Tropas israelenses metralham o carro de uma família palestina que tentava fugir do norte de Gaza. Hind Rajab, uma menina de seis anos, é a única sobrevivente e entra em contato com a emergência do Crescente Vermelho para pedir socorro.
O filme A voz de Hind Rajab, com estreia nacional nos cinemas brasileiros no próximo dia 29 de janeiro, narra a ação da equipe de socorristas para o resgate de Rajab. A utilização de trechos da gravação original da ligação da menina para a central de socorro, e também de vídeos gravados pelo celular, nos jogam dramaticamente para dentro daquela situação. A cronologia dos fatos nos transporta para a central de atendimento do Crescente Vermelho, como se estivéssemos ali acompanhando tudo, em tempo real. Nos agitamos em nossa cadeira pensando em o que podemos fazer para contribuir com a ação e salvar a vida de Hind Rajab.
Resgatar uma criança ferida, vítima de um “acidente”, que em qualquer parte do mundo é algo urgente e que deve ser feito rapidamente, na Palestina invadida se demonstra extremamente complexo e arriscado. O Crescente Vermelho tem que acionar a Cruz Vermelha Internacional – na Suíça, que aciona o Governo de Israel, que fala com o comando do Exército, que tem que comunicar o comando terrestre…. Um vai e vem de contatos num fluxo infinito para, enfim, obterem a “luz verde” para iniciar o resgate. Durante essas tratativas surreais, Hind Rajab segue no telefone suplicando por ajuda e relatando o seu horror: os parentes mortos ao seu lado dentro do carro, a aproximação do tanque, mais tiros, o olho, a impossibilidade de sair do carro por estar presa nas ferragens.
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Uma sensação de impotência toma conta. O tempo vai passando e a humanidade surge como um grito nas lágrimas dos atendentes, na discussão acalorada entre os membros do Crescente Vermelho, na ligação desesperada para o embaixador e em um post de denúncia nas redes sociais. Na situação absurda de se coordenar o resgate de uma criança, os profissionais mais preparados para situações extremas demonstram que são pessoas humanas, não há protocolos e procedimentos que resistam diante de tamanho absurdo. A revolta é legítima e só nos resta ela.
Se Anne Frank nos legou um diário, Hind Rajab nos deixou sua voz.
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“A Voz de Hind Rajab” (The Voice of Hind Rajab) é dirigido pela diretora tunisiana Kaouther Ben Hania. Foi vencedor do Leão de Prata – Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza 2025 e está indicado ao Oscar na categoria Melhor Filme Internacional.
Veja o trailer aqui: https://youtu.be/oQrFhgruWw8?si=DNTskugaqVs5ncCb
*Talles Reis é integrante do MST e da produtora Poética Marginal
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
