Três talentos de Minas Gerais participaram de O Agente Secreto, longa-metragem de Kleber Mendonça Filho que agora é um dos nomes mais fortes para ganhar o Oscar de Melhor Filme Internacional, além de ter sido indicado em outras três categorias.
Laura Lufési, Carlos Francisco e Wilson Rabelo, de corpo e alma, são os rostos que dão vida a personagens emblemáticos na história protagonizada por Wagner Moura. O filme, que se passa no Recife, em Pernambuco, aborda temas sensíveis à história brasileira, indo da ditadura à tentativa de apagamento do passado.
Em clima de celebração dessa mineiridade e do alcance do filme mundo afora, o Brasil de Fato MG conversou com os três artistas. O primeiro, Carlos Francisco, natural de Belo Horizonte, foi homenageado na 19ª Mostra CineBH, e reforçou que a soberania nacional também passa pela cultura.
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No Visões Populares desta quarta-feira (4), foi a vez de falar com Laura Lufési, natural de Mateus Leme, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), que, em O Agente Secreto, estreou nas telas com seu primeiro longa-metragem.
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Na entrevista, a atriz falou da experiência de trabalhar com Kleber Mendonça Filho, de suas raízes mineiras e de como encara e reflete sobre os temas sensíveis abordados pelo filme.
“Para mim, fazer a Flávia é especial porque tenho este rosto que muitos dizem ser ‘muito brasileiro’, fruto da miscigenação. Sou uma negra miscigenada de pele clara. Foi muito forte, pois o papel é simbólico: é a Flávia quem entrega de volta essa memória para o filho. Meu corpo já carrega, de alguma forma, o apagamento histórico e a violência. Para mim, é simbólico quando o Kleber faz essa escolha de quem carregará a narrativa”, afirmou a artista.
Confira entrevista completa:
Brasil de Fato MG – Você imaginou que esse filme te levaria aonde está te levando agora? Como está sendo esse processo?
Laura Lufési – Não mesmo. Quando fiz o teste, eu estava só pensando que nunca mais teria a oportunidade de fazer um filme do Kleber e chegar a uma consulta sobre se eu gostaria de fazer um teste. É o tipo de coisa que nem nos meus sonhos eu imaginaria.
Fazer um filme do Kleber era o ‘top dos sonhos’ da minha vida. Quando chegou a oportunidade, lembro muito da sensação de pensar: “cara, é agora ou nunca”. Ou eu teria que dar tudo de mim, ou talvez isso nunca mais acontecesse. Lembro de ter uma certa fé no sentido de que, se aquilo chegou para mim de forma orgânica, eu conseguiria. No sentido da fé na profissão.
Mas jamais imaginava isso. Tive noção de que seria um filme incrível quando li o roteiro inteiro, momento em que eu já estava no elenco. Com os acontecimentos e as conquistas de Ainda Estou Aqui, isso foi fomentando que seria um filme com repercussão e visibilidade muito grandes, mas, de fato, superou as expectativas que todos nós criamos.
E como foi trabalhar com o Kleber? Como foi alcançar esse sonho? Como é o método de direção dele e como ele potencializou sua atuação?
Acho que o Kleber tem uma coisa fundamental, porque ele é uma pessoa extremamente tranquila e respeitosa. No filme, temos grandes estrelas como Wagner [Moura], Maria Fernanda e Alice [Carvalho], mas também atores que estavam fazendo seu primeiro filme. No meu caso, era o meu primeiro longa.
Ele cria um ambiente em que todo mundo se sente tranquilo, sabendo que está ali para trabalhar. Se ele te escolheu para a personagem, é porque confia no seu trabalho e sabe que você entende a cena. Nesse sentido, o Kleber dá muito espaço para o ator seguir a intuição, mas também diz exatamente o que quer e o que não quer.
Lembro que no meu teste presencial, após a self-tape, ele falou logo de início que não queria que a sequência final da qual eu participo fosse melodramática. Isso era o que ele mais tinha em mente e pontuou desde o começo.
