O Centro Acadêmico do curso de Biologia (CABio) da Universidade de Brasília (UnB) sofreu um ataque de um influenciador de direita que faz parte do movimento denominado “Limpe as Universidades”, que mobiliza o público das redes sociais contra o ensino superior público no Brasil.
Segundo o CABio, o espaço foi invadido no dia 5 de janeiro por volta das 16h por três pessoas. O grupo realizou gravações do local e registrou o rosto de estudantes que estavam presentes naquele momento. A centro estudantil alega que, mesmo diante das negativas, as gravações não foram interrompidas, desrespeitando a vontade dos filmados e o direito de imagem.
“Tal conduta configura violação de autonomia dos espaços estudantis, desrespeito aos princípios democráticos do coletivo, além de potencial afronta ao direito de imagem e a privacidade, garantidos pela legislação brasileira. A intimidação por meio de exposição indevida e a tentativa de constrangimento não serão toleradas”, disse o comunicado do CABio.
Intimidação com objetivo político
Em nota, o Diretório Central Estudantil (DCE) Honestino Guimarães da UnB afirmou que o ataque é parte de um método já conhecido da extrema direita de criar pânico moral contra a educação pública com objetivos políticos.
“Afirmamos que as Universidades públicas no Brasil são muito mais que isso: são as grandes responsáveis pelos avanços científicos e tecnológicos produzidos pelo nosso país. As Universidades são o grande sonho de milhões de jovens que sonham em mudar de vida e alcançar um futuro melhor para si e suas famílias. A universidade é produtora de conhecimento socialmente referenciado, se preocupa não apenas com o lucro, mas com o bem estar social e o desenvolvimento da soberania do povo”, defendeu.
A Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB) também se manifestou sobre o episódio e repudiou os ataques da extrema direita na instituição. A entidade destacou que as universidades públicas brasileiras têm sido alvos constantes de setores extremistas que buscam desqualificar o ensino superior público.
“Esses ataques se expressam por meio da difamação, da intimidação, de vandalismos e da tentativa de silenciamento de estudantes, docentes e técnico-administrativos, atentando diretamente contra a liberdade de cátedra, a autonomia universitária e a democracia. A UnB é um espaço de pluralidade, livre organização estudantil e produção crítica do conhecimento. Não aceitaremos intimidações, invasões ou qualquer tentativa de cerceamento das liberdades democráticas no interior da universidade”, disse em nota.
Ataques
Não é a primeira vez que a UnB passa por esse tipo de situação. Em março do ano passado, o Centro Acadêmico de Artes Visuais (Cavis) sofreu ataques de estudantes bolsonaristas, no que chamaram de “ações de limpeza da UnB”. O caso gerou indignação e motivou uma manifestação.
Na época, a reitora da UnB, Rozana Naves, participou do ato e afirmou ser importante que a comunidade acadêmica “se unifique contra o extremismo”. Deputados distritais do campo da esquerda também se fizeram presentes.
No ano passado, durante a sessão plenária da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o deputado distrital Thiago Manzoni (PL-DF) criticou a formação da UnB e disse que os alunos são “moldados para matar quem pensa diferente”.
O distrital afirmou que teria sido agredido verbalmente por estudantes quando fez uma visita ao Campus da UnB no semestre retrasado e encontrou uma imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro morto de cabeça para baixo. Ao filmar a cena, ele alega ter recebido ameaças.
O parlamentar ainda afirmou que os alunos saem do ambiente universitário, “na melhor das hipóteses”, usuários de drogas ou integrantes da “bancada da maconha”.
“Ano passado, semestre passado, não sei bem quando foi, eu fui à UnB e fui ameaçado lá pelos alunos. Fui gravar um vídeo. Lá tinha várias imagens do amor que eles acreditam. Uma delas era uma faixa enorme com Bolsonaro morto de cabeça para baixo. E eu fui gravar aquela imagem e eu fui ameaçado. Disseram que iam fazer comigo igual o Bolsonaro. Mas como eles não são radicais na cabeça deles, isso tudo é válido. Imagina o ambiente universitário onde esses jovens estudam. A mentalidade deles está sendo moldada para matar quem pensa diferente”, declarou na época.
‘A UnB não se intimida’
A Reitoria da UnB repudiou, por meio de nota ao Brasil de Fato DF, o ato de vandalismo. “A instituição reafirma seu compromisso com o respeito à diversidade, à liberdade de expressão e ao debate democrático, princípios indissociáveis de uma universidade pública, plural e comprometida com a formação cidadã”, destaca um trecho.
A universidade informou que adota e fortalece, de maneira contínua, ações voltadas à defesa da democracia e à proteção de sua comunidade e citou como exemplo a “criação do Comitê de Enfrentamento à Desinformação, a regulamentação de imagem no contexto acadêmico, a realização de estudos para a ampliação do sistema de videomonitoramento nos campi e a implementação de medidas adicionais de segurança”.
A nota destaca por fim que: “a UnB não se intimida diante de tentativas de ataque a seus valores institucionais e reafirma seu compromisso inegociável com a democracia”.
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