar temas mais abrangentes sobre a sociedade, sobre o Brasil que a gente vive, fazer uma leitura comum da nossa realidade, dos problemas e do que a gente vê como possibilidade de a gente trabalhar junto”, afirmou a coordenadora. Para ela, o processo se dá a partir de uma militância política construída dentro de uma organização com longa trajetória histórica.

Tolfo também reforçou que o trabalho desenvolvido será aprofundado em 2026, dando continuidade às parcerias já estabelecidas. Como parte desse processo, o Camp realiza, neste sábado (24), sua assembleia geral, uma das duas promovidas anualmente. O encontro terá como objetivo avaliar as ações realizadas em 2025 e planejar as estratégias para 2026 e 2027, levando em conta o atual contexto político e social do país. “É um momento para retomar tudo o que construímos e pensar os próximos passos nesse Brasil que a gente vem vivendo”, concluiu., 

Acolhida 

A etapa presencial do programa teve início com referências aos ensinamentos de Paulo Freire e um momento de acolhimento, no qual os participantes registraram os nomes de seus ancestrais em uma dinâmica intitulada “Flor da História”.

Uma das dinâmicas consistiu em cada participante escrever o nome de um ancestral, em um gesto de reflexão sobre o passado e legado sobre as gerações | Crédito: Clara Aguiar

Na sequência, foi realizada a leitura coletiva do Protocolo Antirracista do Camp, estabelecendo desde o primeiro encontro um compromisso ético com o enfrentamento ao racismo e à promoção de um ambiente educativo baseado no respeito, na equidade e na justiça social. A atividade contribuiu para alinhar princípios, fortalecer a consciência crítica do grupo e afirmar a importância de uma formação que reconheça e confronte desigualdades estruturais, como o racismo, machismo e LGBTQIAPN+fobia.  

Na sequência, foi realizada a leitura coletiva do Protocolo Antirracista do Camp | Crédito: Clara Aguiar

Espaço de troca de saberes

Representantes de coletivos que estão participando do Programa de Formação destacaram a importância do projeto como um espaço de atualização, troca de saberes e fortalecimento das lideranças comunitárias.

Para Lisbet dos Santos Pinheiro, do Fórum das Mulheres Negras Trabalhadoras da Economia Popular e Solidária (Fespope), a iniciativa é fundamental para qualificar a atuação das lideranças comunitárias. “Eu acho muito importante esse projeto de formação, porque as lideranças precisam estar sempre atualizadas, entendendo o contexto em que vivem e como podem mudar a si mesmas e as suas comunidades a partir das suas lideranças”, afirmou.

Segundo Pinheiro, os debates já realizados têm sido especialmente relevantes, principalmente nas discussões sobre racismo. “A gente precisa entender que racismo não é só ter uma atitude antirracista. É compreender que, à nossa volta, o contexto também tem muitas coisas racistas acontecendo e que a gente precisa atuar em cima disso para, de fato, ser antirracista”, destacou.

Ela ressaltou ainda que outros temas igualmente importantes vêm sendo abordados ao longo da formação. “Questões como machismo e capacitismo são assuntos atuais, que fazem parte do nosso dia a dia e precisam ser debatidos”, disse.

Lisbet dos Santos Pinheiro, do Fórum das Mulheres Negras Trabalhadoras da Economia Popular e Solidária (Fespope) | Crédito: Clara Aguiar

A representante do Fespope também demonstrou expectativa em relação à continuidade da formação. “Espero que sejam dois dias recheados de assuntos que possam nos capacitar e nos mostrar o quanto a gente pode transformar a nossa realidade”, completou.

Representantes de coletivos que estão participando do Programa de Formação destacaram a importância do projeto comopara o fortalecimento das lideranças comunitárias | Crédito: Clara Aguiar

Já Viviane Neves, do coletivo Diálogos de Resistência, de Viamão (RS), destacou que a formação tem sido uma oportunidade de ampliar conhecimentos: “É muito válido ter mais conhecimento sobre gestão, conhecer outras experiências e trocar saberes. Está sendo muito interessante, tudo muito bom”, disse.

Viviane Neves, do coletivo Diálogos de Resistência, de Viamão | Crédito: Clara Aguiar

Ao longo do primeiro dia, os participantes foram organizados em grupos e, a partir de suas realidades, discutiram questões que fazem parte do cotidiano das comunidades, como saúde, educação, economia, cultura e meio ambiente. Um dos momentos centrais foi a construção da “árvore do problema”, metodologia que estimulou a reflexão coletiva sobre as raízes de problemáticas estruturais, entre elas o feminicídio.

Ao longo do primeiro dia, os participantes foram organizados em grupos e, a partir de suas realidades, discutiram questões que fazem parte do cotidiano das comunidades | Crédito: Clara Aguiar
Um dos momentos centrais foi a construção da “árvore do problema”, metodologia que estimulou a reflexão coletiva sobre as raízes de problemáticas estruturais, entre elas o feminicídio | Crédito: Clara Aguiar

As atividades presenciais se encerram nesta sexta-feira (23), mas seguem no formato virtual.

Editado por: Marcelo Ferreira

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