A equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou um vídeo bem-humorado e leve do encontro do mandatário brasileiro com o presidente eleito de extrema direita do Chile, José Antonio Kast, durante viagem ao Panamá, na última semana, para o Fórum Econômico Internacional América Latina e Caribe, organizado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF).
“Ontem, tive um encontro importante com o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast. Conversamos sobre o fortalecimento da relação entre Brasil e Chile, com foco na cooperação, no diálogo e no desenvolvimento dos nossos povos. Seguimos trabalhando para construir parcerias sólidas, que aproximem nossos países e contribuam para uma América Latina mais integrada e próspera”, diz a legenda da publicação.
Kast teria demonstrado, no encontro, uma disposição para o diálogo sobre uma série de temas, inclusive para a estabilização da Venezuela, após o ataque militar dos Estados Unidos contra o país, em 3 de janeiro, interessado em que os migrantes venezuelanos que vivem no Chile regressem a seu país de origem.
Lula também aproveitou a visita ao Panamá para se reunir com Rodrigo Paz, o novo presidente boliviano, que interrompeu um ciclo de governos de esquerda no Estado Plurinacional. Não houve postagens nas redes, mas o Planalto divulgou nota em que afirma que os presidentes abordaram “temas relacionados à infraestrutura física e às oportunidades de investimentos entre os dois países”.
“Os presidentes discutiram as rotas para a integração sul-americana e alternativas para garantir o acesso da Bolívia a portos e ao escoamento de sua produção. Também trataram da retomada dos diálogos na área energética e iniciativas conjuntas para combater o crime organizado na Amazônia”, diz o comunicado, informando ainda que “Lula convidou o presidente Rodrigo Paz a realizar uma visita de Estado ao Brasil, prevista para o primeiro semestre de 2026, que deverá contar com a participação de empresários dos dois países”.
O principal interesse dos bolivianos no Brasil é a pauta do gás natural da Bolívia, que reduziu a produção, elevando os preços e, consequentemente, diminuindo a exportação para o mercado brasileiro nos últimos anos.
Além disso, como resultado da reunião, os chanceleres dos dois países foram orientados a fazerem levantamento de projetos prioritários em curso como etapa preparatória ao encontro no Brasil.
Na mesma viagem, o presidente fez uma declaração conjunta com seu homólogo panamenho, José Raúl Mulino, outro expoente da direita latino-americana. Lula foi agraciado com a Ordem Manuel Amador Guerrero, a maior honraria oferecida pelo país centro-americano.
Na declaração à imprensa, além de ressaltar o potencial de intercâmbio comercial entre os dois países, ambos membros do Mercosul, Lula defendeu a soberania do Panamá sobre o canal que liga o Atlântico ao Pacífico, e a adesão do Brasil ao Protocolo de Neutralidade do Canal.
“Como afirmei em Brasília durante a visita do presidente Mulino, nosso país apoia integralmente a soberania do Panamá sobre o Canal. Encaminhei ao Congresso Nacional brasileiro a proposta de adesão formal ao Protocolo de Neutralidade do Canal. Há quase três décadas, o Panamá administra de forma eficiente, segura e não-discriminatória essa via fundamental para a economia mundial”, afirmou o presidente, que ainda visitou, tirou fotos e “operou” uma das eclusas do Canal do Panamá, destacando a grandeza da obra de engenharia e a modernização da estrutura realizada nos últimos anos.
Diplomacia presidencial
Lula tem mantido ativa a diplomacia presidencial, e apenas nos primeiros dias do ano, o presidente brasileiro falou com mais de uma dezena de líderes mundiais, buscando convencer o mundo da opção pelo multilateralismo, em contraponto à doutrina do regime estadunidense. Regionalmente, a estratégia está orientada a dois objetivos centrais: o primeiro, reforçar o papel do Brasil como uma liderança regional; e o segundo: isolar o potencial líder da extrema direita latino-americana, o presidente argentino, Javier Milei, abertamente hostil ao governo brasileiro.
Na mesma linha, há uma preocupação do governo do Brasil em enfraquecer os discursos mais alinhados a Washington, para desarmar uma possível interferência no processo eleitoral brasileiro deste ano.

Bruno Lima Rocha, jornalista da Hispan TV Brasil, cientista político e professor de relações internacionais, acredita que neste momento, quando a diplomacia trata de distensionar a relação com a Casa Branca, a diplomacia brasileira não deve apostar em processos de integração estratégica com a China e Rússia, por exemplo, e considera acertada a decisão de se aproximar de governos da região que, por razões econômicas, têm interesses reais no intercâmbio comercial com o Brasil.
“O Brasil, depois de muito insistir, conseguiu fazer andar o acordo com a União Europeia. Não fechou ainda, mas foi quem fez andar. O Brasil é 80% da América do Sul. Qualquer iniciativa brasileira no sentido de integração econômica já é vista como positiva. É difícil de ser barrada dentro dos interesses pragmáticos dos governos da América Latina, mesmo aqueles de direita”, avalia.
O professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Borba Casella, concorda com essa avaliação e destaca que a recente agressão militar à Venezuela torna essa liderança ainda mais necessária.
“O papel do Brasil como uma liderança regional é algo muito fácil reconhecer e mesmo governos que não estão totalmente alinhados reconhecem a condição do Brasil pelo próprio fato de representar quase metade do território da América do Sul e quase tanto de população. Então, reafirmar o papel do Brasil como liderança regional faz sentido. E exatamente no momento em que se põem medidas agressivas e já ultrapassadas por parte do governo Trump dos Estados Unidos, como a violência feita contra o Nicolás Maduro e a Cilia na Venezuela”.
“O que se observa é uma tentativa de atração de capitais e uma articulação pragmática com governos das direitas latino-americanas. Eu diria que há uma diminuição no ímpeto de integração, porque a integração via Mercosul, forçando o acordo com a União Europeia como grande acerto, é o golaço da diplomacia brasileira no governo Lula 3”, aponta Rocha Lima, mencionando ainda uma série de articulações do Itamaraty para se aproximar de “governos frágeis”, do ponto de vista econômico.
“Com as viagens do Mauro Vieira [ministro das Relações Exteriores do Brasil], buscando fazer uma aproximação econômica com governos muito frágeis, como o governo peruano, que é um governo não eleito, ou governos que vão ter dificuldade também, pois, por incrível que pareça, o Chile tem muita dificuldade em se afastar da economia chinesa e a Argentina tem muita dificuldade de se afastar da economia chinesa, essa presença madura do Brasil, que tem uma relação distensionada com a Casa Branca é positiva”, analisa o pesquisador, que vê como acertada a estratégia para isolar o presidente argentino, Javier Milei, dentro do próprio espectro político ao qual pertence.
“Diante desse quadro todo, eu diria que se o Brasil se mexe e oferece alguma saída pragmática de integração econômica sul-americana e latino-americana, as chances de Milei se movimentar são muito pequenas”, completa o analista político.
Casella, por outro lado, destaca que o próprio Milei colabora para que o presidente Lula ocupe esse espaço. “Isolar o Javier Milei é algo que faz sentido. Por outro lado, me parece que ele já colabora para fazer isso sozinho e não é tão difícil assim. Esperemos que o presidente Lula consiga encaminhar de uma maneira adequada e eficiente essa estratégia. É importante haver um diálogo unificado e, se não unificado, pelo menos evitar vozes discordantes na América do Sul em relação a outros países e outros continentes”, considera o professor.