É muito bom ter um diretor que confia em você, mas que também sabe indicar o que deseja. Nosso trabalho como artista é equilibrar o que podemos oferecer com o que o diretor deseja para contar a história.
Que mensagem você acha que isso passa para os novos artistas mineiros que estão te vendo alcançar esses voos?
É engraçado, porque tenho escutado muito sobre isso. Eu fiz dois longas, o do Kleber e, no ano passado, gravei outro, mas existe algo, talvez um tempo de cena ou de pensamento, que as pessoas associam muito aos atores mineiros.
Não é à toa que temos referências como Carlão [Carlos Francisco], Bárbara Colen, Yara de Novais; pessoas muito bem vistas pela singularidade ligada à nossa cultura. Sou apaixonada pelo cinema mineiro, como os filmes da Filmes de Plástico. Acompanho desde sempre; Marte Um é um filme que mudou minha vida.
Quando encontrei o Carlão em O Agente Secreto, fiquei muito emocionada por estar em um filme com ele, mesmo sem contracenarmos. É um tempo muito bom para os atores mineiros. O Kleber trabalha bastante com a gente.
Acho interessante porque, apesar de estarmos no Sudeste, o pessoal de Recife costuma dizer que “Minas Gerais é o Nordeste do Sudeste”. Há proximidades entre Pernambuco e Minas no fazer artístico e cinematográfico. Essa relação que o Kleber criou com Wilson [Rabelo], Carlão e Babi Colen, é algo que espero fortalecer também.
Havia um clima de mineiridade na gravação entre você, Carlos Francisco e Wilson Rabelo? Como foi esse encontro?
Eu não os encontrei nas gravações. Meu núcleo é completamente diferente, eu só contraceno com a Isadora e com o Wagner. Às vezes você vai para a caracterização e encontra outro ator, mas comecei a ter contato com eles nas viagens de festivais.
Com o Wilson gravei um filme no ano passado [Borda do Mundo] em que contracenávamos, ficamos próximos. Quando nos encontramos, temos aquele tempo e aquela conversa que são só nossos. É muito bom estar com eles, que são referências não só de mineiridade, mas de atores negros no cinema para mim. Foi fundamental saber que eles estavam ali.
Você também é uma atriz negra. O debate da representatividade é algo que você carrega?
Com certeza. Quando fiz o teste, ainda não tinha domínio de como a personagem seria construída. Mas falei para o Kleber, depois que li o roteiro e conversamos via Zoom com o preparador de elenco Léo Laca, que essa personagem traz a sensação de estar esperando a vida inteira para falar sobre algo, mas sem ser diretamente explícita.
Para mim, fazer a Flávia é especial porque tenho esse rosto que muitos dizem ser “muito brasileiro”, fruto da miscigenação. Sou uma negra miscigenada de pele clara. Foi muito forte, pois o papel é simbólico: é a Flávia quem entrega de volta essa memória para o filho. Meu corpo já carrega, de alguma forma, o apagamento histórico e a violência. Para mim, é simbólico quando o Kleber faz essa escolha de quem carregará a narrativa.
Vi uma análise interessante dizendo que, quando você institui a política de cotas, você muda a estrutura da pesquisa acadêmica. A presença desses corpos muda a condução da história. Nessa conversa inicial, o Kleber me perguntou como eu achava que era a família da Flávia.
Eu disse que “se Flávia é uma pessoa que, tendo essa visão histórica do país e do que ela significa, o que o corpo dela significa, ela escolher fazer um movimento de enegrecer essa família, seria interessante”. E Kleber me respondeu: “Eu também acho, eu também concordo”. E isso é muito especial, quando o diretor é tão especial.
Você encarna uma personagem que traz a mensagem da memória, de não esquecer e ter acesso a documentos históricos. O que significa viver uma historiadora que resgata essa memória?
Talvez por isso o Kleber pontuou que a sequência final não poderia ser melodramática, porque de alguma forma há um distanciamento. Por mais que eu estude e saiba dos horrores da ditadura, de tudo que a gente ainda colhe daqueles momentos, existe uma distância física da experiência de ter habitado aquele momento.
