Medicamento

Canetas emagrecedoras: o perigo de trocar a saúde por um novo padrão estético impossível

Obsessão pela magreza nunca desapareceu de verdade, apenas mudou de forma

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Canetas emagrecedoras
Canetas emagrecedoras passaram a ser vendidas mediante retenção de receita por decisão da Anvisa em 2025 | Crédito: Freepik

Elas prometem emagrecimento rápido, menos fome e resultados visíveis em poucas semanas. As chamadas canetas emagrecedoras, como a Semaglutida e a Tirzepatida, saíram dos consultórios médicos e se popularizaram nas redes sociais e nos ambientes da vida cotidiana.

Tanto a Semaglutida quanto a Tirzepatida são remédios utilizados para tratar diabetes do tipo 2 e obesidade, estimulam a produção de insulina e reduzem a fome. Em um comunicado divulgado no dia 21 de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a apreensão e proibição do Tirzepatida das marcas Synedica e TG.

A medida vale também para o Retatrutida de todas as marcas e lotes. A agência alertou que os produtos foram fabricados por empresas desconhecidas e estão sendo anunciados e vendidos através de perfis no Instagram sem registro, notificação ou cadastro no órgão regulador.

Os alertas ficam ofuscados em meio a tantas promessas de emagrecimento instantâneo. Mas até que ponto esse novo “atalho” para emagrecer está realmente a serviço da saúde das mulheres?

A pressão sobre os corpos das mulheres é antiga, mas agora se apresentam com uma nova roupagem e decretando que a obsessão pela magreza nunca desapareceu de verdade, apenas mudou de forma. Se nos anos 1980 e 1990 o padrão vinha das passarelas e das revistas, hoje ele chega pelas redes sociais e agora também pela medicina. O que antes era dieta restritiva, agora se apresenta como “tratamento”.

O discurso mudou, mas a cobrança permanece a mesma: o corpo feminino precisa ser menor, mais controlado, mais magro.

As canetas emagrecedoras funcionam reduzindo o apetite e aumentando a saciedade. Do ponto de vista médico, elas podem ser extremamente úteis em casos bem indicados e com acompanhamento. O problema começa quando não sentir fome passa a ser visto como virtude, e emagrecer rapidamente vira prova de sucesso pessoal.

Quando emagrecer deixa de ser sinônimo de bem-estar

Nem toda perda de peso é saudável. E nem toda magreza é sinal de equilíbrio. Os transtornos do comportamento alimentar, como anorexia e bulimia, continuam sendo uma realidade grave, especialmente entre mulheres. A anorexia, por exemplo, é uma das doenças psiquiátricas mais letais, com taxas de mortalidade alarmantes.

Nesse contexto, o uso indiscriminado das canetas emagrecedoras merece atenção redobrada. Elas podem: mascarar comportamentos de restrição alimentar; atrasar o reconhecimento de um transtorno; legitimar uma perda de peso perigosa porque “veio de um medicamento”.

O paradoxo é cruel: muitas mulheres recebem elogios justamente quando estão adoecendo.

O corpo feminino sob vigilância constante

Enquanto o corpo masculino costuma ser aceito em diferentes formas, o corpo feminino segue sob observação permanente. Um pequeno ganho de peso se torna razão para comentários sobre aparência. Uma barriga saliente, um incômodo. Já a magreza excessiva é raramente questionada — mesmo quando se torna visivelmente prejudicial.

Nesse cenário, as canetas emagrecedoras acabam funcionando como uma resposta silenciosa a essa pressão. Em vez de questionar padrões irreais, ajustamos o corpo para caber neles. A mensagem implícita é clara: se você não consegue se encaixar sozinha, existe um medicamento para isso.

Existe uma confusão persistente entre magreza e saúde e ela precisa ser desfeita. A biologia humana é diversa. Cada corpo tem uma estrutura, uma genética, uma história.

Muitas mulheres com leve excesso de peso apresentam excelente saúde metabólica, enquanto a magreza extrema pode trazer riscos hormonais, ósseos, cardiovasculares e emocionais. A perda rápida de peso, especialmente quando acompanhada de perda de massa muscular, fragiliza o organismo e pode cobrar um preço alto no futuro.

Ser saudável não é desaparecer, é funcionar bem.

Redes sociais: onde só o “antes e depois” aparecem

Nas redes, vemos resultados, e quase nunca o processo. Não vemos os efeitos colaterais, a ansiedade, a relação complicada com a comida, o medo de recuperar o peso.

O emagrecimento vira espetáculo. O medicamento vira tendência. E o sofrimento fica fora do enquadramento.

As canetas emagrecedoras não são vilãs. Para muitas mulheres, quando bem indicadas e acompanhadas, elas podem ser uma ferramenta importante. O problema não é o remédio, é o contexto em que ele está sendo usado.

Antes de buscar qualquer solução, vale se perguntar:

  • Estou cuidando da minha saúde ou tentando caber em um padrão?
  • Esse desejo vem de mim ou da pressão ao meu redor?
  • Existe acompanhamento médico e psicológico?
  • Meu corpo precisa emagrecer ou precisa ser respeitado?

Talvez o verdadeiro ato de cuidado, hoje, seja lembrar que saúde não é punição, nem controle extremo. É escuta, equilíbrio e gentileza com o próprio corpo. Porque nenhuma mulher deveria precisar desaparecer para ser aceita.

*Luciana Silva Bastos é jornalista e nutricionista especializada em distúrbios hormonais femininos.

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Editado por: Clivia Mesquita

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