Habitamos momentos de muita violência recentemente, à beira do fascismo, mas não temos aquela memória específica. Mesmo assim, a Flávia vê aquilo, entende a importância e percebe que algo está muito errado. Ela usa uma “boa malandragem” para, calada, pegar aqueles arquivos e tentar reconstituir a história de quem ficou.
O Kleber desconstroi a ideia de tempo histórico fixo. Memória não é apenas passado, memória é presença. Ela só se constitui se for presente. Esse passado que não acabou ainda constitui nosso presente, mas talvez, alterando algo agora, consigamos reconstruir um passado. O que aconteceu na ditadura é irreparável, mas podemos recontar a história. Esse filme é a gente reconstruindo a história do país.
Diferente da personagem, você é formada em Letras pela UFMG e disse que o curso te ajudaria a absorver melhor os textos para a atuação. Como essa bagagem teórica te ajudou na densidade emocional de O Agente Secreto?
Nas áreas de humanas trabalhamos muito com arquivo, então, eu já tinha essa memória de pesquisa em biblioteca. Mas fazer Letras foi fundamental, principalmente porque foquei em literatura e teatro. Isso é a base do roteiro.
Saber ler e interpretar, não apenas no sentido da atuação, mas no entendimento da cena, da obra. Foi o que essa formação me deu. Adquiri a capacidade de ler uma cena e entender aspectos que não estão ditos diretamente; entender subtextos e detalhes da descrição de uma personagem que mudam tudo.
Como O Agente Secreto foi seu primeiro longa, qual foi o maior aprendizado dos curtas que você aplicou agora?
Algumas pessoas têm preconceito com curtas universitários, mas para mim foram importantes para eu me entender no audiovisual. A maioria de nós não tem a oportunidade de aprender fazendo em um set profissional. Aprendi a ficar tranquila.
Em um set a gente espera muito tempo até gravar, e a tensão pode prejudicar a atuação. Os curtas me deram tranquilidade para estar presente e relaxada na hora da cena, deixando as coisas acontecerem organicamente em vez de ficar pensando mecanicamente em como reagir. Isso é o principal ganho que eu tive fazendo curtas. De como eu me regulo como atriz para me manter presente, mas também mantendo uma tranquilidade.
O que podemos esperar da sua nova personagem no filme Borda do Mundo? Do que se trata o filme?
Borda do Mundo é um filme da Arissas com coprodução francesa, dirigido pela Jo Serfaty. Se passa em Atafona, no Norte do Rio de Janeiro, uma cidade que está sendo engolida pelo mar devido à erosão. É minha primeira protagonista. Interpreto a Lorrane, uma jovem de 18 ou 19 anos lidando com a maturidade, entendendo se deve ficar ou ir embora, compreendendo relações de classe, raça e sexualidade.
Foi um filme em que eu também aprendi demais. Como protagonista, gravei todos os dias, o que foi o maior aprendizado da minha vida. Entrei uma atriz e saí outra. O filme deve ficar pronto este semestre e começar a rodar este ano ou no próximo. É da Vitrine Filmes, a mesma distribuidora de O Agente Secreto. É uma personagem bem diferente, mais jovem. Estou animada.
Você mencionou que era um sonho gravar com o Kleber e já trabalhou com grandes nomes. Tem algum outro sonho no mundo artístico?
Eu brinquei que ‘realizei meu maior sonho, agora vamos para os próximos’. Tenho muita vontade de trabalhar com o Gabriel Martins; sou fã da Filmes de Plástico. Também sonho trabalhar com a Grace Passô. Tudo o que ela faz é impecável. Ela escreve, atua e dirige maravilhosamente bem. Eu ficaria até nervosa, sou muito fã.
Há vários cineastas que adoro, como Érico Rassi, Carol Markowicz, Yara de Novais e o Pedro Freire, que fez Malu. Muitos sonhos para se realizarem aos poucos.
